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Antologia apresenta a obra de João Cabral de Melo Neto

O livro motra recorte da viagem e de um novo espaço-tempo

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postado em 26/11/2016 07:32

Severino Francisco

Carlos Chicarino
 

 

A maneira de olhar muda tudo e nos faz perceber o mesmo objeto sob novas perspectivas, ângulos e nuances.  Esse é o caso da antologia A literatura como turismo, de João Cabral de Melo Neto, concebida e organizada pela filha Inez Cabral (Ed. Alfaguara). Ela propôe um novo foco de leitura para uma série de poemas de viagem de João Cabral.

O poema A literatura como turismo, que intitula a coletânea, oferece a senha e o roteiro para passear por essa vertente de João Cabral, na qual ler e habitar se fundem e se confundem: “Certos autores são capazes/de criar o espaço onde se pode/habitar muitas horas boas:/um  espaço-tempo, como o bosque./Onde se ir nos fins de semana,/de férias, até de aposentar-se:/de tudo há nas casas de campo/de Camilo, de Zé Lins, Proust, Hardy”.

E, mais adiante, Cabral discorre sobre os pontos de convergência entre a leitura e a experiência de habitar: “A linha entre ler e conviver se dissolve como em milagre;/não nos dão seus municípios,/mas outra nacionalidade,/até o ponto em que ler ser lido/é já impossível de mapear-se:/se lê ou se habita Alberti?/se habita ou soletra Cádiz?”

Munidos por esse poema-mapa, percebemos que a poesia de João Cabral, de fato, é permeada pela experiência do habitar e do conviver, um conviver íntimo, com a obsessão do concreto e da matéria, que afeta a relação com o espaço e, como diz o próprio poeta, cria um espaço-tempo: “Sevilha tem bairros e ruas/onde andar-se solto, à ventura,/onde passear é navegação,/é andar-se, e sem destinação,/onde andar navegando a vela/E nada a atenção atropela,/onde andar é o mesmo que andar-se/e vão solta alma e a carne.”

No entanto, em uma guinada brusca, o poeta toma a calle Sierpes e muda todo o ritmo da caminhada: “Mas há uma rota obrigatória/como as do comércio de outrora: A esta se chama calle Sierpes,/apinhada de leste a oeste,/que serpenteia entre dois bares,/um na Campana e o outro o Corales/onde após o andar solidão/se navega entre a multidão,/e não se pode o andar a vela/nem de leme solto e às cegas:/ Navegar é em linhas curvas,/como a cobra que dá nome à rua”.

 


Conexão nordestina
As constantes viagens de João, imperiosas pela condição de diplomata, não o desconectaram de Pernambuco. A memória é frequentemente convocada para estender os liames entre dois territórios geográficos e afetivos.  Em todos os lugares pelos quais passou, ele estabeleceu conexões com a sua terra, principalmente na Espanha e na África.

Na relação com a Espanha, prevalece quase sempre a afinidade, de tal forma que se funde com o Nordeste. No poema Pernambuco em Málaga, ele compara as duas espécies de cana: “A cana doce de Málaga/dá domada, em cão ou gata:/deixam-na perto, sem medo,/quase vai dentro das casas/É cana que nunca morde,/nem quando vê-se atacada:/não leva pulgas no pelo,/nem entre as folhas, navalha”.

Em alguns casos, a relação é de afinidade, mas, em outros, é de contraste, atrito e choque: “A cana doce de Málaga/dá dócil disciplinada:/dá em fundos de quintal/e podia dar em jarras./Falta-lhe é a força da nossa,/criada solta em ruas, praças:/solta, à vontade do corpo,/nas praças das grandes várzeas”.

Com a África, o contraste se acirra. O sol cangaceiro de Pernambuco, sol de dois canos de tiro repetido, é confrontado com o sol lunar de certas regiões da África no poema O sol no Senegal: “Para quem no Recife/se fez à beira-mar,/o mar é aquilo de onde/se vê o sol saltar./Daqui, se vê o sol/não nascer, se enterrar:/sem molas, alegria, quase murcho, sol lunar;/um sol nonagenário/no fim da circular,/abúlico, incapaz/de um limpo suicidar./Aqui, deixa-se manso/corroer, naufragar;/não salta como nasce:/se desmancha no mar”.

Esse foco da literatura como viagem confere uma nova perspectiva para habitar a obra de João Cabral, em que múltiplas figuras e geografias são convocadas, como se lê no poema O regaço urbanizado: “Com ruas arruelando mais, em becos,/ou alargando, mas em mínimos lagos/eles têm abrigos e íntimos do corpo/nos recantos em desvão e esconsados./Eles têm o aconchego que a um corpo/dá estar noutro interno ou aninhado/para quem quer, quando fora de casa,/seus dentros e resguardos de quarto”.

Trecho
A literatura como turismo (fragmento)
“Certos autores são capazes
de criar o espaço onde se pode
habitar muitas horas boas:
um  espaço-tempo, como o bosque.
Onde se ir nos fins de semana,
de férias, até de aposentar-se:
de tudo há nas casas de campo
de Camilo, de Zé Lins, Proust, Hardy”.
João Cabral de Melo Neto

A literatura como turismo
João Cabral de Melo Neto/Ed. Alfaguara 
149 páginas

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