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O teatro pode funcionar como instrumento de inserção social e política

O arte-educador Wellington Oliveira transforma cidades do DF por meio do universo cênico

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postado em 09/11/2016 07:30 / atualizado em 09/11/2016 13:21

Diego Ponce de Leon /-

 

Arquivo/Ateliê Aberto

 

Na página virtual do Ateliê Aberto, coordenado por Wellington Oliveira, pode-se ler: “Acreditamos na juventude enquanto protagonista de ações transformadoras dos territórios de convivência, por meio do teatro e da criação de novos sentidos e usos para os espaços da cidade. Desenvolvemos experiências de teatro em comunidade feito para, na e com a comunidade”. E Wellington leva essa missão adiante cotidianamente.


Aos 26 anos, mestre em artes pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da rede pública de ensino, o arte-educador acredita na potência do teatro como ferramenta de subversão social e mudança de paradigmas. Por meio do universo cênico, assim como ensinou Augusto Boal, Wellington gradativamente transforma as comunidades onde atua — Planaltina e Vale do Amanhecer —, promovendo o encontro entre a escola, o teatro e a comunidade. Uma iniciativa rara no Distrito Federal.

 

“Desenvolver um trabalho de teatro em comunidade, principalmente no contexto político atual, é uma oportunidade para o exercício de uma democracia participativa, criando espaços de gestão coletiva dos cidadãos, requalificação de espaços públicos, entre outras possibilidades que as formas de construção e organização artísticas propiciam”, afirma.

 

Transformações que Wellington testemunha na sala de aula, a partir do relato dos alunos, ou ainda nas ruas, quando consegue atingir pessoas que jamais tiveram contato com o meio teatral: “Em uma turma de quase 40 alunos, apenas dois afirmaram já ter ido ao teatro. E essa também era a realidade da grande maioria dos estudantes que participaram do processo de criação que desenvolvi no Vale do Amanhecer, chamado Muro de promessa”. O trabalho, segundo Wellington, foi no sentido de “ampliar a percepção dessa comunidade acerca do que consideravam teatro”.

 

Simbolismos

 

Pois Muro de promessa gerou uma autoestima coletiva e aguçou a sensibilidade dos moradores em relação à própria região onde se vive. “A comunidade que presenciou as manifestações artísticas se reconhecia no que estava sendo apresentado e muitas vezes revelava interesse de participação nos próximos trabalhos. O território onde moram foi reconhecido enquanto espaço cultural, enquanto um lugar que agrega histórias, memórias, simbolismos, conteúdos, pessoas”, observa o professor.

 

Sem deixar o Vale de lado, Wellington está se debruçando atualmente sobre um novo processo, Tsunami, que vem sendo construído com a participação direta de alunos das escolas públicas de Planaltina. Em formato de ensaio aberto, com direção de Jonathan Andrade e interpretação vigorante de Ana Flávia Garcia, Wellington convida os estudantes a opinar, criticar e interagir com o futuro espetáculo, que se molda a partir do olhar desses primeiros espectadores: “Os estudantes estão acompanhando semanalmente, dialogando com os artistas e vivenciando as diversas camadas da criação e da produção teatral. Assistem aos ensaios, vivenciam exercícios propostos à atriz, debatem, sugerem possibilidades de identidade visual para o projeto, entre outros”.

 

Assim, Wellington espera que cada um desses alunos corra para casa e reapresente para os pais o que viram na sala de aula. Formação de plateia a partir da própria plateia, e revertendo o sentido linear, quem nem sempre se mostra eficiente. Se os pais não tiveram contato com o teatro lá atrás, talvez possam ser os filhos os responsáveis em acender esse interesse. É essa a missão, e a história de vida, de Wellington.

 

>> Entrevista // Wellington Oliveira  

 

Na sua infância e juventude,  como a arte chega? Teve contato com teatro desde cedo? 

A escola teve um papel muito importante em minha trajetória artística. Meu primeiro encontro com o teatro foi através de um espetáculo do Grupo Bagagem e Cia., com 5 anos de idade, em um passeio escolar. Cheguei em casa juntando roupas velhas e objetos para tentar mostrar para os meus avós e primos o que eu tinha visto no teatro. Comecei brincando e essas brincadeiras foram ficando cada vez mais frequentes, além das idas ao teatro.

 

E quando se envolve, de vez? 

Aos 13 anos, conheci o Grupo Carruagem de Teatro, dirigido por Sarah Salles, em Sobradinho. Durante dois anos, com o grupo, composto por adolescentes, ensaiamos dois espetáculos e fizemos muitas temporadas no Teatro de Sobradinho, recebendo as escolas da cidade. Aos 15 anos, com o fim do Grupo Carruagem, ingressei no Grupo de Teatro Carlitos, dirigido por Raquel Lima, uma das professoras de teatro mais atuantes de Sobradinho. No Grupo Carlitos, encontrei pessoas mais experientes, alguns com formação em artes cênicas, expandindo o meu olhar acerca do teatro e começando a compreender isso como uma escolha profissional.

 

E como surge essa vontade de integrar comunidade, alunos e teatro?

A minha trajetória me levou a isso. Ingressei em artes cênicas com a clareza de que seria professor. O teatro foi essencial para o meu desenvolvimento, para a minha formação política e pessoal. Era o teatro que me dava voz, a possibilidade de criar os meus mundos possíveis, sonhados, desejados. E foi também o teatro que me levou a lugares que minha família considerava impossíveis, a universidade pública, por exemplo. Fui o primeiro da família a ingressar na universidade e cheguei até ela por causa do teatro, dos encontros que tive através da arte e, sobretudo, de experiências que me levaram ao lugar de protagonista das minhas realizações.

 

E os alunos e a comunidade? Quando entram nessa equação? 

Essa integração — escola, aluno, comunidade — é o pilar de qualquer projeto político e pedagógico comprometido com uma formação integral, cidadã. Como professor de teatro, os limites do muro da escola também não me satisfazem, tenho necessidade de saber mais sobre os estudantes que passam a conviver comigo, sobre suas vidas, o lugar onde vivem... A escola é feita dessas realidades e são elas que precisam muitas vezes ser reinventadas para que de fato os conhecimentos façam algum sentido na vida dos cidadãos que ali estão para se desenvolver.

 

Qual o valor de se desenvolver, por exemplo, um trabalho artístico de rua no Vale do Amanhecer? 

A profundidade dos debates acerca da cidade, nosso campo de investigação e fonte de dramaturgias, sem dúvidas teve um impacto na vida desses jovens, dos pais destes jovens e das pessoas que assistiram ao espetáculo. Por se tratar de uma comunidade periférica com poucos espaços de fala e de debate, o processo foi potente por abrir um espaço de protagonismo para os cidadãos. Olhar a cidade com esse foco vai contra todas as estruturas hegemônicas que desqualificam as comunidades periféricas e constroem a visão de que não há possibilidade de desenvolvimento nestes lugares. Isto, vinculado à experiência de se ver em cena, apresentando um espetáculo para a comunidade, debatendo o lugar em que vivem, foi para os jovens do Vale do Amanhecer uma oportunidade de reconhecimento das suas capacidades de mobilização e de potenciais produtores de cultura.

 

O que seria, de acordo com sua pesquisa e experiência, o teatro comunitário? E qual a importância de se desenvolver esse trabalho?

O teatro em comunidade se relaciona com um determinado lugar, contexto ou um território, seja uma cidade, uma prisão, uma escola, espaço cultural. Em minha experiência, o teatro em comunidade se caracteriza pela inclusão das próprias pessoas da comunidade na criação teatral, visando o fortalecimento dos vínculos entre os cidadãos e o desenvolvimento do território em que vivem. É um teatro que confere voz e protagonismo à população, buscando através da linguagem, da poesia e da estética, novas maneiras de ver o mundo, alternativas de existência, análise e transformação social.


No DF, estamos carentes de iniciativas nesse sentido?

A produção artística brasiliense é bastante engajada. Temos espetáculos que geralmente circulam pelas regiões administrativas e chegam às escolas principalmente como contrapartidas sociais. São ações bastante significativas enquanto democratização do acesso e formação de espectadores. Em relação às práticas artísticas comunitárias, vejo muitos grupos que propõem processos de criação a partir da investigação de comunidades e histórias de pessoas, porém, quando falamos em protagonismo da comunidade, fica um pouco mais difícil encontrar referencias aqui no DF. Não basta reunir um grupo, é preciso repensar formas de organização, relações, conteúdos e posicionamentos estéticos. É preciso forjar as relações dentro de uma lógica dialógica e reflexiva acerca da realidade que as pessoas desejam transformar.

 

//Saiba mais...

O teatro comunitário perpassa necessariamente pelos ensinamentos do diretor, dramaturgo e pensador Augusto Boal. Por meio do Teatro do Oprimido e da premissa de que “somos todos atores e espectadores”, Boal nos leva a pensar no teatro como ferramenta de emancipação social e joga luz sobre a força transformadora da arte principalmente em locais abandonados pelo poder público, mas capazes de liderar grandes revoluções culturais. A comunidade como protagonista de sua própria história. 

 

 

 

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