Livro de historiador inglês revela lados menos conhecidas de Joaquim Nabuco

Principal líder abolicionista do Brasil, Nabuco foi uma figura dominante na vida intelectual e política brasileira na última fase do Império e no início da República

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postado em 15/04/2017 07:00

Reprodução da Internet


Principal líder abolicionista do Brasil, Joaquim Nabuco foi uma figura dominante na vida intelectual e política brasileira na última fase do Império e no início da República. A defesa pelo fim da escravidão foi a bandeira que mais marcou a trajetória do político pernambucano, no entanto, Nabuco se engajou em outros debates importantes e polêmicos do final do século 19, como as relações do país com os Estados Unidos e com os vizinhos na América Latina, além de narrar episódios que se passavam em uma Europa cada vez mais imperialista e ambiciosa nos anos que precederam a Primeira Gerra Mundial. O livro Joaquim Nabuco no mundo: abolicionista, jornalista e diplomata, do historiador inglês Leslie Bethel, traz quatro artigos sobre as diferentes fases da vida de um dos personagens principais da vida política brasileira e explora novas leituras e interpretações sobre seu pensamento.


Nabuco passou quase um terço de seus 60 anos (1849-1910) fora do Brasil. Filho de um importante advogado e político do império, José Thomaz Nabuco de Araújo, ele teve acesso aos melhores colégios, formou-se em direito em Recife e, logo no início da vida adulta, foi indicado para ocupar um cargo na legação brasileira em Washington. Porém, sempre deixou claro sua grande admiração pela Inglaterra e pela política britânica – em meados do século 19, a principal potência mundial. Aos 28 anos, foi transferido para Londres, integrando o corpo diplomático brasileiro na capital inglesa.

Com a morte do pai, meses depois de chegar a Londres, o plano de seguir carreira diplomática foi adiado e Nabuco teve que voltar ao Brasil por insistência de sua mãe, que queria que ele se lançasse candidato à Câmara dos Deputados. Apesar da relutância e falta de empolgação em iniciar a carreira política, ele foi eleito. No Poder Legislativo, Nabuco encontrou no fim da escravidão sua maior motivação para trabalhar e passou a se dedicar integralmente na década seguinte à emancipação dos negros.

Nos dois últimos capítulos de Joaquim Nabuco no mundo, o autor vai além da trajetória combativa pelo fim da escravidão no Brasil. Como correspondente do Jornal do Commercio em Londres, Nabuco escreveu 228 artigos sobre os mais variados temas. Ele acompanhou atentamente as disputas sobre a reforma eleitoral britânica, em que cada vez mais se aumentava o número de cidadãos que tinham direito de votar em seus representantes. Escreveu também sobre as disputas entre Inglaterra e a Irlanda, descrevendo com detalhes os contextos históricos envolvendo a questão no Reino Unido. O pernambucano descreveu, no final do século 19, o crescimento do fervor nacionalista no Império Alemão com a chegada do kaiser Guilherme ao trono. Seus artigos foram publicados também pelo jornal uruguaio La Razón e por outros periódicos brasileiros.

Defensor dedicado da monarquia no Brasil, Nabuco viu sua carreira na política se encerrar com a instauração da República, em 1889. Passou a combater os governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto porque considerava governos militares prejudiciais à nação. Já afastado da política, em 1897, ele participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, da qual veio a ser o primeiro secretário-geral.

Sua vida pública, no entanto, seria retomada em 1899, quando o presidente Campos Sales o convidou para ser chefe de uma missão especial em Londres dedicada a defender o Brasil na disputa territorial com o Reino Unido por terras da Guiana Inglesa. Ele serviu como diplomata também em Paris e Roma, até que, em 1905, se tornou o primeiro embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Apesar de ser forte crítico da política norte-americana anos anteriores e afirmar que preferia viver e trabalhar na Europa, Nabuco se tornou um grande defensor da aproximação entre Brasil e EUA.

Nesse período Nabuco se mostrou contrário às relações do Brasil com seus países vizinhos, chegando a apresentar visões preconceituosas com os países latinos. Sua visão sobre a América Espanhola era negativa e ele deixou várias vezes claro seu desprezo pelos vizinhos: “Nunca eu pensei em ver o Brasil rebaixado a um Paraguai, Uruguai, Equador, Argentina ou o que quiserem. Como o Brasil se sul-americanizou depressa, e com que fúria!”, lamentou Nabuco em carta ao Barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores. Ele defendia que o Brasil aceitasse uma certa submissão aos EUA para impedir que os europeus tentassem recolonizar o país.

O percurso múltiplo e louvável de Nabuco (ainda que com posições questionáveis ideologicamente por adversários políticos e historiadores) fez com que o pernambucano ocupasse um papel de destaque na história brasileira. Seja como líder abolicionista, jornalista ou diplomata, ele ficou marcado por defender suas posições com muita coragem e convicção. Seu legado permanece até hoje e pode ser lido e relido de várias maneiras.

SERVIÇO

JOAQUIM NABUCO NO MUNDO: ABOLICIONISTA, JORNALISTA E DIPLOMATA
De Leslie Bethel. Bem-Te-Vi Produções 232 páginas. R$ 55

 

 

 

 

 

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