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Carlinhos 7 Cordas lança primeiro disco depois de 50 anos de choro

Carlinhos 7 Cordas, que tocou com a nata da música brasileira e foi um dos fundadores do Clube do Choro, se reuniu a um jovem grupo de músicos da cidade

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postado em 20/03/2017 06:00

Antonio Cunha/CB/D.A Press

Tem choro e vela. 50 velas e 12 choros, para ser mais preciso. Com 72 anos de idade, 40 deles vividos em Brasília e 50 dedicados ao choro, Carlinhos 7 Cordas está lançando seu primeiro disco como líder. E quem gosta de música comemora.

Carlinhos, que já tocou com a nata da música brasileira e foi um dos fundadores do Clube do Choro, se reuniu a um jovem grupo de músicos da cidade para mostrar técnica a serviço da estética do sentimento, provando que os gregos estavam certos: o belo é o filho das sensações.


O disco traz seis composições do próprio Carlinhos, três de Ernesto Nazareth, três de João Tomé e uma valsa em homenagem a ele, composta e tocada por Bosco Oliveira, o maior responsável pelo lançamento. “Eu sou meio preguiçoso para isso”, diz Carlinhos.

Foi Bosco quem viabilizou tudo, desde o patrocínio do governo de Brasília até a arregimentação dos músicos, além de driblar os problemas de saúde que insistiram em perturbar o violonista nos últimos meses. Ele precisou gravar algumas partes do disco em casa mesmo, impedido de se locomover.

Está orgulhoso do disco. “A produção ficou bonita, muito caprichada”, diz, sentado na sala de sua casa, onde há, pelo menos, 10 violões — cinco com sete cordas, um de cada madeira (e o sexto, de imbuia, já foi encomendado ao luthier Bruno Balbino, que tem um ateliê no Lago Oeste). Ainda na sala há piano, acordeon, bandolim, cavaquinho, viola caipira e até violões de seis cordas — sempre pronta para um sarau.

As três músicas do maestro João Tomé, além de justa homenagem a um músico que fez história na cidade e deixou mais de 500 composições de estilos variados, são também um dengo na mulher, Alcione, companheira de 40 anos e filha de Tomé. Os arranjos de todas as faixas são de Carlinhos 7 Cordas.

Boemia

A história de Carlinhos com Brasília começou no final dos anos 1970. A esta altura ele já tinha deixado de ser José Carlos da Silva, para assumir o nome do instrumento como sobrenome. Era um músico reconhecido, acompanhando grandes cantores, tocando com Época de Ouro, Copinha, Paulo Moura, quando se mudou para a capital. Foi seduzido. A não tão fina flor da boemia brasiliense foi buscá-lo para fazer suas farras.

Instalado numa pensão da W3 Sul, estranhou a cidade e aquelas pessoas que o levavam em todas as festas, boates e inferninhos para tocar a troco de nada. O emprego prometido não saìa e as dificuldades começaram com a dona da pensão querendo receber o mês. Esqueceu o desejo de ir embora quando, numa festa, conheceu Alcione. “Pedi logo para namorar. Ela disse não, mas eu não queria ouvir não. Estamos juntos até hoje”, conta.

O emprego não saiu, mas ele passou uns dias trabalhando no Congresso, onde encontrou o violonista Hamilton Costa, que o levou a Waldir Azevedo, também morador de Brasília. Bastou um ensaio para receber uma proposta. “Você vai comigo pra Alemanha fazer uns shows?”, perguntou o cavaquinhista. Carlinhos topou na hora.

Depois disso gravou dois discos com um dos maiores mestres do choro (Waldir Azevedo, de 1977, e Lamento de um cavaquinho, de 1978), fez dezenas de apresentações no auditório da Rádio Nacional (Azevedo tinha um programa semanal), até que um aneurisma o matou, aos 57 anos.
Carlinhos 7 Cordas já dava aulas e decidiu abrir uma loja-escola, a Musical, que ficou famosa pelos saraus dos sábados à tarde no início dos anos 1980; mas teve que fechar para terminar a construção da casa em que mora até hoje. Foi trabalhar como professor temporário da Escola de Música, mesmo contra a vontade do diretor à época, porque não lia música.

Para o ano seguinte ele não foi chamado, mas assim que mudou a direção e o maestro Carlos Galvão assumiu o posto, foi chamado de novo. Ficou 11 anos, até se aposentar por um problema de saúde. “Até hoje eu encontro músicos que estudaram comigo. É uma alegria. Muitos ficaram meus amigos”, diz.

Um chorinho delicado


O primeiro a incentivar Carlinhos 7 Cordas a compor foi Waldir Azevedo. O violonista ainda retrucou, mas Azevedo insistiu. “Você tem essa facilidade melódica, não vai ser difícil”, disse. A resposta foi uma valsa, Paula, gravada no disco 50 Anos de choro.

O álbum traz mais cinco canções de Carlinhos — três delas ganharam letras de Clôdo Ferreira (que já gravou duas, Diamantes e Iluminuras, em seu disco mais recente) e já separou Melhor assim para registrar no próximo.

Difícil apontar um destaque, mas Maria Angélica, faixa que abre o disco, é valorizada por um trabalho excepcional de Victor Angeleas, jovem bandolinista de fraseado fácil e ideias fluidas. A melodia insinuante e ágil e ajuda o desenvolvimento do tema.

Surpresa são as três músicas de João Tomé, selecionadas entre os 37 choros que ele deixou. Prece ao coração é um choro canção que tem a melodia ressaltada pela flauta de Thanise Silva e pelo cavaquinho de Nelson Latif e mostra toda a capacidade do violão de sete cordas de construir harmonia e ritmo. Bem distante e Ajeitadinho são os outros choros do maestro.

Mineiro de Uberaba, João Tomé chegou a Brasília em 1960 e poucos meses depois trouxe a família para morar num apartamento de um cômodo, de onde foram expulsos com outros funcionários da Rádio Nacional — o Correio Braziliense fez a reportagem na edição de 23 de novembro de 1960.


Por ordem do presidente Juscelino Kubitschek, logo depois os funcionários receberam apartamentos maiores e ele pode se concentrar na música. Tomé seria contratado como professor da rede pública, criando um método de violão para cegos como ele, que tocava diversos instrumentos. Ele morreu em 1971.

O disco ainda traz três composições de Ernesto Nazareth — Brejeiro e Apanhei-te cavaquinho, em pot-pourri, e Odeon, que já tinham sido registradas num DVD dedicado a Carlinhos. Os arranjos primam pela delicadeza, com variações sutis e pequenas surpresas na riqueza harmônica apresentada.

Melhor de saúde, Carlinhos 7 Cordas já elabora planos para lançar o disco. Bosco Oliveira, o faz-tudo, tem até o itinerário: Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba. Só falta marcar as datas.

50 anos de choro
Disco de Carlinhos 7 Cordas, gravado no estúdio Bananal, Brasília. Produzido por Sidney Teixeira, Bosco Oliveira e Nelson Latif.

13 
Número de músicas do disco 50 anos de choro

 

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