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Livro de Sabrinah Giampá coloca cabelos cacheados em pauta

As mulheres negras sofrem muito mais. Isso acaba até prejudicando o desenvolvimento de muitas meninas na escola, e em outras esferas

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postado em 10/11/2016 07:30 / atualizado em 10/11/2016 09:08

Rebeca Oliveira /

Em Cabelo, Cal Gosta canta: cabelo vem de lá de dentro. Mais que dar moldura ao rosto, os fios expressam identidade e conexão com as raízes. Acreditando nessa máxima, a jornalista Sabrinah
Giampá luta há mais de cinco anos contra a supremacia do cabelo liso. “Comecei como um processo interno. Nós, cacheadas, passamos por uma lavagem cerebral muito grande, seja na escola ou na família, por nos dizerem que nosso cabelo é inapropriado. A falta de informação e de produtos específicos no mercado colabora para que cresçamos achando que tem algum defeito nos fios e em quem a gente é. Até aceitar meu cabelo natural levaram muitos anos, e muita terapia, para perceber que todo cabelo tem sua beleza. Antes, me olhava no espelho e não me reconhecia”, recorda.

Em 2012, depois de assumir os cachos, ela passou a ser abordada na rua. Ao pedido de desconhecidos por dicas de beleza e estilo, somavam-se as solicitações de amigos e familiares por novos produtos e tendências. Ela notou que poderia aumentar o poder de fala com o uso de uma ferramenta mais democrática, e passou a escrever sobre empoderamento a partir dos cabelos no blog Cachos e Fatos.

Quando decidiu se especializar como cabeleireira, afim de dar conselhos mais assertivos, notou que não haviam bonecas e manequins com cabelo crespo no Brasil. “As aulas funcionavam com a seguinte demanda: se não é liso, alisa. Empurra uma progressiva, faz uma escova. Eu comprava bonecas gringas porque queria aprender. Cada cabelo tem uma peculiaridade, e notei que os cacheados exigem cortes e cuidados mais intuitivos”, relembra. O público logo se identificou com a iniciativa. Do reconhecimento na internet surgiu o convite para a publicação de O livro dos cachos, lançado no fim de outubro. “Pesquisei e aprendi muito com as negras americanas”, recorda.

Na visão de Sabrinah, o preconceito com os cachos tem ligação direta com o racial. “Tudo que se aproxime da estética negra, no Brasil, se torna repudiável. Quanto mais crespo seu cabelo, mas preconceito sofrerá. Eu queria libertar as mulheres desse racismo e desse machismo, porque vivemos não apenas o preconceito étnico, mas a ditadura do longo e liso. Toda criança quer ter cabelão assim porque isso é introjetado naturalmente”, critica.
 “
As mulheres negras sofrem muito mais. Isso acaba até prejudicando o desenvolvimento de muitas meninas na escola, e em outras esferas. Uma pessoa com baixa autoestima não consegue nada na vida. À medida que ela se gosta, várias portas se abrem. Foi o que aconteceu comigo e que vejo acontecer com várias clientes. É um processo interno de autoaceitação, de amor-próprio, de fugir desses padrões enraizados em nossa cultura”, avalia. “As pessoas que têm outro tipo de cabelo se sentem obrigadas a entrar nesse padrão até para arrumar emprego, em pleno século 21. Isso aconteceu muito e conto alguns casos no livro”, conta a jornalista, que tem um salão na garagem de casa, batizado de Garagem dos cachos.


O livro dos cachos

Paralela, 144 páginas. Preço: R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book).

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