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Leandro Soares, de Vai que cola, está em filme de diretor brasiliense

O ator Leandro Soares conversou com o Correio sobre popularidade, televisão e cultura

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postado em 11/01/2017 07:30 / atualizado em 11/01/2017 11:29

Ricardo Daehn

Evoluir tem sido palavra de ordem para o ator e roteirista Leandro Soares, 32 anos, popular entre o público de tevê a cabo pelos humorísticos Vai que cola e Morando sozinho (em que atuou). O ator, que encabeça o elenco do mais novo filme do brasiliense Matheus Souza, Tamo junto, acredita numa comédia que dispensa ofensas e preconceitos enraizados na cultura nacional.

“Claro que ninguém morre por falta de cultura; mas, sem ela, não se vive bem”, observa. Namorando a cantora e atriz Lua Blanco (Rebelde), que está na trilha sonora de Tamo junto — “sem jabá ou nepotismo”, como brinca —, Leandro se vê muito ligado à juventude e comemora êxitos neste diálogo. “Conseguir manter público sem mexer no celular por duas horas tem sido difícil. Fazer essa plateia rir  traz a chance de fazer ele ficar ali, no presente. Teatro não é uma tela que se dá play ou pause. Nós estreamos, por exemplo, a peça A importância de ser perfeito, no centro do Rio. Tivemos o sucesso de cruzarmos públicos de extremos: iam os velhinhos, maravilhosos que sempre vão ao teatro e a molecada, que saía da praia, o pessoal do skate que anda na Lagoa e no Leblon com as pessoas da Zona Norte!”, celebra.

Bruno Rangell/Divulgação



No sofá, não
Eu sempre fiz tevê a cabo, comecei como ator, no Multishow. Depois, passei a escrever. Meu primeiro programa foi há uns sete anos, Morando sozinho. Como saí do ar em 2012, não sou muito parado na rua, assediado. É como diz uma amiga minha: me veem, e dizem “acho que conheço este cara, deve ser do meu curso de inglês, talvez ele tenha estudado comigo, no colégio” (risos). Como ator, em tevê aberta, tive mais pequenos papéis, do tipo participação. Sempre passei por aquelas coisas comuns aos atores, tipo: “era você, mas mudou o perfil do personagem”, “Ah! Agora, mudou a sua idade...” (risos). Meus movimentos ainda não coincidiram com a televisão. Mas, nunca me ofereceram o tal teste do sofá, do qual você fala (risos). Acho que, se procurar bem, ainda encontra (risos). Comigo, Graças a Deus nunca me ofereceram; sempre foi tudo muito sério.


Os roteiros
Comecei a fazer teatro, no Tablado, que foi minha escola no Rio de Janeiro. No Tablado, a gente entra para ser ator, mas há uma coisa livre, de se fazer de todas as funções. A gente põe à prova habilidades. Comecei escrevendo as minhas pequenas cenas para o curso. Até que propusemos ao Multishow a venda do Morando sozinho. Aí, uma coisa emendou na outra, criei o Vai que cola. Quanto, aos roteiros, acho que a gente ainda tem uma formação muito rudimentar no Brasil. Eu mesmo não me considero formado ou preparado. Ainda não temos a tradição de escrita mais forte. É bom ter ferramentas à mão para realizar o teu trabalho. Eu voltei a fazer aulas com o José Carvalho (Faroeste caboclo), que considero o melhor do Brasil, depois de vários professores que tive. Hoje em dia ele tem uma escola, a Roteiraria. Não existe isso do estudou, estudou, estudou, e está pronto!

 

 

 

 

Jovem demais?
Eu me considero de uma geração que compra o próprio videogame com o trabalho. Sempre digo: não tem ninguém bancando aqui, é tudo com meu dinheiro (risos). Não dá vergonha: eu não estou sugando grana de ninguém (risos). Por enquanto, aos 32 anos, ainda estou representando essa juventude. É um jovem muito desperto, nos bons e maus sentidos. Cuido da vida adulta, sem perder o que é bom da vida adolescente. Ainda me considero dessa geração porque não resisto ao novo. Waze, Snap, internet: sou hyper de gadget. Curto, por exemplo, Stranger things. A infância mostrada nos anos 1980 é a nossa, dos anos 1990. Infância anos 1980, acho que pega num lugar afetivo que agrupa a garotada, de modo geral. Hoje em dia, a gente não tem as fases bem definidas, enquanto tempo. Game, por exemplo, sempre foi coisa de criança; mas hoje, muita gente joga. Há humor sensacional em filmes de crianças, como no caso da Pixar.

 

Rindo à la Harry Potter

Até o começo deste ano, fizemos Longe do reino, disponível no youtube — foi uma maluquice que inventei tempos atrás. Foi uma primeira experiência para algo ainda maior que faremos. Foi tipo um teste, feito com um edital para websérie. Foram 23 episódios, com menos de dois minutos. Criamos um universo de dois personagens que saem de um meio fantástico e vêm morar num castelo, nos dias de hoje: o Castelinho do Flamengo (risos). Quisemos brincar com um gênero que não existe no Brasil: é a fantasia voltada para adolescentes e jovens, não para crianças. Isso já existe, quando a gente vê a tradição do Castelo Rá-Tim-Bum. Miramos o público do Harry Potter, de Senhor dos anéis e Game of thrones, só que com tom de comédia. É um híbrido, com despretensão e bom acabamento técnico.

 

Quadro problemático

Não dá pra paralisar o cinema e a tevê, para se começar de novo e dar partida. Há preconceitos enraizados na nossa cultura. Começar do zero é coisa de criança que derruba todas as peças do tabuleiro e começa a partida como ela quer. Temos à frente um tabuleiro cheio de problemas e de erros e a gente corrige, de pouco em pouco. Até que chegue a hora de termos uma realidade melhor.

 

Ao lixo, preconceitos!

Estou superatento a todas as discussões que temos vivido: tanto de cor, de gênero; agora, a questão feminista é a mais recente. Quando alguém se sente ofendido, acho que tem apontar mesmo. Tem coisas que estamos aprendendo que têm que ser diferentes. Os rappers estão refazendo letras: há um reconhecimento de que certas coisas não são adequadas de serem abordadas, mesmo. No que faço, com arte, ouço discussões e atendo reivindicações das pessoas. Ouço muito minhas amigas, e não posso, por outro lado, me considerar feminista, por ser homem. Nem sempre é dada uma resposta pura e isenta, nas artes. O Tamo junto, filme em que estou, por exemplo, retrata machistas que não são bem-sucedidos. O Felipe, meu personagem, é levado a se corrigir como cara, para alcançar a garota que ele tanto gosta.

 

Descriminalizar drogas

Sou totalmente contra a guerra às drogas. Ela sempre foi utilizada, em todas as culturas, épocas e países. As experiências na Califórnia e no Uruguai têm mostrado que, quando se descriminaliza e se passa a utilizar de uma forma consciente o dinheiro que antes servia para financiar o tráfico, tudo passa a ser cobrado como imposto. É tolo acreditar na eficácia da proibição. Por décadas, ninguém conseguiu erradicar as drogas. É um elemento que faz parte da cultura do ser humano, independente do uso. Acho que as pessoas têm que ter direito ao esclarecimento: tem que saber o que ela causa e como foi produzida. É tola a ideia de que, se liberar, mais pessoas vão usar. Droga é muito mais uma coisa de saúde pública do que de polícia.

 

Sem livro, sem teatro

Assim como a gente não tem o hábito da leitura, no Brasil; a ida ao teatro, a ida ao concerto, a ida à exposição também não têm muito espaço. Em países como Alemanha e França, já na escola, você vê aquele monte de criancinhas com programas de atividades montados para cada ano. Em programas culturais, a criança vai sendo apresentada a essas coisas. Eu tive a sorte de estudar numa escola que era desse jeito lá em Vitória. Tive formação de leitura, de espetáculo, de música clássica.

 

Comédia

Você precisa cativar a plateia, formar público, no teatro. Tem que se convidar: é quase como dar a mão e trazer. Acho que o que busco com a adaptação de textos clássicos, fiz o Oscar Wilde (A importância de ser perfeito), fiz Ubu rei, agora, para o Marco Nanini e tenho mais dois textos clássicos pela frente. O próximo é O inspetor geral, de Gogol. Acho que a comédia é uma forma muito legal de trazer o público para o teatro. Os clássicos têm algo a mais. Não é uma peça boba sobre casamento, um stand-up, que pode ser ótimo, mas com um amontoado de coisas sobre o cotidiano. Há autores que as pessoas precisam conhecer. 

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