Inspirado em Shakespeare, projeto responde cartas de apaixonados

Projeto funciona em Verona, terra natal da heroína de Shakespeare

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postado em 12/06/2017 07:30

Arquivo Pessoal/Andreia Caetano
 

 

“Cara Julieta, às vezes acho que não nasci para o amor.” ; “Adorável Julieta, o motivo pelo qual estou te escrevendo é um certo moreno de olhos amendoados.”; “Querida Julieta, parece que sou sempre a amiga, nunca a namorada.”



A história de Julieta, que se tornou símbolo universal do amor, segue fascinando milhares de pessoas por todo o mundo desde que foi publicada pela primeira vez, em 1597. Romeu e Julieta, obra do dramaturgo inglês William Shakespeare, se descortina na cidade italiana de Verona e fala dos sentimentos entre dois jovens nascidos em famílias rivais. Mas, se apesar dos quatro séculos em circulação, ainda houver quem desconheça o final da narrativa, segue alerta para spoiler: o casal morre no final da trama.

O corpo da jovem Julieta Capuleto teria ganhado um túmulo no monastério situado nos arredores de Verona. Como à época da tragédia, ocorrida no século 13, havia somente um monastério fora dos muros da cidade, San Francesco al Corso se tornou, oficialmente, o local de sepultamento da nossa heroína trágica. Ninguém sabe precisar a partir de quando, mas um dia as cartas de amor, geralmente expondo decepções e profundas dores da alma, começaram a chegar e a preencher os vãos das paredes de pedra mais próximas ao jazizo da moça. Ettore Solimani, encarregado da manutenção do local, se comoveu com os relatos e resolveu respondê-las. Era 1937 e, mesmo sem saber, ele acabava de se tornar o primeiro Secretário de Julieta e seu gesto, a inaugurar uma tradição mantida até hoje pela cidade.

Por ano, O Club di Giulietta recebe aproximadamente 10 mil cartas e e-mails nos mais diversos idiomas. Todos são respondidos pelas secretárias da jovem. Elas são avós, professoras, estudantes, economistas, empresárias, doutoras nas mais diversas áreas do conhecimento, que, por meio de trabalho voluntário, oferecem um pouco de consolo àquelas que vivem momentos de aflição. Da Índia, uma pede forças para suportar a dor causada pelas barreiras familiares ao seu amor por um rapaz de classe social diferente. Da vizinha Inglaterra, chega um álbum com fotos que registram uma longa história de amor, infelizmente findada.

As correspondências entregues pelos correios ganham respostas {a mão, redigidas no elegante papel timbrado do clube.  Os gastos com postagem e artigos de papelaria são cobertos pela prefeitura. Mas o investimento vale a pena. O clube já foi tema de filme (Cartas para Julieta, de 2010) e de livro. A novidade é que, nos últimos anos, houve aumento na quantidade de mensagens encaminhadas por brasileiras. “O Brasil está, atualmente, entre os cinco países que registraram crescimento no número de cartas enviadas”, conta Elena Marchi, responsável pelo clube.

Em português

A demanda foi aliviada pela professora paulista Andréia Caetano. É ela quem responde, em nome de Julieta, as cartas em língua portuguesa.  Andréia conta que chegou ao clube em 2015 e encontrou uma caixa gigantesca com cartas do Brasil. “Acredito que havia, pelo menos, umas 300. Eu respondi metade delas lá em Verona e trouxe o restante para terminar aqui”, diz e ressalta que o trabalho é bastante sério e diretamente supervisionado pela equipe da Itália. “Tenho que fazer um resumo em italiano do conteúdo da carta, anexá-lo ao original em língua portuguesa e acrescentar uma cópia da resposta enviada. Esse material todo é guardado nos arquivos do clube”, diz.

Segundo Andréia, foram necessários seis meses para colocar em dia a correspondência de Julieta com as brasileiras. “Hoje, tenho uma média de 15 cartas por mês para responder. Mas tem época que aumenta bastante.”

Uma das cartas que mais chamou a atenção de Andréia foi enviada por um padre de Minas Gerais. “Ele falou do amor pelo Espírito Santo e fez uma analogia da devoção {a Julieta com a fé religiosa. Achei muito bonito”, conta a secretária.  No início, Andréia buscou esse tipo de voluntariado como forma de aprender e exercitar a língua italiana. “Hoje, não é mais pelo idioma. Sinto-me recompensada pela oportunidade de levar uma palavra de carinho a alguém que precisa atravessar um momento difícil”, diz. Não raramente, as destinatárias das respostas entram novamente em contato com o clube para agradecer e contar como foi importante para elas receber um retorno.

Nos contatos, as secretárias valorizam os sentimentos das apaixonadas, mas ressaltam a importância de amar a si próprio em primeiro lugar para, somente depois, dividir esse amor com alguém. As russas Anastassia e Taliya reservaram um dia das férias na Itália para ajudar Julieta a consolar as compatriotas. “Todo mundo já sofreu por amor em algum momento da vida. É importante para essas pessoas saber que elas não estão sozinhas. Tem alguém que se importa e que está aqui para ouvi-las”, afirmam.

A Rússia, assim como o Brasil, está entre os países que vêm, gradativamente, aumentando a procura pelo ombro amigo de Julieta. Os arquivos do clube guardam, hoje, aproximadamente 100 mil cartas vindas das mais diversas partes do globo terrestre. Essa coleção forma, provavelmente, o maior catálogo de sentimentos do mundo e serve como prova irrefutável de que os habitantes desse planeta estão unidos por um traço comum —  a capacidade de amar.

» A história da história
A reelaboração ou fusão de obras escritas por um ou mais autores era prática comum na Europa, principalmente na Itália, durante o período que vai da publicação de Decameron (1353) até o final do século 16. Romeu e Julieta é um exemplo dessa metamorfose literária.

1476
Masuccio Salernitano tem sua obra Il Novellino publicada postumamente. O livro é composto por cinquenta novelas, sendo que uma delas conta a trágica relação amorosa de Mariotto e Ganozza, dois jovens de Siena.

1530
Luigi da Porto retoma a obra de Salernitano, acrescenta à história, transfere a ambientação para Verona
e publica Novella ritrovata.

1554
Matteo Bandello, inspirado por da Porto, escreve sua própria versão do romance, intitulada Giulietta e Romeo, a qual foi traduzida para o francês por Pierre Boaistuau.

1562
Arthur Books traduz para o inglês o texto produzido por Boaistuau, que recebe o título de “A trágica história de Romeu e Julieta”

1591 a 1595

William Shakespeare introduz novos elementos ao material de Brooks e cria o “Romeu e Julieta” da forma como é conhecido hoje em todo o mundo. A primeira publicação da versão shakespeariana data de 1597.

» Club de Giulietta

Endereço: Corso Santa Anastasia,
2937121, Verona/Itália
Email: info@julietclub.com
Site:  www.julietclub.com

Eventos anuais
Prêmios: “Dear Juliet” – concedido no mês fevereiro à carta de amor mais comovente.
“Writing for love” – concedido no mês de outubro à melhor história de amor publicada na forma de livro, na Itália.
Festival: “Juliet’s Birthday” – ocorre em setembro e comemora o aniversário de Julieta na principal praça da cidade.

 

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