Fernanda Torres ao Correio: 'Arte é minha militância'

Atriz evoca o teatro, fala sobre a educação "empoderada" que recebeu e manifesta a saudade de João Ubaldo Ribeiro

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postado em 15/11/2016 07:34 / atualizado em 15/11/2016 10:06

Globo/Renato Rocha Miranda

Há uma série de coisas que Fernanda Torres não sabe. E ela não hesita em perguntar. Mas faz questão de buscar as respostas com quem tem muito a ensinar. Daí surge o programa Minha estupidez no GNT, na qual a atriz conversa com Caetano Veloso, com a ministra Cármem Lúcia e com o saudoso João Ubaldo Ribeiro, entre outros. A entrevista gravada com Ubaldo, como não poderia deixar de ser, foi a primeira. Fernandinha e o escritor baiano, que morreu em 2014, batem papo como velhos amigos. E eram.

Foi por conta de A casa dos budas ditosos, escrito pelo baiano, que a atriz rodou este país e pisou em milhares de palcos, apresentando-se pelas metrópoles e pelos confins. E somente pela peça, Fernanda Torres já seria lembrada como nome expressivo de nossa dramaturgia. Mas ela ainda inventou de nos fazer rir com Os normais e Tapas & beijos. Também inventou de escrever bem, e sacudiu o mercado literário com Fim. Se não bastasse, inventou de ser filha, vejam só, de Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Quer dizer, eles é que inventaram Fernandinha Torres. Para nosso bem.

Ela pode até não saber algumas coisas, mas de outras entende muito. Se for teatro então, estamos em casa. João Ubaldo? Ela sabe tudo. E até do Teatro Nacional ela tem algo a dizer. E disse.

Talvez seja difícil não começarmos falando de João Ubaldo Ribeiro...
O Ubaldo é a essa cabeça incrível. Ele vai do humor mais chulo à Academia Brasileira de Letras. Uma pessoa extraordinária. A geração de Glauber, de Caetano... De baianos incríveis que floresceram nos anos 1960. O Ubaldo reunia tudo isso. Ele cita Dante em italiano, ao mesmo tempo ele sabe um poema escatológico em latim, ao mesmo tempo em que diz que queria fazer filosofia para conquistar as meninas. Ele brincava dizendo que encarava uma competição desleal com o Luiz Carlos Maciel, que fazia filosofia, era cultíssimo e ainda era lindo! (risos) E falava muito da formação dele, que apanhava do pai. Se ele não aprendesse, o pai batia. E é lindo quando ele diz que quando viu o próprio filho com medo, soube que não poderia fazer o papel do pai. Faria diferente.

E como se deu a sua formação?
Tenho uma formação autodidata, nunca fiz faculdade. Sou um pouco família de circo. Tive interesse intenso por algumas coisas, mas menos por outras. Um conhecimento meio queijo suíço, sabe? Em alguns aspectos, eu me sinto muito ignorante, em outros não. Os meus pais nunca tiveram expectativa quanto à minha formação. Fui educada durante a ditadura, quando rolou uma explosão de escolas baseadas nos ensinamentos de Piaget, que pregava uma liberdade. Eu me tornei uma CDF e criei uma exigência interna, talvez pela falta de uma tradição escolar mais rígida. Embora, quando fui educar meus filhos, também tenha preferido uma escola construtivista, parecida com aquelas onde estudei.

Ao entrevistar Caetano Veloso, vocês falam sobre a interferência dos livros na vida dele. Quais obras foram transgressoras para você e interviram na sua jornada?
Acho que uma faculdade de literatura é um grande investimento para o ator. Ele terá contato com tantos personagens, com os grandes personagens. Lembro-me que quando comecei a ler Flaubert, ainda muito nova, eu fui ficando cínica. Uma coisa estranhíssima. Quando escrevi Fim, coloquei em dia tudo do Dostoiévski que eu não tinha lido. E isso alimentou minha verborragia, minha capacidade de escrever. O próprio A casa dos budas ditosos me ensinou muito sobre ritmo, pausa. O parágrafo de Ubaldo, onde ele coloca o ponto! A literatura é uma grande ferramenta para o espírito e para essa construção e compreensão dos personagens.

No episódio com a ministra Cármem Lúcia, vocês falam sobre ódio... Fernanda Torres carrega ódio?
Ela fala sobre a preocupação com o crescimento da violência no país. O papo com ela nos levou a pensar em O mercador de Veneza (Shakespeare), sobre o papel da Justiça, sobre o ódio... nesse sentido da intolerância. Sobre a importância da Justiça em amenizar isso.

Nossa principal ferramenta para combater a intransigência é a Justiça?
Acho que temos que nos valer das instituições, mas também trazer à luz pessoas que fizeram diferença no lugar que elas ocupam. Pessoas que atravessaram revoluções, exílios, perseguições, e que conseguiram vencer.

O teatro não tem um peso nesse processo, como local de reflexão?
Concordo! Estamos vivendo uma época de entretenimento... Isso tomou conta da arte, ou você parte para um gueto. Eu tento fazer essa ponte entre o entretenimento e a arte. Não ficar presa em um nicho e, ao mesmo tempo, não ficar presa à escravidão de dar ibope, de garantir audiência de milhões de pessoas.

Em entrevista ao Correio, sua mãe me contou da época em que o teatro acontecia de terça a domingo, com sessões duplas...
Sim, mas, ao mesmo tempo, eu vou ao cinema como quem vai para o parque de diversões. Eu deixo os filmes cabeça para casa, onde tenho uma oferta absurda. Por um lado, não temos mais teatro de terça a domingo, mas, por outro, o acesso à cultura é muito maior, mais democratizado. O problema é o que buscar. Agora, o teatro é uma grande escola. Foi onde aprendi tudo. Como ensaiar, como estar com os outros, como ocupar o palco.

Não a revolta essa dependência dos editais e patrocínios?
Estamos em um sinuca de bico danada. Algo que veio fomentar e ajudar acabou se transformando numa armadilha. Se formos cobrar o ingresso no valor que seria necessário para cobrir a produção, seria um valor inacessível, se a gente recorre a leis de incentivo; você é escrava e as pessoas te xingam por isso, de “mamador das tetas” e coisas assim.

Há algum tema em particular pelo qual você diria militar?
Minha militância é Minha estupidez. É o outro programa que estou filmando na Globo. É a peça de teatro. Eu trabalho muito e preciso. Tenho filhos. Arte é minha militância.

E quando pensa nas políticas públicas, no cenário nacional?
A falta de saneamento básico me impressiona. A orla do Rio de Janeiro tem toda uma obra de paisagismo, mas ninguém fez a manilha para passar o esgoto. É só pensar em Ipanema, na Barra da Tijuca. É a medida da nossa ignorância. São as obras que não aparecem, que não atendem interesses eleitoreiros. Então, não vale a pena fazer.

Você menciona muito aquilo que a gente não conhece, aquilo com o qual não temos intimidade. Foi um pouco do que passou no episódio de embate com as feministas? (No começo do ano, Fernanda soltou um texto no qual criticava o feminismo, gerando repercussão negativa nas redes. Posteriormente, pediu desculpas).
Totalmente. Eu escrevi um texto sobre minha experiência com feminismo, que é uma experiência de exceção. O feminismo sempre me bateu de uma outra maneira. Eu venho de uma casa onde a mulher sempre foi empoderada. Isso nunca foi uma dúvida para mim. Se eu tivesse escrito no jornal, talvez não teria gerado tanta repercussão. Mas escrever o que escrevi naquele blog (#AgoraÉQueSãoElas) foi um acinte. Não era o lugar para falar da exceção. Ali não era o lugar! Até porque acabei em embate com movimentos que enfrentam ataques de um lado muito conservador e violento. E esse lado acabou se apoderando do que escrevi para atacar as feministas. Estamos vivendo uma época em que temos que saber onde estamos falando. Depois fui apresentada a um novo feminismo, que eu não conhecia.

 

Quando pensa em Brasília, o que lhe vem à mente?
Como carioca, eu já lembro daquela história que a gente faliu porque o dinheiro foi todo para Brasília (risos). Mas toda vez que vou para Brasília, eu tenho uma elevação. Acho muito agradáveis os traços do Niemeyer, a coisa futurista. O público ávido, muito culto do teatro. Frequento desde a infância, com meus pais. Essa transferência do eixo é responsabilidade de Brasília. Agora, é inacreditável o fechamento do Teatro Nacional. É como se a Catedral estivesse fechada. Uma imagem tão clara de quanto a cultura pode ser considerada obsoleta.

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