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Exposições de arte movimentam a cidade

As mostras em cartaz trabalham a impossibilidade da paisagem e o grotesco na produção contemporânea

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postado em 26/11/2016 07:33

Nahima Maciel

David Almeida/Divulgação
 

 

O teodolito é um instrumento inventado no século 19 para medir ângulos verticais e horizontais. Pode ser usado na meteorologia e na navegação, mas é mais comum na construção civil. Ele ajuda a manter uma topografia ordenada e organizada. Talvez isso explique um pouco o interesse do artista David Almeida pelo instrumento que dá nome a uma das instalações apresentadas a partir de hoje na exposição Asseidade da fenda, em cartaz no Elefante Centro Cultural.

Preocupações com a topografia da cidade, com os horizontes e como lidar com a geografia urbana nasceram no ateliê de pintura. Foi a partir da vontade de compreender como as telas pintadas na intimidade de quatro paredes se relacionavam com o espaço que David começou a pensar na paisagem de maneira poética. Na galeria, as pinturas monocromáticas carregadas de massas de tinta propõem um diálogo com mesas preenchidas com tijolos e um teodolito.

 

Josafá Neves/Divulgação


É uma espécie de topografia particular que o artista constrói, como se quisesse definir fronteiras entre a massa abstrata de tinta e os contornos de uma possível paisagem. As paisagens de David não estão explícitas nem se oferecem facilmente ao público, mas isso é consequência da perspectiva do próprio artista ao refletir sobre o horizonte. “Há uma impossibilidade no horizonte, uma impossibilidade de seus limites porque, à medida que você alcança um horizonte, outro se forma”, explica. “Sempre tive um embate com a matéria. No trabalho, lido com a paisagem mas logo ela deixa de ser paisagem e, para mim, vira matéria.”

Na série Paisagem barricada, a paisagem se apresenta de forma mais explícita, embora não menos poética. Nas serigrafias produzidas a partir de fotos, uma interferência humana na paisagem formada por morros de pedras no Rio de Janeiro provoca novos desenhos em superfícies seculares. É um pouco a mesma ideia presente na série Monumentos eleitos, realizada em parceria com a curadora da exposição, Ana Roman. A pedido de David, ela fotografou lugares históricos em Israel que são expostos ao lado de fotos do próprio artista com registros do bairro onde mora, em São Paulo. Gambiarras urbanas, frágeis e descartáveis, contrastam com construções milenares, como as ruínas de Jericó, uma das mais antigas do mundo. “Entendo meu trabalho como uma relação da escala com o espaço”, explica o artista.

 

J. Borges/Divulgação
 


A arte do bizarro
O grotesco sempre foi um tema comum na história da arte, por isso não foi tão difícil para o curador Oto Reifschneider encontrar obras produzidas recentemente por artistas brasileiros que carregassem as características de uma das temáticas mais frequentes da produção artística. Grotesco, em cartaz na Galeria de Arte, reúne mais de 20 artistas que trabalham com o terrível e o fantástico.

Em obras de Marcelo Grassmann, J. Borges, Samico, Athos Bulcão e Chico da Silva, Reifschneider encontrou expressões curiosas do tema. Os cavaleiros e seres monstruosos de Grassmann sugerem um universo sombrio e o naif Chico da Silva fez telas povoadas de monstrinhos que se misturam a figuras conhecidas como pássaros e lagartixas. No mundo surreal dos desenhos de Athos Bulcão, seres não identificados são comuns e as xilogravuras de Borges e Samico são povoadas de fusões entre humanos e outras espécies.

Entre os contemporâneos, Reifschneider selecionou obras de Eduardo Belga, Sérgio Rizzo, Antonio Obá e Josafá Neves, todos radicados em Brasília. “Obá tem uma série de desenhos de caligrafia em que as figuras são quase arquetipicamente grotescas e Rizzo é um grotesco fantástico, com os cyborgs e anjos caídos misturados com máquinas”, explica o curador. Admirador confesso da anatomia humana, Belga cria um mundo de seres de formas indefinidas e Neves tem uma série de pinturas de figuras cujo olhar sombrio e pesado tem inspiração direta em obras de Siron Franco da década de 1970. “Acho que o grotesco, na verdade, se dá no encontro da obra com o espectador”, avisa Reifschneider.


Asseidade da Fenda
Exposição de David Almeida. Curadoria: Ana Roman. Visitação até 23 de dezembro, de segunda a sexta, das 14h às 19h, e sábado, mediante agendamento, no Elefante Centro Cultural (W3 Norte, quadra 706, entre os blocos B/C, Loja 45)


Grotesco
Exposição coletiva com mais de 20 artistas. Visitação até 21 de janeiro, de terça a sexta, das 12h30 às 20h30 e, aos sábados, das 10h às 18h, na Galeria de Arte (SCLN 302 Bloco E Loja 41)

 

 

 

 

 

 

 

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