José Luís Peixoto reconstitui as aparições de Nossa Senhora de Fátima

No livro 'Em teu ventre', a narrativa esbarra na realidade e na ficção

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postado em 11/06/2017 07:31

Patricia Pinto/Divulgação

Várias questões da identidade portuguesa repousam nos fenômenos que mobilizaram a cidade de Fátima em 1917, quando Nossa Senhora teria aparecido para três pastorinhos e conversado com eles. Em busca dessas questões, o escritor José Luís Peixoto se debruçou sobre a história para escrevê-la de forma romanceada. Em teu ventre conta como Jacinta, Lúcia e Francisco, os pastorinhos, lidaram com as aparições, mas também fala sobre a maternidade e sobre o isolamento de um país em um continente em guerra.


Não chega a ser ficção por completo —  e Peixoto avisa, no subtítulo, ser esta uma reconstrução literária das aparições —, mas também não é um livro histórico. As crianças são o centro da narrativa e nela o autor imagina como seria o cotidiano dos três pequenos, o dia a dia dentro de casa e na vida social da aldeia quando relataram o encontro com a figura sagrada. A maternidade também está em primeiro plano na figura da mãe do Cristo, mas também na mãe de Lúcia, que viu o cotidiano da filha e dos sobrinhos Francisco e Jacinta mergulhar num cenário difícil de controlar. As crianças se tornaram o centro das atenções e protegê-las era necessário.

Peixoto alterna a narrativa que segue os meninos com uma narradora que é voz da própria Nossa Senhora. “O culto à Maria é, em grande medida, o culto da mãe — a grande Mãe. Por esse motivo, pareceu-me ser um pretexto muito adequado para estabelecer uma reflexão sobre a mãe. Apesar de os acontecimentos de Fátima serem um tema que causa muito impacto e de que se fala muito, creio que a maternidade é realmente o tema central deste livro”, explica o autor. Os versos ditos pela santa são inspirados na forma e no tom bíblico e entraram para a narrativa com a intenção de reproduzir a solenidade contida no texto sagrado. Peixoto quis, com isso, falar de “assuntos e ideias perfeitos, absolutos, de um modo que só a divindade pode fazer”.

Retrato de Portugal


Mas é também um livro sobre um Portugal muito específico e que costuma ser quase um personagem dos livros de Peixoto. O vilarejo no qual a mãe do Cristo teria conversado com as crianças era uma pequena aldeia rural da região do Vale do Tejo, pouco conhecida e um tanto isolada. A rotina das crianças se resumia a cuidar dos bichos e ajudar nos afazeres domésticos. As brincadeiras vinham entremeadas com as tarefas, mas as aparições mudaram o cotidiano da aldeia. A maneira como Peixoto narra essas mudanças coloca em evidência a vida rural, um tema caro ao qual ele há muito se dedica. “É um momento muito marcante da história portuguesa do século 20, com vários desenvolvimentos que tocam o presente”, aponta.

Entre as várias dimensões da identidade portuguesa tratadas em Em teu ventre, a que mais salta aos olhos do leitor é a religiosidade e sua presença na sociedade de Portugal, assim como a forma como é vivida. A descrença diante das histórias narradas pelas crianças, a maneira como as famílias procuravam não conversar sobre o assunto, a fragilidade da mãe de Lúcia, sempre preocupada com o teor de verdade na fala da filha e as possíveis consequências bíblicas caso estivesse mentindo, denotam a importância da fé no meio em que as aparições ocorreram. “As visões das crianças foram questionadas por muitos desde o início. A veracidade dessas visões é o que está em causa neste culto. Ao mesmo tempo, há outras dimensões do tema verdade/mentira que são muito interessantes, como é o caso da verdade/mentira em literatura. Esse questionamento também acaba por estar presente porque, numa certa medida, o autor e o narrador também se interrogam sobre si próprios. O livro também tem uma dimensão metaliterária significativa”, explica Peixoto.

O autor também expõe aspectos políticos contemporâneos, como o confronto entre a laicidade e a religião. Em 1917, a República contava com apenas sete anos de vida e a separação entre Estado e Igreja ainda estava no campo do aprendizado. “E, por outro lado, há todo o tratamento político que a questão de Fátima recebeu desde então que, apesar de não estar referida no livro, é muito presente para quem conhece a história de Portugal nos últimos 100 anos, nomeadamente nos anos da ditadura”, diz Peixoto. “Fátima é vista por muitos como representativa de um outro tempo, dos anos da ditadura, no qual o regime se associou bastante à Igreja Católica e a este culto. Nesse sentido, Fátima também é um exemplo de um` certo Portugal´, isolado — orgulhosamente` só´, como dizia Salazar. E esse aspecto é visto de forma bastante negativa por muitos.” Em teu ventre é um livro para ser lido com duas perspectivas: a histórica e a literária. Nessa combinação, o limite entre verdade e mentira faz parte da linguagem e da narrativa.

Entrevista // José Luís Peixoto


Gostaria de saber qual a sua relação afetiva com as aparições. Como encara as aparições?

A minha relação pessoal com a história de Fátima passa sobretudo por ver os outros e por haver pessoas nas minhas relações próximas que têm essa fé. Ao mesmo tempo, toca-me muito que Fátima seja uma devoção para a qual as pessoas se viram muito em momentos de grande dificuldade. Ainda assim, nunca respondo em entrevista a perguntas acerca das minhas crenças. A razão para não o fazer está ligada ao fato de, em Portugal, essa ser uma pergunta que separa águas. Ou seja, consoante o autor acredite ou não, há a ideia que já se sabe que tipo de livro escreveu. Não quero que os leitores deste livro se iniciem a descobri-lo já com esse preconceito.
 
Nos anos 1980, Fátima ocupava um lugar no imaginário. Em tempos de Guerra Fria, os segredos ainda não revelados e que teriam sido confiados aos pastorinhos assombravam os de fé católica. Como você viveu isso na infância? Isso era muito presente no cotidiano? Afinal, Portugal está entre os países mais católicos da Europa.
É verdade. A mensagem de Fátima chegava com a ideia de encerrar verdades muito profundas acerca da História e do mundo. Os próprios segredos que, apenas foram revelados a pouco e pouco, contribuíam para esse sentimento. Creio que, em criança, essa dimensão ajudava a que se aprofundasse um certo fascínio por esse lado profético. É possível que essa solenidade — ao mesmo tempo assustadora e atraente aos olhos de uma criança — tivesse contribuído para que, tantos anos depois, chegasse à escrita deste livro.
 
Que lugar tem a história das aparições na literatura portuguesa? Ela chegou a povoar a ficção portuguesa?
Existem alguns livros que tratam do assunto. Destaco O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis, que foi publicado pela primeira vez em 1974 — após a abertura política — e que tem uma visão muito crítica dos acontecimentos. Ainda assim, não creio que este tema alguma vez tenha chegado a povoar a ficção portuguesa. A grande maioria dos livros são de pura apologia confessional, sem literatura.
 
A aparição em si nunca acontece no livro, há apenas menções a ela. Por quê?
Porque se fizesse uma descrição das aparições estaria necessariamente a tomar um partido religioso nessa questão do livro. Neste caso, uma das intenções fundamentais do livro era falar deste tema de uma forma que permitisse o encontro entre os dois lados deste tema: os crentes e os não-crentes. Nesse sentido, este livro pretende uma certa reconciliação, um apaziguamento. Creio que, implicitamente, o livro defende que todos podemos aprender uns com os outros, que não devemos excluir à partida a sensibilidade de ninguém.
 
Pode falar um pouco dos versos que acompanham a narrativa?
Decidi fazê-lo porque a forma do que se diz tem uma enorme importância no que respeita ao significado daquilo que se diz. Se não tivesse escolhido essas formas, o texto seria naturalmente diferente. Este é um livro que usa várias formas e que tenta articulá-las de um modo coerente, retirando de cada uma aquilo que melhor possa contribuir para a criação de um objeto literário coerente e tão expressivo quanto possível para quem tiver a generosidade de se entregar a lê-lo, a decifrá-lo.  

Companhia das Letras/Divulgação
Em teu ventre
Uma reconstrução literária das aparições de Nossa Senhora de Fátima. De José Luís Peixoto. Companhia das Letras, 156 páginas. R$ 32,12.
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