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Diretor Marcelo Gomes estreia filme sobre Tiradentes

Em 'Joaquim', Marcelo Gomes fala do personagem 10 anos antes da consagração

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postado em 19/04/2017 07:30 / atualizado em 19/04/2017 10:34

Reprodução/Internet

 

Em 12 anos de carreira, a produção de cinco longas-metragens. Quem computa o feito é o diretor pernambucano Marcelo Gomes que, a partir de amanhã, ganha as telas brasileiras, com a exibição do longa Joaquim, centrado na figura de Tiradentes. “Não queria uma novela histórica, nem um relato oficial. Quis vasculhar o lado humano, e acompanhar o cotidiano, como fiz no roteiro de Madame Satã. Joaquim, no filme, é, como na história, alferes e dentista. Só que pego a trama 10 anos antes da consagração dele. Projeto o cidadão comum, retratando experiências na vida dele: o herói se constrói assim — não é designado por divindades”, explica o diretor, sempre lembrado por fitas como Cinema, aspirinas e urubus e Viajo porque preciso, volto porque te amo.



“Considero o Marcelo Gomes um artista sintonizado com seu tempo, preocupado em traçar perfis humanos complexos; conduzindo as filmagens com o cuidado da defesa do material humano, em cada obra”, observa o protagonista de Joaquim, o ator Julio Machado. O oficial do Brasil Colônia, aos olhos do ainda estudante Marcelo Gomes, na época da ditadura militar se assemelhava a um Jesus Cristo, daí ele ter vontade de desmistificar. “Tocado pelo iluminismo e pela independência norte-americana, ele foi um alferes que mudou de paradigma, num momento cruel do Brasil, com genocídio de índios e em meio à desumana sociedade do salve-se quem puder”, esclarece o diretor.

Originado numa família vinda do agreste, dada a viagens, em meio a cotidiano poeirento, o cineasta pernambucano propõe, com o filme, uma imersão “num passado vivo, com a câmera na mão”. Filmado em Diamantina e arredores, Joaquim desbravou parte do Brasil intransponível, a partir de um orçamento de R$ 2,5 milhões, com atores de três continentes e ao longo de quatro semanas. “Até carrapato a equipe pegou”, confidencia o diretor.



“Li coisas como a História da vida privada no Brasil (de vários autores), Os desclassificados do ouro (de Laura de Mello e Souza) e Brasil: Uma biografia (de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling), que dão conta das relações sociais da época, com textos inspiradores. Queria saber coisas cotidianas como “como era o sexo, como acendiam fogueiras; quis ter material para uma crônica do século 18”, conta o cineasta. Na satisfação individual, Gomes buscou reanimar a consciência política, a partir das fraturas daquele século. “Vem tudo de lá a preservação de privilégios, perpetuada nas injustiças sociais”, avalia.

Com a exigência de “liberdade total de criação”, Gomes aceitou, como diretor, o convite de um produtor espanhol interessado em projeto sobre 200 anos de independências de países espalhadas pela América Latina. Fisgado pelo desenvolvimento de mais uma fita com tema histórico, ele deu a visão dele para tema que “nem historiadores chegaram a consenso: Tiradentes seria a figura mais importante, ou não, no processo de libertação da Coroa Portuguesa?”.

Pelo povo?
O projeto de resistência do mártir, entre pessoas, na miséria, convivendo com modelos de elite copiados de fora, e sujeitas à exploração de terra e, à margem do desenvolvimento, refletiu em enorme atualidade. Tudo a ponto de, no Festival de Berlim, em fevereiro, a equipe da fita apostar em protesto, reforçado pelo uso de cartazes contra o impeachment de Dilma Rousseff. “Temos uma situação que permanece, e mais agravada. Temos, como verificado nas denúncias, um governo ilegítimo, posicionado a partir de um golpe parlamentar. É o mesmo grupo que luta contra maiores esclarecimentos para não ter seus nomes revelados”, comenta.

Marcelo Gomes assume que artista é um homem de seu tempo, e que reage. “Quando se tem a visibilidade na mídia, como é o caso do Festival de Berlim, é o caso de protesto, enquanto cidadão. Houve o desgosto de um conjunto de cineastas a favor da preservação das políticas culturais da Ancine. Entre espectadores, tivemos mais de 150 milhões de brasileiros interessados em produtos que dependeram de 15 anos de atuação da Ancine. É uma política cultural que deve ser mantida, se opondo ao esfacelamento de outros pontos que temos assistido, em níveis sociais, educativos e culturais”, comenta o diretor.

Imerso em projetos urdidos por sete, oito anos de trabalhos, o diretor conta que, para Joaquim, dedicou muito tempo para garantir o apelo musical do grupo experimental O Grivo, na trilha sonora. “Queria algo sensorial, com vento, água e terra invadindo o desenho de som, feito ainda com materiais arcaicos do século 18”, explica. Tudo para reforçar a aventura da busca por ouro, na trama que desemboca em conscientização para Joaquim José da Silva Xavier. “Na ação dele, conviveu com pessoas de classe mais baixa, socialmente, vivenciando sofrimentos de índios, africanos e mestiços. Junto com os desclassificados do ouro, ele somatizou frustrações profissionais e pessoais”, arremata o diretor.

R$ 2,5 milhões
Orçamento do longa Joaquim

 

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