SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Artigo: Leonard Cohen deixa uma marca indelével na música e na poesia

A desilusão foi o combustível de sua obra. Cohen nunca foi muito fiel à própria carreira.

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 12/11/2016 07:00 / atualizado em 11/11/2016 18:12

Paulo Pestana, Especial para o Correio

NICOLAS MAETERLINCK
 

 

“Exaltado e santificado seja o Teu sagrado nome
Desprezado e crucificado quando na forma humana

Um milhão de velas queimando por ajuda que nunca veio

Você quer mais escuridão

Aqui estou,
Estou pronto, meu Senhor”


As últimas palavras de Leonard Cohen em You want it darker, disco lançado há três semanas, não deixam dúvida de que ele sabia que era uma despedida. Era uma conversa íntima com o Criador. Treaty, outra canção do mesmo disco, o 31°, continuava as reflexões:

“Eu vi você transformar água em vinho
Vi transformá-lo de volta em água, também
Sentei em sua mesa todas as noites (…)
Eu gostaria que houvesse um pacto
Entre o seu amor e o meu”


Numa das suas últimas declarações públicas, Leonard Cohen disse que pretendia viver até os 120 anos de idade. Não era mentira. Mas ele sabia que não era possível e que o fim da linha estava próximo. Tratou de aprimorar seus monólogos com o divino e fez uma bela obra final — produzida pelo filho, Adam.

A desilusão foi o combustível de sua obra. Cohen nunca foi muito fiel à própria carreira. Em 2004 decidiu, pela segunda vez, abandonar a ribalta, mas voltou em 2012 com o disco Old Ideas e em 2014 com Popular problems, incentivado pelo mais comezinho motivo: falta de dinheiro. Descobriu que estava quebrado; tinha sido roubado em mais de US$ 5 milhões pelo empresário.

Mas, mesmo na necessidade, ofereceu um punhado de belas gravações, daquelas que podem ser ouvidas ou lidas e que confundem os beletristas: são poesias ou canções? A street, almost like the blues ou Born in chains puseram lenha na fogueira das vaidades ao mesmo tempo que extasiaram quem teve oportunidade de ouvi-las.

Em You want it darker a motivação era outra. Como David Bowie fez em seu disco quase póstumo, Blackstar, Cohen prestou contas, arremessou dúvidas, perplexidades e algumas definições ao ventilador. Uma canção como Leaving the table, aparentemente conformista (“Estou deixando a mesa/ Estou fora do jogo”) é na verdade um posicionamento de certezas, onde o arrependimento não tem vez (“Eu não preciso de perdão/ Não há ninguém para culpar”).

Mesmo para um compositor ligado a temas divinos — Hallelujah, provavelmente sua canção mais conhecida, é um épico bíblico — Cohen surpreende na despedida. Ele tinha planos para o futuro, conforme confessou à revista The New Yorker; gostaria de terminar alguns poemas e músicas, embora, mais do que tudo, quisesse colocar “a casa em ordem”, revelando um pragmatismo que está muito distante de sua obra.

Cohen, na verdade, iniciou sua tardia carreira — começou a gravar aos 34 anos — por motivos financeiros. Com a herança deixada pelo pai, morto quando tinha 9 anos de idade, mudou para a ilha de Hydra, na Grécia, onde publicou os primeiros livros: o romance The favorite game (1963), a coletânea de poesias Flowers for Hitler (1964) e Beautiful losers (outro romance, 1954). Nada aconteceu e ele radicalizou: mudou-se para Nova York, onde conheceu Judy Collins, que gravou duas canções dele, incluindo Suzanne, um grande sucesso.

A partir daí, Leonard Cohen exerceu uma liderança de eminência parda sobre toda uma geração de criadores, incluindo Andy Warhol, Beatles, Paul Simon, Joni Mitchell, Frank Zappa e mais algumas dezenas de estrelas. E mais: preparou terreno para a chegada de Bruce Springsteen, Patty Smith, Elvis Costello e Jeff Buckley. Não seria exagero dizer que ele foi o maior responsável pela música pop ter atingido a maturidade, rompendo com o espírito juvenil que parecia aprisionar o rock e até o folk dos anos 1960.

O álbum Songs, de 1967, não chega a ser um clássico, mas é um marco da contracultura e serviu até para recuperar a carreira literária de Cohen: reeditado, Beatiful losers se transformou num ícone dos anos 1960. Cohen parecia indomável, com uma força criativa que impressionava. Songs from a room, de 1969, com o sucesso Bird on a wire (“Como um pássaro num fio/ Como um bêbado num coral à meia-noite/Tenho tentado do meu jeito ser livre”) e Songs of love and hate, de 1971, fecharam o primeiro ciclo criativo.

Nem Leonard Cohen, porém, é invulnerável. Death of a ladie’s man, de 1977, pode figurar em qualquer lista dos piores discos de qualquer tempo. Não por culpa do titular, mas do produtor Phil Spector, que errou do princípio ao fim.  

Dois anos depois ele teria um disco gravado em parceria com Jennifer Warner, Various positions, vetado pela gravadora por falta de viabilidade comercial. Ironicamente, o disco trazia Hallelujah que, lançado em 1994 por Jeff Buckley, seria um sucesso mundial — no Brasil, recentemente, entrou na trilha-sonora da série Justiça, da TV Globo.

Os conflitos religiosos de Cohen o levaram a um mosteiro budista, onde foi ordenado Monge. Por mais de cinco anos ele honrou o nome que recebeu — Jikan, ou Silêncio — até voltar a cantar em Ten new songs, de 2001.

Movido por convicções ou dúvidas religiosas, por relacionamentos pessoais fragmentados, frustrações amorosas ou até mesmo pelo vil metal, Leonard Cohen deixa uma marca indelével na música e na poesia. É mais ou menos como ele mesmo canta em On the level, do seu último disco: “Quando eu virei de costas para o diabo/ Virei de costas para o anjo, também”.  

 

 

publicidade

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.

publicidade