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Livro explica como o funk ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro

'Funk, a batida eletrônica dos bailes cariocas, que conquistou o Brasil', de Júlia Bezerra e Lucas Reginato, analisa as mudanças do gênero

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postado em 15/04/2017 07:00 / atualizado em 15/04/2017 11:48

I hate flash /Divulgação


Já faz algum tempo que o funk extrapolou as fronteiras do Rio de Janeiro, onde nasceu. Essa efervescência alcançou o mainstream com o sucesso inegável de artistas como MC Guimê, Ludmilla e Anitta. Quem torcia o nariz para o gênero musical começa a entender que, mais que batida perfeita para “descer até o chão” em baladas, trata-se de um verdadeiro fenômeno cultural. Ele triunfou. Mesmo rejeitado por uma parcela da sociedade, finca espaço nas comunidades, nas rádios, na tevê e até na web. Os pancadões continuam, mas hoje dividem a cena com uma música mais comercial, industrialmente produzida para grandes multidões e palatável para as massas.


Como toda revolução, esse boom não começou de uma hora para outra, jogado àsorte ou ao acaso. A história é difusa, longa e merece ser melhor compreendida. Tem início na década de 1960, e se relaciona com a vida nas periferias do Rio de Janeiro. Esse período histórico de mais de sete décadas é analisado no livro Funk, a batida eletrônica dos bailes cariocas, que conquistou o Brasil, de Júlia Bezerra e Lucas Reginato, lançado recentemente.

“O termo funk, em si mesmo, nos dá pistas de uma origem histórica, pois se relaciona com os bailes black realizados a partir dos anos 1970 por equipes de som como CashBox e Furacão 2000 longe do centro da cidade, na baixada fluminense, em Niterói, nas comunidades... Esses bailes tinham como principal trilha sonora o funk norte-americano, sendo James Brown o ídolo maior”, relembra Lucas Reginato.

Na mesma época, os Estados Unidos viviam um momento histórico que reivindicava direitos civis e respeito à identidade negra. A música, lá e cá, estava diretamente ligada à autoestima da população. “Além dessa origem sociocultural, está muito clara a origem musical do funk carioca, que nasceu inspirado no miami bass, uma vertente dançante de hip-hop feito na Flórida nos anos 1980. Os primeiros funks cantados em português eram sobre bases de miami bass, de modo que herdamos uma certa estrutura rítmica, a técnica de produção, eram de um espírito jocoso muito natural do carioca”, acrescenta o autor.

Aos poucos, os ritmos americanos e as letras em inglês começaram a se abrasileirar. Ao se espalhar para outros estados, gêneros como samba e forró emprestaram características ao funk. “Um exemplo é o famoso refrão de Rap da felicidade, cantado como se fosse um refrão de samba-enredo”, emenda Reginato. No âmbito musical, o gênero passou por mudanças positivas, incorporando outras camadas sonoras e se sofisticando com artistas que o mesclam a outros estilos. A carioca Alice Caymmi, por exemplo, bombou ao regravar Princesa, hit do carioca MC Marcinho. A banda instrumental Muntchako, de Brasília, lança em breve um disco em que reafirma parceria com a funkeira – também carioca – Deize Tigrona em Cardume de Volume.

Por outro lado, na esfera social, o funk enfrenta repressões de diversas frentes. No início, elas vinham por meio do governo militar, que considerava as reuniões e os chamados bailes de corredor subversivos. As perseguições ainda acontecem, em menor grau. “Atualmente, a repressão policial se relaciona com a guerra às drogas, mas hoje e sempre ela é aos pobres – ou não há ilícitos em festas da elite? A perseguição é ao gênero musical e ao que ele representa, a voz do povo, a autonomia e criatividade da população brasileira”, critica.

Cariocando a capital
“Quando toca, ninguém fica parado”. Os versos de Amilcka e Chocolate na música Som de Preto sintetizam uma das maiores qualidades do funk, dançante por essência. O som enfrentou a tempestade e hoje vive uma fase de bonança. Em Brasília, não faltam festas dedicadas exclusivamente ao gênero ou que o mescla a outros sons. Apenas neste fim de semana, pelo menos quatro festas estão calcadas nessa premissa (leia Programe-se).

Uma delas é a METEoLOKO, onde se apresentarão os produtores musicais Padula, do Favela Bass (RJ), e Thiago Salvador, do Pesadão Tropical (RJ). O último projeto é conhecido por unir o funk carioca ao grave da bass music (nicho da música eletrônica). “A adaptação do funk com intuito de difundi-lo é extremamente necessária e vantajosa para o estilo”, defende Thiago Salvador.

“Mesmo eu hoje morando no Rio de Janeiro, a Pesadão Tropical é um projeto que nasceu no Rio Grande do Sul.  Além disso, os funkeiros estão tirando muito proveito com a presença do estilo na televisão”, acredita.

Outra iniciativa é a festa Na batida do Morro. Ela faz parte do projeto Morro, idealizado por Danton Barros para propagar música e entretenimento para a comunidade das satélites do DF, incluindo a divulgação de artistas diversos da periferia. “O funk não é só do Rio, mas sim de todas as periferias”, afirma Danton. É arte do Brasil.” 

Rosana Silva/Divulgação


Duas perguntas / Lucas Reginato

Gênero com origem subversiva, o funk conseguiu espaço no mainstream. Como isso foi possível?
Tenho para mim que o funk conquistou espaço no mainstream quando a grande mídia não tinha mais para onde correr. Em 1994, a Furacão 2000 alugou um espaço no pequeno canal CNT-Rio e começou a exibir um programa sobre o funk nos domingos de manhã. No mesmo horário, na Globo, era o programa da Xuxa. A audiência da CNT foi tão impressionante que a Globo sentiu-se ameaçada e abriu as portas para o funk – todo domingo tinha um funkeiro diferente entre as atrações do Xuxa Park. Até hoje a Xuxa é muito querida por funkeiros da antiga, porque foi lá que começaram a aparecer ao lado dos artistas de outros gêneros musicais.

Como vê as reclamações sobre apropriação cultural em torno do funk?
É um tema muito delicado. Ergo a bandeira da cultura livre, e acredito que músicas, livros, filmes, a arte, enfim, devam circular sem limites. O funk é música eletrônica, e como tal tem tanto produção como reprodução facilitada em relação aos gêneros convencionais, que demandam equipamentos mais complexos e instrumentistas. Mas eu preciso admitir que me incomoda ver o funk em festas de elite quando ele é recebido sarcasticamente, quando as pessoas fingem que acham o funk uma música pobre, mas, mesmo assim ,dançam até o chão, porque estão a reafirmar a estigmatização do gênero. Aliás, é muito comum, não é? Quem no dia a dia diz que funk não presta, que não é música, mas na festa se esbalda. Incomoda-me porque o funk não é só brincadeira, não é só putaria ou ostentação. O funk é uma expressão do povo brasileiro e merece muito respeito pela história que foi construída.

Editora Panda Books/Reprodução


Para ler
Funk, a batida eletrônica dos bailes cariocas que conquistou o Brasil. De Júlia Bezerra e Lucas Reginato. Panda Books, 160 páginas. Preço: R$ 35,90.

 

 

 

 

 

 

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