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Julia Lemmertz não quer saber de polêmica em torno do longa Aquarius

Pequeno segredo, selecionado para vaga no Oscar, bateu a aposta que cercava filme com Sonia Braga. Registro de cavalar dose de amor, filme estreia hoje

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postado em 10/11/2016 07:37 / atualizado em 10/11/2016 10:36

Ricardo Daehn

Jorge Bispo / Divulgação
 
A maior das viagens dos reconhecidos velejadores Vilfredo e Heloísa Schürmann foi das mais louváveis: pelo altruísmo extremo, adotaram a pequena Kat, neozelandesa com sangue brasileiro, cujos pais biológicos morreram de Aids. Tão surpreendente história, rendeu não apenas um livro, mas veio a se desdobrar nos cinemas, pelas mãos do diretor David Schürmann, irmão da adotada menina Kat. “O filme é uma história de generosidade, de amor incondicional — tudo contado de maneira não-linear”, observa a atriz Julia Lemmertz que, no filme, interpreta Heloísa.

Em coprodução feita com a Nova Zelândia, o filme Pequeno segredo passou por desgastante exposição, ao ser escolhido para representar o Brasil na corrida por uma vaga ao Oscar 2017. Pesava na conjuntura da seleção, um desempenho admirável de Aquarius no Festival de Cannes. Sem constrangimentos ou rusgas, é a diplomática Julia Lemmertz, que no longa contracena com a Mariana Goulart (no papel de Kat), quem dá veredito, em entrevista ao Correio: “A polêmica toda veio para confundir, para criar um clima, uma celeuma desnecessária”.

Às vésperas de ser avó, aos 53 anos, Lemmertz gosta da carga de maternidade que embala Pequeno segredo. “Há uns três anos, antes de partir num veleiro novo, batizado de Kat, conversei longa e profundamente com a Heloísa. Aquilo causou um impacto enorme em mim; aprofundei o entendimento e a relação de efeito, de vida e morte, na família”, explica. Inevitavelmente, filha da cultuada atriz Lílian Lemmertz (morta em 1986), Julia remexe nas memórias, ao lançar Pequeno segredo, que chega hoje às telas: “Tem lugares em que a gente se encontra, várias vezes — eu e minha mãe. Como ela, tenho um forte sentido de justiça e uma falta de paciência para firulas”. “Hoje em dia, não sei mais o que sou eu e o que é o que ela me deixou. O sentido da maternidade, de criar um filho pra vida, pro mundo, esse amor profundo e, ao mesmo tempo, libertador, acho que herdei dela”, completa.



Entrevista // Julia Lemmertz

A gente pouco vê uma associação sua com comédia. É uma escolha?

Eu não faço distinções: acho que está tudo meio junto. A última peça que fiz, antes da atual, foi Deus da carnificina, num misto de comédia e drama. Não é algo que me preocupe, mas talvez a verdade é que eu seja mais intensa. Mas acho comédia legítima e divertida. Mesmo, no Pequeno segredo, com a carga dramática toda, tem momentos bem leves. A Heloísa, que eu interpreto, é muito pró-ativa, ela não fica muito no drama. Ela é muito de botar para cima: de trabalhar a vida.

A sequência que fala da condição de saúde da Kat deve ter sido das mais difíceis, não?
A cena da revelação da Heloísa para a Kat (na qual desponta o segredo do título), sei que foi muito difícil para a Heloísa da vida real. O que me preocupava era que a emoção não ficasse maior do que aquela cena. Não queríamos um melodrama: uma coisa é passar um acontecimento na vida, e outra é representar aquele momento. Fizemos de maneira delicada e sincera. Como já era na etapa final das filmagens, eu e Mariana Goulart (que interpreta Kat) estávamos naturalmente muito próximas uma da outra. A nossa relação, independentemente de todos os elementos de set, estava muito intensa. Foi uma cena custosa, no sentido emocional.

É um desgaste mais comedido, em relação a Amor?, seu filme anterior?
Amor?, ao contrário de Pequeno segredo, teve um longo depoimento sobre sentimentos que só teve sentido por eu estar lidando com um depoimento de verdade, reproduzindo ele. Foi tudo intenso, de cara, e sem muito controle. Agora, com Pequeno segredo, não podia chorar excessivamente, nem perder a linha com a personagem. A força está na presença daquela mãe que segura, na vida, a onda daquela menina. Foi duro ela falar para a Kat daquela situação dolorosa e que ela esperava haver um momento mais adequado para ser dito.

Como foi a reação da dona Heloísa Schürmann quando assistiu ao filme?
A primeira vez que ela viu o filme foi ao lado do Vilfredo. Vi de mãos dadas com ela. Foi muito tocante: vi o filme de uma forma diferente; vi só com o coração, porque ela ficou muito emocionada. O filme inteiro, ela ficou devastada, mas para o bem. Ela reviveu a história dela. Ela ficou encantada. Foi bonito de ver o quanto a gente conseguiu fazer um filme para quem realmente precisava que fizesse sentido. O filme é para eles: é uma homenagem para ela.

Houve constrangimento seu, em relação à pré-candidatura ao Oscar que veio a desbancar Aquarius? Como viu este filme de Kleber Mendonça Filho?
Acho Aquarius um filmaço. Acho o encontro da Sônia Braga com o Kleber Mendonça algo espetacular. A Sônia faz o que ela quer no filme, e o Kleber acolhe e abre os braços para ela. O amálgama é uma maravilha. Quanto ao episódio todo, não fiquei constrangida, fiquei chateada: nenhum dos dois filmes precisava do que aconteceu. São filmes com fontes completamente diferentes: de inspiração, de vida, de informação. Os diretores são diferentes. O David Schürmann está fazendo o primeiro filme da vida dele, com Pequeno segredo, ele tá contando a história da família dele! A polêmica toda veio para confundir, para criar um clima, uma celeuma desnecessária.

Mas, e as reações...?
Acho que eu nunca teria o direito de dizer, por exemplo, que o Aquarius deveria estar no Oscar e o Pequeno segredo, não. Não fiz parte do júri. Só acho uma sacanagem dizer que, com Pequeno segredo, temos “um filme golpista”. Virou um Fla-Flu, tipo uns contra os outros. Acho isso de uma burrice extrema e de uma violência desnecessária. Ninguém se beneficiou: o filme passou a receber um olhar menos complacente e amoroso do que ele merecia ter. Opinião é que nem bunda; cada um tem a sua (risos). Adorei Aquarius registrar a maturidade da mulher, criticar as empreiteiras que querem desalojar as pessoas. Já Pequeno segredo está aqui, está sendo lançado e conversa com um tipo de público, que quer falar de família, de amor, de generosidade. Ok: isso também é bom, faz bem para o mundo.

Impossível falar contigo sem lembrar da sua mãe (Lilian Lemmertz). Que herança ela te deixou?
Meu pai (o ator Lineu Dias) e minha mãe estão muito presentes na minha vida. Quando a gente pensa, hoje: quando ela morreu, eu tinha 23 anos. Então, eu estava começando a minha vida profissional, e perdendo a minha mãe que era uma baita referência, e a gente tinha planos de trabalharmos juntas. Fiz só uma pequena cena com ela, quando criança, no filme Patriamada. Hoje em dia, não sei mais o que sou eu e o que é o que ela me deixou. O sentido da maternidade, de criar um filho pra vida, pro mundo, esse amor profundo e ao mesmo tempo libertador eu acho que herdei dela. Minha mãe fazia peças, projetos, mas comigo, ela tinha uma ligação muito grande. Não era uma coisa de “mãezinha” e “filhinha”, era de mulher, de leoa, de querer te fortalecer e, depois, no final da vida, eu era meio mãe dela. A gente teve um encontro, ao longo da vida, único.

A peça que você atualmente encena, A tragédia latino-americana e a comédia latino-americana, fala de transformações profundas, no amplo âmbito da América. O Brasil vive exceção?
É uma peça radical, com textos de literatura latino-americana. Tem Reinaldo Moraes, Paulo Leminski, gente muito doida (risos) e de qualidade. A gente tende a achar que não é América Latina: como se o Brasil não fizesse parte. Digo isso, de modo leviano e genérico. Quando fazemos uma peça como esta, percebemos que estamos no mesmo panelão. Fomos colonizados, vilipendiados, fomos extorquidos, fomos violentados, igualmente, e estamos na mesma merda, por estas questões. Tudo veio de diferentes maneiras, mas se a gente olhar para o mundo, politicamente, na América Latina vivemos na mesma situação, em diferentes graus. Mas, a literatura de lá — Chile, Argentina, Cuba, México — e a daqui renderam um painel expressivo e fértil. Mesmo tratando lá do século 13, estamos falando politicamente dos nossos países: para o bem e para o mal.

Cabe ao artista se manifestar, na atualidade?
A gente vive um momento político difícil de engolir. Nisso, as pessoas se manifestam e eu me manifesto também. Cabe ao cidadão se manifestar, seja ele artista ou não. Mais do que nunca, precisamos pensar; não podemos nos eximir. Você tem encontrar espaços em que possa modificar situações. A consciência política tem que ser exercitada. Estou petrificada com o momento: preocupada. Ao mesmo tempo, há uma oportunidade de ouro para se colocar, para melhorar o que puder ainda ser salvo. Tem jogo: a bola está correndo, e estamos em campo. O que acho inadmissível é perder direitos conquistados. 

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