Mulheres garantem maior representatividade no painel das artes visuais

Grupo de artistas do Distrito Federal forma rede para lutar contra o machismo no mercado das artes plásticas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 13/04/2017 07:44 / atualizado em 13/04/2017 15:57

Antonio Cunha/CB/D.A Press
 
Durante alguns dias do mês de março, um grupo de 32 artistas, todas mulheres, decidiu cobrir suas obras expostas na mostra Onde anda a onda 2, no Museu Nacional da República. Foi um protesto, uma greve geral para dar visibilidade à desigualdade de gênero no mundo das artes visuais. O ato foi uma consequência de uma discussão surgida em dezembro do ano passado, durante a exposição do Prêmio Vera Brant.


“O prêmio foi criado para homenagear uma mulher, mas foram premiados apenas homens. Os produtores falaram que não se tocaram das desigualdades. Não foi uma coisa pensada, eles não enxergaram mesmo. Decidimos então nos reunir para pensar sobre essas desigualdades entre as mulheres na arte”, explica Alice Lara, que idealizou o grupo ao lado de Barbara Mangueira.

A partir do ato e do prêmio, o grupo decidiu criar um projeto de pesquisa para estudar de maneira mais precisa a desigualdade, discutir soluções e dividir as experiências. As artistas montaram uma página no Facebook — Rede de mulheres das artes visuais no DF — para a qual convidaram produtoras, curadoras, galeristas a outras artistas. No total, a rede já conta com 200 mulheres.
 


“E para negociar melhor, precisávamos de dados para ver como a desigualdade opera. Um questionário formulado por profissionais da arte no Distrito Federal está sendo montadado para obter esses dados”, conta Alice. “A gente já sabe que a diferença de gênero existe. A pesquisa pode contribuir para saber as especificidades: quem são as mulheres nas artes no DF, qual o perfil delas e, a partir disso, tentar bater com informações que outros pesquisadores já têm”, avalia Isabela Couto, que faz parte do grupo.

Alemã radicada em Brasília, Silvie Eidam aponta que uma análise rápida é capaz de demonstrar a desigualdade entre homens e mulheres nas artes. “Dá para ver pelos números”, garante. “Pelos artistas mais vendidos, pelos mais premiados, pelos galeristas mais conhecidos, são sempre homens”, diz. “Sinto também que tem um tratamento bem concreto no dia a dia nos espaços, as relações de gênero estão presentes. A gente tem que investir mais na autoestima, ser mais confiante.”

A discussão de questões de gênero nem sempre é bem-vinda, até mesmo em um meio no qual a liberdade de expressão e ação é um dos motores da criatividade e do trabalho. “O feminismo sempre foi uma coisa muito solitária, é difícil colocar a cara a tapa”, repara Clarice Gonçalves. “E na arte, é uma coisa muito sutil e, ao mesmo tempo, gritante. Em qualquer lista de galeria nas feiras, a gente tem menos espaço.” Além disso, ela reclama da existência de um mito de que, ao virar mãe, a artista interrompe a carreira. “E o mercado meio que conspira para isso”, lamenta.


Postura feminista
O feminismo nas artes visuais ganhou força a partir dos anos 1960, com algumas artistas e teóricas que passaram a discutir e trabalhar sobre as identidades, a sexualidade e o gênero. Das performances de Yoko Ono, no fim dos anos 1960, ao radicalismo de Cindy Sherman, Nan Goldin e das Guerrilla Girls nos anos 1980, da crítica política de nomes como o da francesa Orlan e da brasileira Márcia X, temáticas ligadas a gênero e identidade pautaram alguns dos melhores trabalhos produzidos na época, mas isso não foi suficiente para eliminar as desigualdades. A postura feminista continua a incomodar. “Estamos num momento mais propício para a inserção das mulheres, mas não sei até que ponto o patriarcado vai transformar isso em algo comercial, consumível, um produto com uma etiqueta para colocar a gente numa caixinha”, reflete Clarice.

Pesquisadora, diretora artística do Elefante Centro Cultural e professora substituta do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (IDA/UnB), Cinara Barbosa explica que, há pelo menos três décadas, o meio acadêmico se engajou num revisionismo para incluir a mulher na história da arte. Nesse contexto, experiências como a rede formada pelas artistas do DF ajudam a criar um lugar de fala e troca de experiências fundamental.

“A rede produz uma pesquisa mais viva, que é importante porque possibilita fazer o cruzamento com outras ações. E sai do acadêmico, amplia o discurso para expor a ferida e as experiências mais duras”, acredita Cinara. “A rede faz um mapeamento das mulheres artistas do DF e as coloca no lugar de fala. Faz as outras artistas pensarem em coisas que a gente toma como normais e não são normais. É um momento para pensar.”
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.