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Édouard Baer fala sobre o estilo gaulês de jogar com o destino

Ele é ator e diretor do filme Imprevistos de uma noite em Paris

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postado em 16/04/2017 07:30 / atualizado em 14/04/2017 17:04

Reprodução/Internet


Aos 50 anos, dono de um humor apuradíssimo e uma simpatia que ressalta, até mesmo pelo frio meio de uma entrevista ao telefone, o ator e diretor francês Édouard Baer não se posiciona como grande astro do audiovisual, mesmo com mais de 60 produções no currículo. “Tenho orgulho de tão pouca coisa no cinema (risos). Tenho muito mais prazer de estar no palco. Sinto a obra com mais intensidade. Nem me vejo como um ator de cinema. Fiquei muito feliz em interpretar, por exemplo, o Astérix; como ator, entretanto, não vi como o maior dos desafios. O prazer no cinema, acho, fica mais a cargo do diretor”, observa ele que, em Imprevistos de uma noite em Paris, acopla as duas funções.


Ao lado de Audrey Tautou (a eterna Amélie Poulain), Edouard está em cena como Luigi, agitador cultural que produz uma peça que tem muitas chances de não vingar. “Audrey tem uma profundidade no olhar, e, ao mesmo tempo, enorme talento para a comédia. Foi muito interessante tê-la no filme”, comenta. O time de parceiros que dividiram a telona com Édouard é daqueles que impressionam. Em Astérix e Obélix: A serviço de sua majestade (2012), ele contracenou com Catherine Deneuve, enquanto Gérard Depardieu viveu Obélix. Baer é figura de peso na França, onde é conhecido pela apresentação de um talk-show e esteve à frente de cerimônias como as do Festival de Cannes e dos prêmios César (espécie de Oscar francês).

“Quero sempre levar a interação  com os outros atores para o lado da criação de uma banda de rock, por exemplo. Gosto de conviver intensamente com as pessoas daquele trabalho. Não obrigatoriamente configurando o papel a ser interpretado, mas ambientando o clima proposto pela obra em questão”, comenta o cineasta que, em Imprevistos de uma noite em Paris, explora os bastidores de uma trupe teatral. Muita coisa dá errado para os protagonistas da trama que transpira certa melancolia aparentada da nostalgia pelos anos de 1960 e 1970. “Gosto das comédias italianas, com confrontos em pequena escala”, simplifica o cineasta-ator, meio avesso a citações de cinema.

“Acho que é importante, quando você faz um filme, não ficar muito influenciado por outros diretores (do passado). Ao mesmo tempo, você não pode ficar preso apenas a sua visão, sendo um trabalho que pende para o termo de equipe”, comenta. No desenvolvimento do longa, Luigi é o retrato do descompensado, tendo como apoio as figuras femininas fortes, entre as quais, a da estagiária Faeza (Sabrina Ouazani). “Essa atriz é o retrato da parisiense contemporânea”, demarca Édouard.

Falar de ídolos e de expoentes femininos das telas rende um entusiasmo extra, quando se toca no nome do momento (dada a projeção internacional): Isabelle Huppert (indicada ao Oscar, por Elle). “Isabelle tem algo impressionante atrás de seus olhos. Nunca trabalhei com ela, mas é o tipo de intérprete que você não precisa se ater ao que é dito em cena, muito dela está na capacidade de escutar e reagir ao que escuta do outro ator. Huppert tem um silêncio repleto de algo inexplicável: é impressionante”, enaltece Édouard. Ainda no meio cinematográfico, ele aponta a versatilidade da admiração por figuras tão díspares quanto Will Ferrell e Woody Allen.



E os brasileiros?
Apaixonado por cinema, desde os 10 anos de idade, Édouard Baer admite uma lacuna: “Sou muito ruim com relação a entender da filmografia dos artistas brasileiros”. Numa certa medida, trata-se de uma das maiores distâncias entre o cineasta e o teórico e diretor Laurent Tirard (O pequeno Nicolau), o artista que o promoveu a Astérix, em 2012, muitos anos depois de ele haver encarnado um tipo coadjuvante da franquia. Sem muita teoria, o cabeça de Imprevistos de uma noite em Paris assume que prefere “ser inspirado pela vida real”. “Pelo fato de ser ator, senti -me suficientemente livre para a realização de mais um longa-metragem (o terceiro da carreira). Meu olhar é mais de impressão, com toque selvagem — Rawww!”, diverte-se.

O novo filme, ainda em cartaz na capital, faz par com Akoibon (2005), repleto de energia e loucura. “Tenho uma vida recheada de altos e baixos. Posso ter a jornada de uma vida inteira compactada em um único dia (risos). Passo das intensas gargalhadas a um sofrimento absoluto, sem muita medida. É terrível. Vejo-me, num dia, com uma vida plena e, pouco depois, acho que toda a existência perdeu o sentido”, confessa o ator, numa inconstância assumidíssima.

Uma crença inabalável – que faz par com o jeitinho brasileiro – liberta os personagens comandados por Édouard Baer, em Imprevistos de uma noite em Paris, das situações extremas. A arte corrobora a vida real. “Sou mais ator de teatro – é tão criativo, e fico tão feliz de estar no palco. Sem a câmera, esqueço o julgamento interno. Mas meu foco no novo longa, por eu estar na direção, me faz abandonar a autocrítica extrema, e nem elaboro tanto o personagem, ficando bem mais desligado da existência da câmera”, conclui. Ponto, então, para o relaxado ator de cinema, sim; ainda que a contragosto.
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