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Correio Braziliense

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No cotidiano das periferias do DF, a poesia encontra espaço

Nas quebradas, ela serve para refletir e reverberar as questões de seu tempo

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postado em 29/11/2016 07:31 / atualizado em 29/11/2016 17:20

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

 Adauto Cruz/CB/D.A Press

Fortalecer a voz que nasce nas periferias do Distrito Federal e transformar em versos os problemas da realidade crua de quem luta por melhores condições em sua própria comunidade. Visto como ponto de encontro para a cultura jovem que se inspira no cotidiano das quebradas e como espaço cada vez mais forte para a reflexão, os saraus poéticos se consolidam nos arredores de Brasília. Entre uma rima e outra, o poeta da periferia ocupa seu lugar de fala e faz reverberar entre a população novos olhares sobre suas próprias questões e dilemas. A inspiração vem das ruas e não tem medo de falar em temas fortes, transformando em arte os problemas vivenciados pelos jovens de seu tempo.

É o caso da poetisa e arte-educadora Meimei Bastos, de 25 anos, que ocupa também o conselho federal da cidade onde vive, Samambaia. Nascida em Ceilândia, Meimei passou parte da infância em Santa Maria e encontrou inspiração em Samambaia, para onde se mudou aos 8 anos. “Eu nasci em quebrada, sempre vivi em quebrada, é na minha cidade que encontro inspiração para a minha poesia”.

 

A cena poética e cultural de Samambaia é movimentada por iniciativas e projetos locais como o Sarau Complexo, o Espaço Imaginário Cultural e um complexo cultural em construção, resultado de pedidos e protestos da própria população. A poetisa lança neste ano seu primeiro livro, Um verso e Mei, resultado de trabalho totalmente autoral. “Ele já está em processo final e trabalhei em tudo, desde a capa até a diagramação. Também tenho publicações no livro Mulher quebrada, que reúne diversos textos de autoras das periferias”, conta.

Meimei destaca que sua criação poética é orgânica e natural em seu cotidiano e que a participação em saraus no DF é constante. Para ela, mais importante do que pensar na expansão da cultura produzida na periferia para o conhecimento do público dos grandes centros é o incentivo que as próprias comunidades devem receber. “Fomentar a cultura dentro da quebrada é o mais importante. O esforço e trabalho devem ser feitos para manter viva essa produção aqui, ampliar esses espaços de fala.” A poetiza lembra que, nas periferias, nem todo mundo pode fazer arte. A produção cultural encontra obstáculos onde a população precisa, antes de tudo, pensar em questões básicas de sobrevivência, como comida e moradia.

Performática

“Por isso, é importante fomentar a cultura nestes lugares, para tornar ainda mais possível a criação local, que estabelece maior identidade entre os moradores de cada comunidade. É fundamental manter essa identidade de morador da periferia.” Em seus versos, Meimei deixa claro que se identifica como moradora dos arredores do centro do DF: “Essa Brasília não é minha. Porque eu não sou planalto, eu sou periferia! Porque eu não sou concreto, eu quebrada”. Meimei foi campeã do Distrito Federal na competição de poesia performática Slam das Minas no ano passado e representou a cena local na versão nacional, o Slam BR.

Para a poetisa, o local de vivência é seu grande ponto de influência. “Na minha poesia eu me coloco em um lugar de alguém que vive no espaço periférico. Os meus poemas falam de gente negra, da repressão policial, falta de oportunidade, ônibus lotado, violência doméstica. Falo sobre as pessoas que marginalizam esse espaço e também da gente que vem dele”, conta.

Para ela, habitante da movimentada Samambaia, que abriga a melhor quadrilha junina do DF, o Galpão do Riso e grandes encenações da Paixão de Cristo, a poesia é um ciclo, que percorre caminhos entre o interior e o exterior dos poetas. A poesia pode não salvar o todo, mas tem a capacidade de proporcionar reflexão e provocar novos olhares sobre o cotidiano. “A nossa história sempre foi contada por terceiros, então para mim é muito importante ocupar esse espaço de fala. “

Enquanto isso, Tairo Lima, 21 anos, morador do Paranoá, é adepto da inspiração mais crua do seu cotidiano. As criações podem surgir entre o esgoto que corre pelas ruas, o sexo e suas angústias com o mundo. “Estamos trabalhando para que a cena poética aqui da cidade se fortaleça.”  O poeta acredita que a poesia não necessita de utilidade prática, sendo subversiva por si só. “Não existe ponto de partida nem de chegada.”

 

Saraus para a reflexão 

 

 

O Sarau Ubuntu foi criado no Recanto das Emas para suprir a necessidade de um espaço que representasse, principalmente, a criação cultural da juventude da cidade. As geladeiras literárias localizadas no espaço são repletas de livros de escritores marginais e buscam expandir as possibilidades de leitura da comunidade, além de dar visibilidade a escritores que ficam de fora das livrarias tradicionais. A ideia partiu de Francisco Celso, 37 anos,  professor de história e agitador cultural.


A primeira edição do Sarau Ubuntu, que segue para sua quinta edição, foi em julho de 2016.  “Queremos ajudar a ocupar o espaço ocioso da juventude que vive aqui e possibilitar que eles aprendam, através da arte, novas formas de produzir e completar a renda familiar”, comenta o produtor.   O agitador cultural conta que o nome Ubuntu veio de uma filosofia africana que retrata a humanidade como coletivo e afirma: sou o que sou porque todos nós somos. “Nosso espaço é também para ser um ponto de socialização e reflexão para pensar possibilidades de enfrentamento dos nossos problemas cotidianos.”

 


Em Samambaia, o Sarau Complexo ocupa o cargo de anfitrião poético da cidade. Produzido pelo poeta Jadiel Teles, o sarau é reconhecido no DF como uma reunião cultural de diferentes vertentes artísticas. Criado em 2009 pelo Conselho de Cultura da cidade, o Sarau Complexo hoje está na 87a edição. “É só fornecer a energia que nós levamos a alegria. Músicos, poetas, atores, artistas plásticos, brincantes, mamulengueiros, palhaços, tudo que esteja à disposição pelo solidário prazer de fazer”, conta Jadiel.

O Sarau-VA (Voz e Alma), se iniciou em Setembro de 2013, com o nome Sarau da CM, partindo da iniciativa de uma Crew de Grafite chamada Caligrafia Mardita – CM. A ideia principal era a de um microfone aberto para que cada um transmitisse o que quisesse de forma livre. “A gente criou uma programação em que não existem diferenças e sim a construção conjunta de um encontro que evidencia a linguagem poética como o modo mais simples de comunicação”, conta o produtor Sidney Sampaio”.

 




Serviço


O Sarau-Vá ocorre na Ceilândia, todas as terças-feiras, a partir das 19h, no Bar Tricolor (QNP 19, setor P Norte). O Sarau Ubuntu ocorre no Recanto das Emas e a próxima edição é no dia 2 de dezembro, a partir das 19h, no Espaço Cultural Ubuntu (Q. 101 Lt. 18 lj 04). O Sarau Complexo ocorre em Samambaia Sul, toda última sexta-feira do mês, em diferentes locais da cidade (é possível acompanhar pelo site:  www.blogccs.wordpress.com).

 

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