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Conheça André Deca, um dos produtores culturais mais respeitados da cidade

Em entrevista ao Correio, ele fala sobre teatro, cinema e Brasília

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postado em 27/11/2016 07:20

Diego Ponce de Leon /-

Lula Lopes/Esp. CB/D.A Press

 

Ele até tentou passar um tempo longe, mas não conseguiu. O universo cênico é lugar sagrado para André Deca. E ele faz questão que o palco esteja sempre ocupado, seja por ele ou por outros artistas em quem acredita e aposta. Como poucos, Deca alterna com facilidade entre os ofícios de ator e produtor. Na área de atuação, acumula oito novelas, 23 curtas, 12 longas, além de 13 espetáculos, com destaques para O descobrimento de Américo, de Alexandre Ribondi, e Calabar, com direção de André Amaro. No cinema, deixou marcas em fitas concorridas como Faroeste caboclo e o recente O último Cine Drive-In. Na produção, se temos Paulo Gustavo na cidade a culpa é de Deca, que também fomentou o teatro brasiliense, a exemplo de Ensaio geral, do mago Hugo Rodas. E se o momento “é sempre agora”, como ele próprio diz, fica o convite para o vermos no teatro, com A autópsia de um beija-flor, ou ainda no cinema, em A repartição do tempo. Em breve, em uma tela em um palco próximo a você.

Seu primeiro contato com teatro foi na infância? 
Eu comecei no teatro por acaso, no segundo grau. O Robson (Graia, diretor da Cia. Palco de Teatro) era meu professor na época. Um dia, numa gincana, tinha uma prova de imitar um professor e ele gostou de como eu subi no palco pra fazer essa imitação. Em outra ocasião, fui a um espetáculo dele e, após a peça, fomos ao Beirute da 109 Sul. Eu nunca tinha ido e me identifiquei com as pessoas que frequentavam o lugar, com o estilo de vida delas. Tempos depois, fiz um teste e ingressei na Cia.

Quando percebeu que teria que conciliar o produtor com o ator? 
Desde o início da carreira, eu atuo e produzo. Imagina como era produzir nos anos 90! Não era fácil. Não tinha internet, fotos digitais, telefones celulares. Era bem difícil. Mas ou a gente se produzia ou ninguém ia fazer isso por nós. Então, a gente metia a mão na massa, dividíamos as funções. Lembro que fazíamos festas ou outras ações pra conseguir dinheiro pra produzir as peças.

A produção surge como uma forma de capitalizar a profissão?
A produção sempre esteve lado a lado com a atuação, eu sempre participei da produção de alguma forma, produzindo espetáculos da Cia. e depois produzindo espetáculos de fora que estavam em turnê. Eu gosto de produzir, sou um realizador, já produzi também grupos de comédia da cidade e, com um deles, fizemos uma temporada de sucesso no Rio e em São Paulo, e viajamos pelo Brasil. Eu acho que o artista tem que ter essa preocupação em se produzir. Acho que o FAC (Fundo de Apoio à Cultura) fez com que muitos artistas da cidade começassem a se produzir ou se interessar pelo processo de produção.

Viver de arte ainda é utópico?
Não acho que é utópico, é uma opção de vida. Dá pra viver de arte sim, mas não é fácil. Na arte de atuar tem um exemplo que eu acho ótimo: uma entrevista da Fernanda Montenegro que eu compartilho total da opinião dela. A jornalista pergunta que conselho ela daria pra uma pessoa que quer se tornar ator, e ela fala: “Desista… agora, se você não consegue ficar sem fazer isso, então, vá à luta, porque não é fácil”. E realmente esse glamour que pintam não existe, você tem que lidar com rejeição em muitas ocasiões e viver na instabilidade.

Chegou a repensar a carreira? 
Eu tinha desistido da carreira e fui trabalhar com comércio e estava infeliz, e acabei voltando porque não aguentei. É o que eu sei fazer. Voltei produzindo espetáculos que estavam em turnê em Brasília, que até hoje é a minha principal fonte de renda, e depois tive a oportunidade de fazer um curta que me fez voltar a atuar.

Para garantir as contas, há alguma outra forma eficiente de fomentar o próprio trabalho senão por meio do FAC?
Hoje o FAC é o grande mantenedor do trabalho dos artistas em Brasília e é uma conquista dos artistas. E temos que resistir pra não perder esse benefício, essa conquista.Temos outras formas, mas com certeza, é a grande fonte de renda pra produção brasiliense. Mas não dá pra viver só do FAC, acho que os artistas estão buscando alternativas pra sobreviver, dando aulas, dublando, trabalhando em outras funções, como produção, iluminação, cenografia.

Você traz grandes nomes para Brasília como Falabella e Paulo Gustavo. O teatro só se sustenta com globais?
Não vejo assim. Já produzi espetáculos com atores que trabalham na televisão e não tivemos um público tão bom, e produzi espetáculos espíritas, por exemplo, ou de vlogueiros do YouTube, que foram sucesso de bilheteria. É muito relativo, os tempos mudaram e a tevê já não tem tanta força como antes. Agora, é claro que o grande público de teatro ainda é o público de comédia, e isso não é só em Brasília, mas no Brasil. O Paulo Gustavo, quando trouxe pela primeira vez em 2009, era um desconhecido e lotamos a sala Villa-Lobos na época. Não pelo nome dele, mas pela repercussão em torno do espetáculo Minha mãe é uma peça. Só depois é que veio esse sucesso estrondoso.

Tirando a comédia... 
Tem um público que quer assistir espetáculos mais profundos, reflexivos, e para isso é preciso patrocínio. Não se pode contar apenas com a bilheteria, pois é um público menor.

Brasília ainda precisa melhor se profissionalizar para ser um polo de produção tanto para espetáculos locais como para peças de fora?
Acho que Brasília tinha que se organizar melhor, ter um sindicato forte que funcione. Uma associação de produtores que lute por espaços públicos e pense em como fomentar e divulgar os espetáculos. Lembro que, na década de 1990, tínhamos a Apac — Associação de Produtores de Artes Cênicas — e fizemos a campanha de popularização do teatro, a campanha das Kombis. Parte dos ingressos era subsidiada pela Secretaria de Cultura e, com isso, os ingressos eram bem baratos, e tínhamos um público muito grande nos espetáculos. Claro que os tempos são outros, mas esse tipo de ação ainda acontece no Rio e em São Paulo. Acho que poderíamos pensar em ações desse porte. Tivemos avanços expressivos, como a conquista do FAC, mas, ao mesmo tempo, perdemos o Teatro Nacional e outros espaços. O que é uma grande derrota.
No que diz respeito à produção, onde mais pecamos? Onde mais acertamos?
Não sei dizer, acho que Brasília é uma cidade nova e estamos em busca de uma identidade. Temos grandes dificuldades políticas e sociais. Essa Lei do Silêncio, por exemplo, é atraso. Brasília está muito careta. Temos que resistir e ocupar espaços alternativos já que os espaços que tínhamos estão sucateados. Acho que a produção está em crescimento e resistindo.

Tem visto com bons olhos a atual safra de teatro de Brasília?
Sim, acho que temos grandes talentos e grandes grupos em Brasília. O ATA, por exemplo, do Hugo Rodas, que tive a oportunidade de produzir por uma temporada; o Teatro do Concreto; Grupo Sutil Ato; Criaturas Alaranjadas, do Sérgio Maggio; Cia. Brasilienses de Teatro, do James Fensterseifer; e a nossa Cia. Plágio, pra citar algumas. São companhias atuantes e com grandes talentos. E vejo também um crescimento muito grande no audiovisual, com nomes como Iberê Carvalho, Santiago Dellape, Gui Campos, que vem conquistando prêmios pelo mundo com seu curta Rosinha, Bruno Torres, Adirley Queirós, André Carvalheira... Enfim, temos uma geração muito talentosa e atuante. Além de uma geração consolidada com Jimi Figueiredo, Mauro Giuntini, Cibele Amaral, Gustavo Galvão. E ainda René Sampaio e Eduardo Belmonte, que estão conquistando o Brasil com seus trabalhos. Tive a oportunidade de trabalhar com quase todos esses cineastas e vejo potencial em seus trabalhos.

Ainda esbarramos no vício de fazer teatro para a própria classe?
Eu acho que mudou bastante, vejo que o público tem comparecido e isso se deve à qualidade dos espetáculos apresentados.

Em tantos anos de carreira, consegue pensar em um momento especial como ator? 
O momento atual é o mais especial, eu estou estreando um espetáculo, agora em dezembro, no ano que vem vamos lançar o longa A repartição do tempo, e o longa Triz. Tenho alguns convites pra filmes em 2017. O momento especial é o agora, é você estar em movimento, produzindo e fazendo o que gosta.

Alguma história de bastidores curiosa como produtor?
Como produtor de um grupo de comédia de Brasília já tive que substituir um ator em cena que se machucou logo no início do espetáculo. Como sou ator e conhecia bem o texto, não pensei duas vezes, peguei o figurino e entrei em cena. Foi bem difícil, mas chegamos até o final da peça com êxito.

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