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Em entrevista ao Correio, Dori Caymmi fala sobre sua música e o Brasil

O compositor lança Voz de mágoa, com 16 faixas

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postado em 16/04/2017 07:30 / atualizado em 17/04/2017 12:17

Dori Caymmi não faz concessões. O Brasil, para ele, logo se esquecerá de nomes como o do pai, Dorival. “Tom Jobim, papai e Ary Barroso viraram estátuas aqui, com Drummond e Noel Rosa”, dispara. Contra a banalidade do mercado, Dori oferece uma visão bucólica do país com o minimalismo da voz, do violão e da poesia de parceiros como Paulo César Pinheiro.  Dori, que lança Voz de mágoa, falou ao Correio sobre a música que produz e a esperança de um Brasil melhor, apesar de todos os problemas.





Você canta, na primeira música do disco, que “qualquer canto, mesmo triste, ameniza a dor deste mundo”. A arte é capaz de tornar o mundo menos doloroso, a vida mais aceitável?
Ah, eu acho. É quase que um paliativo, né? Apesar de que você vê, em qualquer ramo de arte, que as pessoas estão super ligadas em se divertir e se importam mais com a parte do entretenimento. A cultura mesmo fica para poucas pessoas. Mas, de qualquer maneira, eu acho que, sim, a arte atenua um pouco essa coisa louca que o mundo virou.


E o tipo de música que você faz é para poucos?
Sim, porque eu não faço arte para os outros, eu faço porque  gosto. Nasci com esse dom,  tive essa sorte. Tive a influência em casa também e a facilidade de ter a geração do meu pai muito importante e a geração depois dele também muito importante para minha formação. E eu me formei como brasileiro, tenho muito de nacionalista. Alguns dizem que eu sou reacionário, mas a ideia não é essa. Eu não sou contra o progresso, eu sou contra o progresso burro.


Como é o progresso burro?
Nós estamos vivendo esse progresso burro, principalmente com essa telinha idiótica do Steve Jobs — as pessoas estão escravizadas a ela. Muita coisa mudou... A memória, por exemplo, já não existe. Eu não acho, então, que a música seja para muitos, não. Evidente que não é. Meu pai deixou um acervo imenso, no sentido qualitativo, e algumas coisas que se tornaram populares em uma época, hoje não são tanto porque as pessoas estão ligadas a outro tipo de música. Então, você tem que se conformar que Tom Jobim, papai e Ary Barroso viraram estátuas aqui, junto com Drummond e Noel Rosa. As pessoas vão passar por elas como passam por Tiradentes e pelos outros agraciados com homenagens sem se lembrar de quem são.  


Você acha que esse esquecimento, isso de seu pai, Tom Jobim e Ary Barroso virarem estátuas, é um processo sem volta?
Olha, é difícil dizer. Eu já fui mais pessimista. Com a idade, em vez de ficar mais pessimista, fui ficando mais otimista porque eu tenho visto jovens acreditando nesse trabalho da minha geração. Os caras acreditando no Milton, no Edu Lobo, no Chico Buarque, pessoas que não abrem mão dessa coisa nacionalista, sem esquecer desse Brasil que está se perdendo.


Nesse contexto se manter coerente no tipo de música que produz é resistência?
Não é resistência porque é a única coisa que eu sei fazer. É o meu ofício, eu gosto disso. Eu gosto de Guimarães Rosa, eu gosto de Jorge Amado, eu gosto dos rios sem poluição, do povo educado, dos hospitais com lugar para todo mundo, eu gosto de político ladrão na cadeia. E eu quero que o Brasil seja o Brasil de novo. Esse Brasil não é o que me prometeram, não…


Mesmo assim, você tem esperança…
Como diz o outro, a esperança é a última que morre. Mas vai morrer, não tem jeito. Com essa coisa de globalização, com essa coisa de comunicação muito mais rápida, que as pessoas não aprenderam ainda a usar de uma maneira correta, as coisas vão ficando difíceis. Mas eu quero deixar claro, faço música porque nasci para fazer música, porque vejo poesia nos lugares onde as pessoas não olham mais, elas não veem uma árvore bonita, não se ligam às montanhas...

 


Do que é produzido hoje, o que vale a pena ser ouvido?
Tem muito jovem hoje fazendo música muito boa, interessado e ligado nas nossas raízes… E estar ligado nas nossas raízes não quer dizer não ter influências, eu tenho no meu trabalho. Quando gravei nos Estados Unidos, trabalhei com músicos de jazz e tenho influência clássica muito grande. A influência é benéfica, mas se apegar a ela como uma muleta e fazer uma música que está mais para Justin Bieber do que para Brasil, isso eu não faço. Mas a maioria aqui está mais para sofrência, para sertanejo. É até um pecado chamar isso de sertanejo, aliás. O sertão é muito mais bonito do que isso.


E o que não vale? O que você não ouve de jeito nenhum?
Isso que acabei de falar. E eu ouço, na verdade, ouço quando quero criticar. Tenho visto essa massificação em torno de música sertaneja, tenho visto as comunidades todas ligadas a música estrangeira de uma certa forma. É por aquela coisa que se fala no Brasil desde que eu nasci, é preciso educação e saúde, uma como decorrência da outra. E nós não temos isso.


Por que você voltou para o Brasil?
Estava na hora. As pessoas brincam comigo, mas não foi o Trump, não. Voltei, primeiro ,  porque trabalho mais no Brasil. Nos últimos 15 anos, não fiz muitas coisas lá. Caiu muito o interesse pela música do Brasil porque ela deixou de ser uma novidade e passou a ser integrada à vida do músico americano de maneira geral. Como trabalho muito no Brasil, chegou uma hora que viajar, já estou com quase 74 anos, começou a encher o saco. Realmente, achei que era por bem voltar.


Mas você volta feliz?
Eu volto feliz com a ideia de que existe gente querendo corrigir essas coisas todas que estão acontecendo, existe gente querendo criar. Mas nós estamos passando um momento difícil politicamente no Brasil, você não sabe quem é honesto, se a esquerda, se a direita, se o centro...

 




Você fez questão de colocar música do Brasil como subtítulo do disco…
Sim, porque isso é uma questão muito importante para mim. As pessoas veem esse nacionalismo de maneira negativa, me chamam de reacionário, às vezes, mas eu não sou. Eu só não estou interessado em ganhar muita grana, comprar aviões a jato, cantar para um monte de gente pulando… Essa coisa de levantar poeira, eu sou alérgico a poeira, não gosto disso, não.


Algo do que é produzido atualmente ainda tem o poder de te influenciar, de te inspirar?
Ah, tem. Tem músicos que eu gosto. Um mineiro, por exemplo, o Sérgio Santos, o Renato Braz, de São Paulo. E jovens que estão tocando muito bem, como os filhos do meu querido parceiro Paulo César Pinheiro, Julião Pinheiro e a Ana Rabello, que são excelentes músicos. O filho do Cristóvão Bastos, Miguel Rabello, eu também gosto muito e vejo muito de mim, da minha juventude, quando o ouço tocar. Isso dá uma alegria para o coração da gente, saber que tem meninos que estão preparando a nossa música para o futuro, isso dá uma esperança muito grande.


Falta coragem para os nossos artistas hoje? De dizer o que pensam, de nadar contra a corrente?  
Eu acho que sim. Porque, por exemplo, teve gente deturpando a música do Tom Jobim, as harmonias… Eu não vou dizer nomes para evitar problema, mas, se fizerem isso com a minha música, eu vou vetar. Não vou deixar. Não vou mesmo, porque as pessoas que pensam o Brasil como eu são muito poucas, não dá para permitir isso. Falta coragem, sim.


Você sempre teve essa coragem... Qual o preço disso?
Hoje, eu tenho muito cuidado em não esculhambar diretamente porque eu não vou ter dinheiro para pagar o processo. Já estou muito velho para ir para a cadeia, mas a verdade é que eu não tenho papas na língua. Paga-se um preço por isso, sim. Eu tenho fama de ser ranzinza, nacionalista, reacionário, eu sou tudo... Mas, no fundo, eu sou só um brasileiro que gosta do Brasil imensamente.

 

SERVIÇO

Voz de mágoa (música do Brasil)

Dori Caymmi. Acari Records. 16 faixas. R$ 30.

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