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Em entrevista, Fernando Meirelles conta que meio ambiente é prioridade

Diretor do premiado Cidade de Deus conversa com o Correio sobre a carreira e a atual dedicação à ecologia

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postado em 13/11/2016 07:31 / atualizado em 11/11/2016 21:18

Ricardo Daehn

 

Entre o Oscar, da Academia, (ao qual concorreu, por Cidade de Deus) e o Oscar Niemeyer, não resta dúvida de que o cineasta Fernando Meirelles tem encanto maior  pelo criador de Brasília. “O Oscar é uma festa para comemorar o cinema americano e falado em inglês. Não é a nossa festa”, reforça o diretor que, à época da indicação do filme nacional para o prêmio gringo, não deu uma entrevista nem foi a um jantar promocional de campanha. “Realmente, caiu do céu”, conta, em entrevista exclusiva ao Correio. O também ambientalista Meirelles, que esteve recentemente em Brasília, durante a Assembleia da Rede de Fundos Ambientais da América Latina e Caribe, revela a admiração pela capital federal.

“Sempre tive uma paixão pela cidade. Como estudante de arquitetura, acho a cidade fantástica. É o melhor lugar para morar. As pessoas acham que é o Rio de Janeiro, mas não tem lugar melhor do que Brasília”, destaca. Observar o clima de cada local, aliás, tem sido um ato recorrente, para o artista que irá ao Marrocos participar da Cop 22 (Conferência das Partes, focada no aquecimento do planeta). No topo das prioridades pessoais, Fernando Meirelles escolheu o clima: “Ocupa até a nona posição das minhas prioridades e, depois, penso no resto. Cinema está no 55º lugar (risos). Gosto é de contar histórias. Quando me convidam para debate de cinema, eu não vou”, diverte-se.

 

Com o meio ambiente visto como questão de vida e morte, estar na natureza potencializa muito das criações bem-sucedidas de Meirelles, como confirmou o trabalho ao lado de Andrucha Waddington, Daniela Thomas e Deborah Colker, na abertura das Olimpíadas 2016, sob olhar de estimados três bilhões de espectadores. Atento também é o olhar do cineasta, cuja percepção em termos de meio ambiente se afirma, por “falar diretamente ao coração”. Produtor rural, Meirelles vem de linhagem forjada em fazendas interioranas e se confessa um admirador do fotógrafo Sebastião Salgado.

Fernando Meirelles seria unanimidade que está sempre na crista? “Não. Não tem essa de só sucesso, não: a gente rala, e a gente apanha (risos)”. Os próximos três anos vão requisitar Fernando Meirelles como criador em audiovisual, sem expressa dedicação a cinema. Na Inglaterra, fará a primeira tríade de séries; no Canadá, outra (“sobre o futuro próximo”); e, para a HBO, O império de Biriba. Pela falta de tempo, nem sabe se voltará a fazer cinema. Nova temporada para a série Os experientes (indicada ao Emmy) também deve ser deflagrada.





Ponto a ponto Fernando Meirelles


Sala de cinema

Não tenho visto muito filme em cinemas, assisto no computador e na televisão, tenho visto praticamente só filmes independentes, pequenos. Mas faz tempo que não vejo um filme que me tire da cadeira. Os documentários têm me tocado mais, acho que a realidade vem superando a ficção em termos de drama. O último filme bom que assisti e fiquei muito impressionado foi o ainda não-lançado Vazante, da Daniela Thomas, que, coincidentemente, fez a abertura das Olimpíadas comigo. A história se passa numa fazenda de escravos no século 19.


Mudanças
O cinema brasileiro está produzindo 120 filmes por ano. Acho que está muito diverso. A principal coisa que nos falta é público. Não temos a arrecadação dos blockbusters internacionais. Há uma mudança de hábito: como eu, as pessoas têm visto em casa. Nem posso reclamar do público, por não ir ao cinema mais. Eu ia ao cinema, semanalmente. Hoje, vou uma vez, a cada dois meses.


José Belmonte
Trabalhei com o diretor brasiliense José Eduardo Belmonte uma vez num roteiro sobre a Janis Joplin; era um filme que eu ia rodar fora do Brasil, com a Amy Adams. Cheguei a fazer reunião, a Amy começou a treinar para cantar na linha da Joplin e, no meio do projeto, deu uma confusão com os direitos autorais e perdemos. O Belmonte trabalhou neste roteiro comigo. Ele agora trabalha demais. É um dos diretores mais ativos no cinema e na tevê. Na Globo, ele sai de um projeto e já está em outro. Ele já era compulsivo — agora, acabou: não tem pra ninguém. Por falar em cinema de Brasília, por estar na Globo Filmes, no momento, acompanho René Sampaio no processo de produção de Eduardo e Mônica, uma história que vai se passar na cidade.


Imagens da capital
Fiz o curta Brasília, em 1983, por acaso. Fazíamos a cobertura de uma corrida de bicicletas de sete dias, que saía de São Paulo e chegava em Brasília, no 7 de setembro. O objetivo era registrar, no palanque, a chegada dos ciclistas. A avenida estava toda fechada pelos militares para o evento, ainda na época da ditadura. Como viemos na frente das bicicletas, sem querer, fizemos a imagem mais incrível: Brasília completamente deserta, nenhum carro na rua, só aquela avenida larga e militares ladeando todo o percurso. A imagem era tão forte que guardamos para a montagem de um curta experimental. Eu sempre tive uma paixão pela cidade. Como estudante de arquitetura, acho a cidade fantástica. Acho que é o melhor lugar para morar no Brasil.


Oscar pra quê?
O Brasil não precisa de Oscar. O Oscar é uma festa para comemorar o cinema americano e falado em inglês. Não é a nossa festa. É que nem pensar que a gente tem que ganhar o Festival de Tombuctu (Mali). Por acaso, entre os 40 indicados lá do cinema americano, tem um momentinho que eles dizem: “Ok, agora vamos ver cinco filminhos do resto do mundo”. Não é prêmio nosso, para o nosso cinema, para a nossa língua, para a nossa cultura. Claro que é legal ser indicado. Não vi Cidade de Deus como injustiçado.


Trump
Estou assustado com esta eleição. Se ele cumprir o que disse na campanha, pode criar o mundo de distopia que a gente vê em filmes; o mundo dos muros. Mas, pelo que tenho lido, ele não poderá fazer 10% do que disse, poderá apenas parar de melhorar. O que mais me assusta nele é sua falta de compreensão em relação ao clima. Os Estados Unidos são o segundo maior emissor de carbono.


Doria
O futuro prefeito João Doria fará um governo técnico, sem retrocessos, sem roubos. Ele já reconheceu a manutenção de transformações importantes feitas pelo Hadad. Fiquei mais tranquilo com isso. Mas fiquei sentido pela falta de reeleição do Hadad pelo lado criativo que ele tem. Hadad transformou a experiência de viver em São Paulo. Os paulistanos gostam de ficar na rua, de passear de bicicleta, aos finais de semana. Sou muito crítico ao governo do PT, no nível federal, mas sou favorável na esfera da Prefeitura de São Paulo.


Negros
Está mudando, mas muito mais devagar  do que deveria. Há 30 anos, era muito incomum ver um negro na direção de uma empresa, como protagonista de um filme, a não ser que fosse como bandido. Hoje avançou um pouquinho, mas muito pouco, falta muito, a lacuna é enorme. Sou favorável às cotas para negros para acelerar este processo. Nós, brancos, temos esta dívida histórica.

 

Só sucesso?

Tenho muitos fracassos na vida (risos). Unanimidade, nunca serei: sempre haverá quem fale mal -- ainda bem, né!. Como o Cidade de Deus, em que recebi pouquíssimas críticas, na criação coletiva da abertura das Olimpíadas acho que houve muita repercussão positiva. Nem tudo que fiz foi assim: tomei muita porrada! No Ensaio sobre a cegueira, só levei pancada, e o 360 nem existiu, as pessoas nem consideram. Não tem esta de só sucesso, não: a gente rala, e a gente apanha (risos).

 

Legado do PT

 

O PT fez um investimento social, incluiu uma parte do Brasil que estava fora do mundo oficial: este mérito tem que ser dado ao partido. Mas o partido não criou o milagre, eles entraram no poder num raro momento em que o Brasil teve sobra de dinheiro pelo aumento do preço das commodities puxados pela China. Foi pena não terem usado este dinheiro para alguns investimentos em estrutura como saneamento ou para promover uma revolução na educação, mas houve o ganho social que poderia não ter acontecido com outros ali naquele momento. Minha maior crítica ao partido é justamente a falta de uma possível revolução na educação e na área ambiental. Aí foi desastroso. O governo da Dilma abraçou completamente o agronegócio, uma forma de produção ainda antiquada e predatória que só agora começa a ser revista. Não investiu em agricultura familiar, que poderia gerar uma mudança de paradigma pelo potencial de ganhos na área social e ambiental. Criou mas não colocou dinheiro no importante plano ABC, de recuperação de terras degradadas com o consórcio de gado, plantação e floresta. Estas são áreas fundamentais, para ganho do meu voto.

 

Admiração

 

O Sebastião Salgado, que abriu o encontro sobre a conservação de florestas tropicais (em Brasília), trouxe o melhor exemplo, ao contar do que fez da própria vida. Ele começou como economista; a vida foi ficando chata, ele virou fotógrafo aos 40 anos. Fotografou o mundo. Ao fotografar em Ruanda, no projeto Exilados a experiência foi tão dolorosa que ele desistiu de ser fotógrafo. Foi aí começou a trabalhar com conservação, a restaurar sua fazenda na região do Rio Doce, e em seguida iniciou um projeto de recuperação de todas as nascentes do rio. Plantou 2.300 milhões de árvores então, ano passado, veio o desastre da Samarco. Quase chorei, com a apresentação que terminou com uma projeção de 30 minutos de suas fotos: O Sebastião conhece o mundo porque esteve em todos os cantos. Ele viu, documentou e fala sobre tudo com muita autoridade. Tem esperança na capacidade de adaptação do planeta com as mudanças do clima que estamos causando, mas não tem a mesma esperança dobre a sobrevivência da nossa espécie.

Vitória nas Olimpíadas

 

A Daniela Thomas, o Andrucha Waddington e eu ficamos muito impressionado com a resposta. A gente teve muito medo: tinha pouca verba, não tinha nada de tecnologia espetacular. Era só conceito e um bom gosto visual. Mas, muita gente disse que mudou o estado de espírito do país. E de fato tinha muita crítica antes das Olimpíadas, os ingressos emperrados, então veio a abertura e, no dia seguinte, começaram a vender 100 mil ingressos, a imprensa internacional parou de falar em zika. Fiquei feliz por ver que a arte pode redimir. Com uma experiência estética, você transforma. Me deu mais confiança no trabalho que faço. Na minha cabeça, só tava ligado na televisão: estava fazendo um show para a tevê que, por acaso, tinha público de auditório ali. Se não tivesse bom para o pessoal do estádio, sentiria muito, mas meu foco estava no resultado da tevê: eram 60 mil no estádio contra três bilhões de espectadores, em tevê.

 

Feminismo

 

As feministas andam bastante barulhentas, algumas chegam a passar um pouco do ponto na cobrança de um discurso politicamente correto. Mas, eu até entendo e não condeno, porque a mulher ou grita ou continuará sendo tratada como uma segunda categoria. No cinema, os melhores papéis geralmente são para homens, mas na última safra brasileira, houve muitos papéis interessantes para as mulheres, como no caso do Que horas ela volta? Aquarius e outros. 

 

 

 

 

 

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