Saiba quais são os destaques desta terça na programação do festival Varilux

A relação entre um pai e seu bebê é tema de 'Vertical', enquanto a sutileza minimalista dá o tom de 'Perdidos em Paris'

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postado em 13/06/2017 07:30 / atualizado em 12/06/2017 18:55

Rio de Janeiro – Quando Damien Bonnard decidiu fazer os testes para o elenco de Na vertical, ficou à vontade com a sinopse que dizia apenas: "É a história de amor entre um homem e uma pastora". É uma definição simplória de um roteiro muito mais delicado. Em cartaz nesta terça-feira (13/6) no Festival Varilux 2017, o longa de Alain Guiraudie narra, na verdade, a relação de um pai e seu bebê, ambos abandonados pela mãe, mas também de um homem em busca de um destino. É o primeiro papel principal de Bonnard, indicado ao César de Melhor Ator Revelação e ganhador do Prêmio Lumière como revelação pelo papel de Leo.



O título do filme é uma metáfora para o personagem, uma maneira de indicar a necessidade de não sucumbir, embora a queda esteja sempre a dois passos de Leo, um autor de roteiros que não carrega absolutamente nada do clichê geralmente induzido pela ideia dessa profissão. Na verdade, Leo tenta escrever um roteiro, mas nunca passa da primeira página. Sem domicílio fixo, ele vive aqui e ali, na casa de amigos, campings e hotéis. Isso explica a pequena temporada na casa de uma pastora, no interior da França, onde se refugia eventualmente e com a qual mantém uma relação frágil.

Um dia, a moça, mãe de dois, engravida do terceiro. Leo não é pai das outras crianças, embora mantenha com elas comportamento afetuoso, um prenúncio de como construirá a relação com o bebê. É, aliás, disso que Guiraudie parece querer tratar no roteiro que, Bonnard descobriu quando já estava envolvido, é cheio de sutilezas. Assim como um bebê precisa da mãe, ele também precisa do pai, e é com essa deixa que a pastora resolve abandonar os dois. Leo passa, então, a descobrir o sentimento de paternidade da maneira mais silenciosa possível. "Ele é um ser bem-intencionado, mas é como se estivesse em busca de algo que não conhece", explica o ator, em entrevista durante a promoção do festival, no Rio. "Para mim, esse filme é um conto moderno, mas também uma epopeia, uma busca e uma deriva ao mesmo tempo, uma mistura de tudo isso."

Como Leo se aventura numa busca e esse tipo de trajetória pode ser cheia de surpresas, Bonnard preferiu não fazer nenhum trabalho de construção do personagem. Apenas decorou as falas do roteiro e deixou o improviso tomar a dianteira. "É como se ele tivesse dito as falas pela primeira vez, porque ele funciona um pouco assim, na frente de alguém e diante do olhar do outro, olhando no olho do outro, ele reage", explica o ator.

Cenas de nudez
A estratégia combina com a espontaneidade do personagem e a crueza da câmera. Há cenas de nudez e de sexo filmadas sem erotismo algum, com uma naturalidade que coloca o espectador dentro do ambiente sem que isso implique em qualquer voyeurismo. "É muito próximo do real. Eu adoro isso. É tudo muito próximo do que vivemos na vida e muito próximo do olho humano. Não é 3D, mas é como se fosse", avisa Bonnard, que gosta especialmente da sequência do parto, filmada de frente, com close na expulsão da cabeça do bebê.

Extravagância e afeto

Pandora Filmes/Divulgação
 

 

Perdidos em Paris é um pouco autobiográfico. Um pouco, porque os elementos que os diretores e atores Dominique Abel e Fiona Gordon inseriram no roteiro dão uma dimensão surreal ao encontro entre uma canadense e um mendigo nas ruas de Paris. Mas o casal adora avisar ao público, em entrevistas ou sessões de apresentação do filme, que, sim, trata-se um pouco do encontro entre os dois.


Em cartaz nesta terça (13/6) no Festival Varilux, o longa do belga e da canadense é cheio de sutilezas e do que eles chamam de minimalismos, uma marca frequente em tudo que produzem e que, geralmente, sai de sessões de improviso diante de uma pequena câmera digital no estúdio dos fundos da casa onde moram, em Bruxelas. "Gostamos de guardar essa simplicidade do teatro que obriga à poesia porque não temos avesso ao real", avisa Abel. "O que é bonito no teatro é esse minimalismo: o público utiliza o imaginário para preencher o vazio e aí há um belo encontro, então quisemos guardar esse aspecto artesanal no cinema."

Na tela, Fiona deixa o Canadá para ir em busca da tia, Martha, há muito radicada em Paris e, aparentemente, com problemas de saúde em decorrência da velhice. Martha representa tudo que Fiona sempre quis fazer, mas nunca conseguiu: deixar o norte gelado e um insosso trabalho de bibliotecária e se aventurar na cidade mais romântica do planeta. A ingenuidade tocante da personagem a conduz a situações absurdas e há um ar teatral em toda a encenação da dupla. Fiona perde a mochila, o passaporte, o dinheiro e não encontra lá muita receptividade na dureza do trato entre os franceses, mas esbarra em Dominique, um mendigo acampado à margem do Sena, um sujeitinho simpático, porém esperto.

Fiona também encontra Martha, a tia, vivida por Emmanuelle Riva, ícone da Nouvelle Vague, o rosto que encantou o cinema em Hiroshima meu amor. Foi o último papel da atriz. Morta em janeiro último, ela não chegou a ver o filme montado, mas teve uma presença que mudou o roteiro. No início, a tia era figura apenas citada, não chegava a aparecer, mas Abel e Fiona aumentaram a dimensão da personagem quando Emmanuelle entrou para o elenco. As cenas do apartamento de Martha, inclusive, foram feitas no próprio apartamento da artista. “Ela era melhor do que o que nós escrevemos”, garante Abel. “O apartamento dela tem aquelas cores, os muros amarelos, um monte de livros. Ela escrevia à mão pequenas frases de filósofos nas paredes e escrevia poemas todos os dias. Ela tinha um lado insubmisso, não tinha filhos e toda a vida foi dedicada à arte, com muitos altos e baixos.”

A escolha de Paris teve uma motivação pessoal e afetiva. "Queríamos fazer uma história de pessoas perdidas em uma grande cidade. Queríamos algo de muito simples, porque era o primeiro longa que estávamos fazendo só nós dois", conta Fiona. "E queríamos reencontrar nossas raízes de clown. Paris, simbolicamente, quer dizer algo para nós, é um momento em que éramos inocentes, começávamos a carreira de ator, descobríamos o mundo um pouco." O casal se conheceu há 35 anos e, desde então, trabalha em dupla. São conhecidos e chamam a si mesmos de Domifiona. O diretor Bruno Romy assina, com os dois, a direção dos três longas anteriores a Perdidos em Paris — O iceberg, Rumba e A fada. A estética extravagante, o gestual de clown e o humor perpassam todas as produções da dupla. Abel e Fiona conversaram com o Correio durante o lançamento do festival, no Rio, e falaram sobre a arquitetura de seus filmes e personagens.

A repórter viajou a convite da organização do Festival Varilux

 

 

SERVIÇO

Festival Varilux de Cinema Francês 2017
Até 21 de junho, no Cine Cultura Liberty Mall, Cinemark Pier 21 e Espaço Itaú de Cinema CasaPark

TRÊS PERGUNTAS//Dominique Abel e Fiona Gordon


Como vocês trabalham a construção do personagem?
Dominique Abel – Em todos os filmes, queremos sempre estar próximos de nós, de coisas que, às vezes, as pessoas tentam esconder, as besteiras que saem espontaneamente. Cultivamos isso e queremos oferecer isso ao público, é um pouco uma espécie de autoironia. É a natureza humana. E damos pouquíssimas orientações (aos atores). Por exemplo, para Emmanuelle nós dissemos a ela que gostaríamos que atuasse como um gato. E ela era muito instintiva e entendeu rapidamente. Falamos não um gato de apartamento, mas um gato de rua. E isso foi ótimo.

A ingenuidade da sua personagem tem a ver, de certa forma, com a personalidade dos canadenses?
Fiona Gordon – Sim, um pouco. Os canadenses pensam que eles são muito entediantes, sobretudo porque têm os Estados Unidos ao lado e os americanos são mais vistosos. Esse lado “nada, nós somos nada”, esse lado humilde é, realmente, um traço de caráter. Os canadenses pensam que eles não têm um traço de caráter e, na verdade, esse é o caráter deles. Mas a ingenuidade da personagem é maior porque queríamos contar a história de uma transmissão de alguém que viveu sua vida até o fim e que é possível retomar isso e transmitir para alguém. Minha personagem é muito fechada, nunca viveu nada.

Depois de tanto tempo trabalhando juntos, há ainda algum mistério ao construir os personagens?
Fiona – Tentamos sempre começar com algo fresco. Mas dá trabalho, porque, de fato, nos conhecemos bem e tentamos nos dar um retorno que nos ajude a ver as coisas de forma diferente. O fato de trabalhar com outros atores nos ajuda.

Abel – Há anos uma pessoa nos dizia” por que vocês não dançam tango?” e nós dizíamos “nao sabemos”. Queríamos evitar aprender a dançar, porque, em todos os nossos filmes, nós dançamos e o que dá o sabor é o improviso, essa coisa de pessoas que não sabem muito o que estão fazendo. Queríamos preservar isso. Mas resolvemos fazer um curso de tango e descobrimos um universo que nos agrada muito, que é realmente rico em experimentação física.

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