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No último disco antes de morrer, Leonard Cohen cantou a morte

A morte de Leonard Cohen, aos 82 anos, comove o mundo da música. O poeta e cantor canadense havia lançado 'You want it darker' em tom de despedida no mês passado

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postado em 12/11/2016 07:35 / atualizado em 11/11/2016 17:54

Alexandre de Paula - Especial para o Correio /

DIEGO TUSON
 

 

Aos 82 anos, Leonard Cohen assustou muita gente ao dizer recentemente, em entrevista à revista New Yorker, que estava pronto para morrer. “Espero que não seja muito desconfortável”, disse o cantor e compositor. A morte, de fato, não demorou muito a chegar para o canadense, que a recebeu tranquilamente, segundo o filho Adam Cohen. O anúncio oficial ocorreu na noite de quinta-feira pela gravadora do músico, na página do cantor no Facebook.

“É com profundo pesar que informamos que o lendário poeta compositor e artista Leonard Cohen faleceu. Perdemos um dos mais reverenciados e prolíficos visionários da música. Uma cerimônia fúnebre terá lugar em Los Angeles numa data posterior. A família pede privacidade durante o seu período de luto”, diz o comunicado.

A data exata e a causa da morte do músico não foram revelados. Apesar do anúncio no fim da noite de quinta-feira, há rumores de que a morte do cantor teria acontecido antes. De acordo com o site de fãs Leonard Cohen Forum, que antecipou várias informações em outros momentos, Cohen teria morrido na segunda-feira e o enterro já teria ocorrido em Montreal.

“É com grande tristeza que devemos relatar que Leonard faleceu na segunda-feira (7/11). Como era seu desejo, ele foi enterrado em uma cerimônia tranquila e privada em Montreal. Leonard está em casa novamente”, diz o post do fórum.

Sem esclarecer a causa e o momento exato em que a morte aconteceu, o filho do cantor, Adam Cohen, disse ao The New York Times que Cohen trabalhou até os últimos momentos. “Meu pai morreu pacificamente em sua casa em Los Angeles com o conhecimento de que havia terminado o que sentia que era um de seus melhores discos. Ele escreveu até seus últimos momentos com a marca característica do humor.”

Adam produziu o último álbum do cantor, You want it darker (lançado no fim de outubro). No disco, o compositor falava abertamente sobre a morte e se aproximava de temas ligados à espiritualidade e à religião. Deus era presença constante. Tranquilo com a idade, Cohen deixava de lado, no álbum, um pouco da angústia característica de sua obra.

Na mesma entrevista à New Yorker em que disse que estava pronto, Cohen afirmava também que You want it darker poderia ser, de fato, o último disco. Ele também revelava que tinha canções inacabadas e trabalhava nelas, mas não sabia se teria tempo para terminá-las.

Antes mesmo das entrevistas falando sobre a morte e do disco, Cohen já  deu, neste ano, indícios que se preparava para morrer. Em julho, depois da morte da companheira Marianne, Cohen escreveu uma emocionada carta de despedida em que dizia: “Bem, Marianne, chegamos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que te seguirei em breve”, escreveu.

 

 

Trajetória 

 

O músico nasceu em 21 de setembro de 1934, em Montreal, no Canadá. Por muito tempo, Cohen preferiu a literatura à música, tanto que, no início, tinha certeza de que se tornaria escritor . O primeiro disco veio tarde, em 1967. Cohen recebeu vários prêmios tanto na música quanto na literatura e chegou a ser um dos cotados para receber o Nobel de Literatura, concedido a Bob Dylan neste ano (que Cohen elogiou).

A vida musical do canadense sempre foi repleta de pausas. Uma das passagens muito lembradas foi que, mesmo judeu, Cohen, em 1994, virou monge zen-budista e se enclausurou num mosteiro na Califórnia. Depois de sair, disse ter dúvidas se a experiência lhe acrescentou algo espiritualmente.

Depois de mais uma de suas longas pausas, em 2008 Cohen voltou aos palcos por um motivo, pelo menos em parte, nada poético: um calote. O então empresário do cantor levou quase todo seu dinheiro e o deixou em uma condição bem complicada. O músico fez shows até 2013, quando o estado de saúde  o impediu de continuar se apresentando.

Durante a carreira, Cohen compôs clássicos como I’m your man e Suzanne. A mais conhecida canção do compositor, porém, talvez seja a balada introspectiva Hallelujah. Escrita em 1984 e rejeitada pela gravadora à época, que a achou pouco comercial, a música estourou com a interpretação de Jeff Buckley. Depois dele, mais de 200 artistas gravaram Hallelujah, de Bob Dylan a Justin Timberlake, e a música se tornou quase obrigatória em trilhas e realities de música.   

 

 

 

O dom da palavra


Onze anos é um bom pedaço de vida, diria Leonard Cohen. Foi esse o tempo em que o canadense dedicou à literatura antes de lançar o primeiro disco. Embora seja mais conhecido pelas composições e músicas da carreira que teve início em 1967, foi um exímio em construir poemas e narrativas tão pungentes quanto a voz grave que o consagrou. Tinha quase certeza que seria escritor por toda a vida, fazendo da música apenas um ganha-pão. Ao todo, publicou 12 livros.

No primeiro romance, A brincadeira favorita, Cohen mescla um tom autobiográfico a descobertas de Lawrence Breavman, com narrador se confundindo ao protagonista. Da infância à juventude, a obra acompanha a vida do único filho de uma família judia em Montreal, no Canadá. O livro foi lançado em 1963 e só chegou ao Brasil décadas depois, com tradução feita pela extinta Cosac Naify.

A vida em constante movimento e a procura por uma retidão espiritual o inspiravam tanto nas composições quanto na escrita. Antes de o feminismo se tornar a pauta do momento, Cohen já celebrava as mulheres na escrita. Fundamental para gabaritá-lo como um dos maiores poetas e compositores do século, a fase literária de Cohen nunca se deu por encerrada, embora a última publicação, Book of longing, date de 2007. Como Bob Dylan, de quem foi amigo, era um híbrido de escritor e músico, exercendo com maestria os dois papéis. Em 2012, o artista foi biografado pela jornalista Silvye Simmons. I’m your man (Best Seller) chegou ao Brasil este ano, comprovando, em 503 páginas, a complexidade do canadense.

 

Prêmios

Durante toda a carreira, Cohen recebeu diversos prêmios. Além de vários Grammys pelos discos, o cantor recebeu uma homenagem especial da academia pelo conjunto da carreira. Em 2008, ele entrou para o Rock & Roll of Fame. Com várias homenagens no Canadá, ele foi homenageado também com o Príncipe das Astúrias em 2011, mais importante premiação literária da Espanha. 

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