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Correio Braziliense

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Exposição de Dalton Paula busca referências nas figuras de Cosme e Damião

O artista fala sobre diáspora africana e representação do negro na sociedade

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postado em 19/11/2016 07:33

Dalton Camargos/Divulgação
 

 

O artista Dalton Paula foi uma criança enferma. Teve várias pneumonias e a mãe só se acalmou quando viu as consequências da promessa para São Cosme e Damião: o menino melhorou e o estado doentio ficou para trás. No processo, Dalton se divertiu. A promessa incluía distribuir doces nas ruas de Brasília no dia dos santos, 27 de setembro, e o menino acompanhava a mãe na maior alegria. “Lembro de serem momentos muito bons da infância”, conta. Na dupla de santos curandeiros está a inspiração para A irmã de São Cosme e São Damião, exposição em cartaz a partir de hoje na Alfinete Galeria.

No chão da galeria, pratos de cerâmica carregam pinturas de corpos negros de homens, mulheres e crianças em diversas situações. Há vendedores ambulantes, amas de leite, policiais, os próprios santos e sua suposta irmã, além de um indiozinho. Os pratos são, na verdade, alguidares, vasilhas nas quais são servidas as comidas de santos nas festas das religiões de matriz africana. Tudo tem um propósito na história construída por Dalton.

Tradicionalmente brancos, os santos curandeiros ganharam corpos negros. “Meus personagens são negros no sentido de contar a história para contemplar esses corpos negros”, avisa Dalton, que mergulhou em referências historiográficas para produzir a obra. “Na maioria das vezes, quando aparece um corpo negro nessas representações, ele está na condição de escravizado. As questões religiosas ou intelectuais, quando aparecem, são contadas de forma caricata. Esse trabalho é uma forma de contar a história e dar a a esses corpos uma escolha que não seja a de lugares pré-determinados.”

As correlações entre passado e presente também são fundamentais nos 18 pratos apresentados na Alfinete. Os pequenos vendedores ambulantes, comuns nas representações do Brasil colonial, nunca deixaram de ocupar as ruas do país e hoje remetem ao trabalho infantil. As amas de leite aparecem com os filhos no colo e Dalton reflete sobre quantas delas deixaram seus rebentos para trás para cuidar das crianças dos patrões. Até mesmo os policiais têm como referência os dias de hoje. O artista lembrou que, em Brasília, as duplas da Polícia Militar responsáveis pela vigilância nos comércios das entrequadras são conhecidas como Cosme e Damião. “Tem aí um contraponto em pensar o trabalho da polícia, especialmente nas últimas manifestações, em pensar a violência contra os trabalhadores”, avisa. “Meu trabalho tem sempre essa manobra de tocar na história e pensar como, contemporaneamente, se situa o tema hoje.”




Bienal
Cosme e Damião ocuparam o imaginário do artista por anos e o conduziram pelos meandros de uma obra que hoje movimenta o mercado e a cena da arte brasileira. Em abril, Dalton recebeu o Prêmio Illy Sustain Art, da SP-Arte e, em seguida, foi convidado para expor na 32º Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em cartaz no Pavilhão da Bienal (São Paulo) até 11 de dezembro.

Na maior exposição da América Latina, o artista mostrou pinturas resultantes de pesquisa realizada na rota do tabaco nas Américas. A mesma cura sugerida por Cosme e Damião está no interesse do artista pela guiné — planta conhecida como amansa senhor, usada pelos escravos — e pelo próprio tabaco, muito utilizado nas religiões de matriz africana. A “irmã” de São Cosme e São Damião traz questões importantes no trabalho de Dalton como a diáspora africana, a representação do negro, o feminino e os papéis de gênero, a alteridade.

Mas a exposição é também uma maneira de o artista homenagear Brasília. Hoje morador de Goiânia, bombeiro de profissão, ele tem a capital federal como destino frequente. Nasceu na cidade e tem boa parte da família no Planalto Central. “É minha primeira individual na cidade e num momento tão especial, com a participação na Bienal de São Paulo. É uma maneira de agradecer”, diz.



A irmã de São Cosme e São Damião
Exposição de Dalton Paula


Átimo
Exposição de Carlos Lin - Abertura hoje, às 17h, na Alfinete Galeria (CLN 103 Bloco B Loja 66). Visitação até 17 de dezembro, de quarta a sábado, das 15h às 19h30




Instantes mínimos
Há instantes que, de tão ínfimos, raramente são percebidos. São desses momentos banais que o artista Carlos Lin se apropria em Átimo, exposição que também ocupa a Alfinete Galeria a partir de hoje. Em uma série de desenhos de flores do cerrado, o artista brinca com alterações morfológicas para criar novas espécies. Um conjunto de colagens abstratas apresenta paisagens construídas com papéis azuis e marrons, tais quais o céu e a terra, mas é nos vídeos de momentos íntimos e cotidianos que Lin concentra o olhar sobre o que chama de “coisas que acontecem sem grandes estardalhaços”. “É uma tentativa de transformar a efemeridade em algo mais permanente, como se a arte pudesse transformar o instante em uma perspectiva de tempo mais expandido.”



Outras exposições em cartaz na cidade



Jazz

Na Caixa Cultural até 23 de dezembro, a exposição Jazz reúne serigrafias do álbum homônimo produzido por Henri Matisse em 1947. São obras compostas a partir de colagens, um conjunto que representa a última fase de um dos artistas mais importantes do modernismo europeu.



Recluso — Oficinas verso
No Museu dos Correios, o artista Ralph Gehre é tema de retrospectiva na exposição Recluso — Oficinas verso. São 70 obras resgatadas de coleções particulares e produzidas desde a década de 1980. A mostra fica em cartaz até 27 de novembro.



Objeto vital
Coletivo formado pela dupla cubana Marco Castillo e Dagoberto Rodriguez, Los Carpinteros ganhou exposição retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a Objeto vital, com um conjunto de obras que narram a trajetória do grupo. Obras da época em que ainda eram estudantes em Cuba e objetos mais recentes, que conquistaram a cena de arte internacional, podem ser vistos até 15 de janeiro.

 

 

 

 

 

 

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