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O que fazer? Veja as soluções que podem salvar o Teatro Nacional

Saídas apontadas por especialistas passam por alternativas como parcerias com empresas privadas

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postado em 13/11/2016 07:01 / atualizado em 12/11/2016 21:30

Adriana Izel , Rebeca Oliveira /

Janine Moraes/CB/D.A Press

O custo estimado para devolver o Teatro Nacional Claudio Santoro à sociedade é alto. Especialistas apontam que apenas com os recursos do Governo do Distrito Federal será difícil viabilizar as obras de restauração. Inclusive porque o valor orçado, de R$ 260 milhões, é maior do que o orçamento da Secretaria de Cultura deste ano, de aproximadamente R$ 207 milhões.



Tombado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o teatro foi palco de inúmeros espetáculos locais, nacionais e internacionais. O valor de pertencimento para a população brasiliense é imenso. “Todo teatro tem uma importância marcante na paisagem da sociedade. Nós estamos perdendo a oportunidade de marcar nosso espaço com um dos mais belos teatros existentes no mundo, que é o Teatro Nacional. Ele tem obras magníficas, mas está abandonado. Imagina se os antigos tratassem as obras de arte como a gente: ninguém conheceria Michelangelo e Leonardo Da Vinci”, analisa José Carlos Coutinho, arquiteto, urbanista e professor emérito da UnB.

 

Conhecedor do Teatro Nacional e especialista em arquitetura e urbanismo, Coutinho acredita que o local não precisava estar fechado. Ele considera que seria possível fazer reparos fundamentais e adotar algo comum no exterior, o chamado “aberto em obras”, quando um espaço é reformado ao mesmo tempo em que algumas seções estão em funcionamento para visitação. “Falta de dinheiro, herança maldita… Nada disso justifica. É possível fazer também com patrocínios de iniciativas privadas”, constata.

Cultura não é gasto. É investimento. Superintendente do Iphan do DF, Carlos Madson defende que, além de observá-lo como um bem tombado e de valor arquitetônico incalculável, o Teatro Nacional poderia servir como imponente fonte de renda, algo crucial em tempos econômicos difíceis como o que a capital passa.

"Imagina se os antigos tratassem as obras de arte como a gente: ninguém conheceria Michelangelo e Leonardo Da Vinci", José Carlos Coutinho

 

“A representatividade arquitetônica e simbólica dessa obra é válida e é parte do contexto. Mas a questão mais proeminente é entendermos que é um equipamento que tem uma função social a ser cumprida, que passa pelo aspecto econômico, também. Imagine a renda e os dividendos que um equipamento daquele, em funcionamento, poderia oferecer para a cidade!”, comenta. “Não existe nenhum teatro com essa configuração e representatividade em nenhum outro lugar do mundo. Precisamos aproveitá-lo. Como cidadão e gestor de um segmento cultural, acho um absurdo que esse ícone tenha chegado a tal ponto. O teatro nunca foi concluído em sua plenitude”, critica.

 

As opções para salvação do Teatro 

 

A saída apontada por Madson recai sobre uma ideia que já foi cogitada, mas freou-se no meio do caminho em 2015, depois da mudança de governo: um consórcio público entre o governo federal e o local para a gestão desses espaços. Outra solução seria uma parceria público privada (PPP). “O Iphan discutiu com a secretaria e o Ministério da Cultura como poderíamos, com esse compartilhamento, angariar recursos de uma forma mais ágil. Foi o que aconteceu com o Museu do Amanhã (no Rio de Janeiro), por exemplo.  Precisamos reunir forças.”

Carlos Madson compara o investimento no Teatro Nacional Claudio Santoro com os recursos usados na construção do Estádio Nacional Mané Garrincha para a Copa do Mundo de 2014, que pode ter chegado a R$ 1,8 bilhão, segundo o Tribunal de Contas do Distrito Federal e Territórios. O valor é quase sete vezes o que seria gasto com a reforma completa do teatro. “É uma questão de prioridade, de equacionar gastos”, defende.

O mesmo paralelo é feito por Frederico Barboza, integrante do grupo Urbanistas por Brasília e diretor da Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo. “Brasília precisava adiar jogos da Copa do Mundo e não o fez. Nós erguemos um monstro. Se não tivéssemos refeito o estádio, talvez tivéssemos o recurso para recuperar o teatro. São decisões políticas. Hoje, estamos pagando por uma má resolução. Certamente, continuaremos pagando pela próxima década. Mas se não investirmos no teatro hoje, o custo da reforma será ainda maior, por conta da inflação e pela deterioração”, comenta.

Barboza defende a possibilidade de que um novo projeto, mais realista e plausível, seja feito via concurso, a partir de uma consulta popular. “O Teatro Nacional foi feito por edital, e a nossa Lei de Licitações (nº 8.666) trabalha com princípios do menor custo. Com isso, acontece a tradição de aprovar que se libere o recurso, e logo depois, surgirem emendas pedindo a complementação desse recurso ora porque o governo atrasa, ora por que a obra pede por reparos”, lamenta o especialista.

“Quando construímos dessa forma, deixamos a lacuna no futuro, correndo o risco que não dê certo. É uma tradição brasileira e a capital está vivendo essa mais pura realidade. Estamos sempre improvisando, cuidando dos problemas emergenciais. Os edifícios importantes de Brasília não deveriam ser projetados sob essa lei do menor preço. A prova de que isso não dá certo são as constantes reformas e emendas no projeto original, o qual admiro muito”, elucida.

O drama do Teatro Nacional, em números  

R$ 487.374.744,00Orçamento da Câmara Legislativa para 2016: mais que o dobro do destinado a toda a pasta de Cultura

  • 0,8%
Percentual que representaria a reforma do teatro no orçamento do governo do DF para este ano

  • 7
Número de vezes que o teatro poderia ser reformado, tendo como base o que foi gasto na construção do Estádio Nacional Mané Garrincha

  • R$ 1,5 milhão
Valor gasto com segurança e limpeza do Teatro em 2016

  • R$ 207 milhões
Orçamento anual para a Secretaria de Cultura

  • R$ 260 milhões
Custo estimado da obra completa de reparo do Teatro

  • 100 mil
Média anual de frequentadores do teatro antes do fechamento, em 2014

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