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Especialistas falam como tratar temas delicados com adolescentes na TV

Abordagem de temas como suicídio chama a atenção no seriado disponível no serviço de streaming

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postado em 18/04/2017 07:30 / atualizado em 18/04/2017 10:31

Netflix/Reprodução
 

“Eu vou te contar a história da minha vida, mais especificamente, como minha vida acabou.” A frase que marca o início da série Os 13 porquês chama atenção para o conteúdo que a história pretende apresentar: as razões de um suicídio. Dentro do universo direcionado ao público adolescente, a narrativa pode ser surpreendente e impactante. Porém, autores e psicólogos ouvidos pelo Correio defendem que tratar o tema publicamente é uma iniciativa importante.



A série Os 13 porquês chegou ao canal de streming Netflix dividida em 13 episódios. Baseado no livro homônimo — escrito por Jay Ascher —, o enredo não é muito complicado: Hannah é uma garota que cometeu suicídio, mas que deixa um claro recado para todas as razões de tal ato. A série conta com diversos nomes na direção, incluindo Tom McCarthy (Spotlight), e um elenco essencialmente jovem, com Katherine Langford (Hannah) e Dylan Minnette (Clay) nos papéis principais.

Lançado há 10 anos, o livro entrou no conhecido rol internacional de literatura YA (Jovens Adultos, em tradução livre). O termo foi cunhado pela inglesa Sarah Trimmer ainda no século 19, e segundo a autora brasileira Renata Ventura, os YAs são geralmente lidos por jovens entre 14 e 18 anos, “São livros voltados para aqueles leitores que já tem uma formação, que conseguem entender”. No Brasil, a categoria YA geralmente é classificada pelas grandes editoras apenas como literatura infantojuvenil.

Independentemente de ser YA ou infantojuvenil, Os 13 porquês foi logo inserido em uma classe singular da literatura: a Sick-lit (literatura enferma, em tradução literal). Com maior destaque a partir de 2010, livros com temas que abrangem suicídio, doenças fatais, distúrbios psicológicos entre outros, — direcionado ao público adolescente — começaram a ganhar espaço na lista dos mais vendidos. Uma nova era na quebra de tabus estava sendo escrita.

Os temas podem até parecer assustadores, principalmente se considerado o público alvo de pouca idade, mas autores e especialistas defendem que são assuntos relevantes e merecem ser discutidos publicamente.

Sem medo

Em 8 de fevereiro, o canal de streaming Netflix promoveu um painel em Nova York para apresentar os novos projetos da emissora. Eventos do tipo são frequentes, mas dessa vez, o público deu de cara com uma surpresa.

Brian Yorkey, o dramaturgo responsável pela adaptação televisiva de Os 13 porquês deixou claro que a série não pretendia ser apenas outro drama adolescente: “Nós não vamos ser delicados ao redor da coisa mais brutal para se assistir. A gente vai mostrar. Não vamos espetacularizar o tema, mas seremos honestos”, e continuou: “Vai ser mais difícil assistir para aqueles nos 30, 40 anos do que para os adolescentes. A gente não gosta de pensar que eles passam por isso, mas eles passam, e eu espero ajudar essa geração”.



A escritora brasileira Renata Ventura é uma das que trabalham com o público leitor de YA e também defende que temas difíceis não precisam ser evitados, porque, essencialmente, já estão no dia a dia dos adolescentes. “É um tema mais generalizado, ou seja, os jovens já tem mais contato, o público mais novo tem acesso a muita coisa, não dá para esconder, e não pode ter medo de falar sobre esses temas. É preciso ter cuidado, isso sim”, explica.

Como os temas delicados são tratados no ambiente do entretenimento também é uma preocupação de Marcelo Tavares, Coordenador do Núcleo de Intervenção em Crise e Prevenção ao Suicídio do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. Segundo Tavares, a televisão não ajuda a tratar sobre o tema, são raras as vezes em que a mídia aborda a questão corretamente. A forma como os temas são apresentados ao público é essencial, enfatiza o professor: “É preciso ter cuidado. Os temas são tabus, precisam ser tratados, mas o como eles são tratados faz toda a diferença. O que importa na questão do suicídio é, principalmente, como lidar com os desafios da vida”, explica.

Contra a espetacularização


Mas será que esses conteúdos não são só uma forma de espetacularização? Dependendo da análise , não, segundo a booktuber Raphaela Barros: “São livros que vão além do simples entretenimento, eles vendem porque são importantes, não é só uma questão comercial. Eles tratam de assuntos com os quais o jovem se importa, despertam a curiosidade. Eles não têm medo”.

Netflix/Reprodução


A professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília Eileen Pfeiffer também se alinha com a defesa de que, se tratada com cuidado, a desconstrução de temas tabus em obras artísticas são válidas. E, segundo ela, Os 13 Porquês apresenta essa atenção. “Eu acho que o interessante no seriado é que ele não é linear, não é maniqueísta. É uma narrativa que trata o bullyng num contexto multidimensional. E que coloca em pauta uma questão interessante, mas pouco tratada, que é questionar o quanto alguém que não está diretamente ligado à agressão, ainda pode ser responsável pelas consequências”, analisa.

A perspectiva da série que a professora defende foi estrategicamente desenvolvida para a versão televisiva. A Netflix adotou algumas significativas mudanças no enredo da história, em relação ao livro. Na versão televisiva, Hannah teve a vida abreviada também graças ao contexto moderno do cyber bullying, o que não acontece no livro. A trama audiovisual também é consideravelmente encurtada: enquanto no livro o personagem Clay leva semanas para lidar com as confissões sonoras de Hannah, na série tudo tem um desenlace mais rápido.

Outra diferença: na obra literária, o enredo se desenvolve essencialmente nas lembranças de Clay sobre Hannah, mas na Netflix vários outros personagens ganham forte presença e assumem atitudes de afirmação. A visão dos adultos sobre o suicídio também é uma novidade da série. No livro, os pais de Hannah não se confrontam com as razões da filha, muito menos levam o caso à Justiça.

Ajuda na prática

Eileen Pfeiffer explica que as histórias que tratam sobre temas complexos podem funcionar como uma importante e positiva ponte entre a ficção e a realidade. Segundo a professora, “a história trata de temas que fazem parte do mundo do adolescente. Podem até ser temas difíceis, mas eles existem”.

Ela enfatiza que os pais podem aproveitar a oportunidade do contato de tais temas por meio do entretenimento para reforçar uma ligação com os jovens: “Quando a história é tratada com delicadeza, é uma excelente oportunidade de o adolescente e a família sentarem e dialogarem. É aí que ele terá a oportunidade de relacionar o que acontece em sua vida. O adolescente será estimulado a se posicionar, a questionar”. Eileen completa: “A obra de ficção, tanto na infância, quanto na adolescência, ou no como adulto, é sempre uma excelente oportunidade para estabelecer relações com o que está acontecendo na vida e a refletir sobre elas”.

* Estagiário sob supervisão de Severino Francisco
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