O novo ciclo do terror: filmes do gênero ganham maior complexidade

Presença em Cannes e entrada no circuito comercial brasileiro apontam para uma maior complexidade dos filmes do gênero

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postado em 14/06/2017 06:04

Reprodução/Internet

Quando o filme Mal nosso foi selecionado como um dos exibidos na categoria Blood Window no Festival de Cannes 2017, Tato Siansi, um dos produtores do longa-metragem, foi tomado de um sentimento que poucos experimentaram nas mesmas circunstâncias: “Foi inesperado. Um filme independente, sem grandes verbas, em língua portuguesa? Foi uma surpresa incrível, depois de muita dedicação”, lembra.

 

 

Sendo uma importante porta de reverberação das produções fantásticas, o Blood Window apresentou ao mundo um novo panorama dos filmes de terror brasileiros: um gênero de público cativo, com fortes vertentes psicológicas, e que apresenta mais do que intestinos espalhados no chão.


Siansi enfatiza que o Brasil passou por um período cinematográfico que consagrou as comédias e, em consequência, condicionou outros gêneros a uma posição de coadjuvante, mas aposta que esse panorama está prestes a mudar. “Acho que o país está caindo na real de que as comédias podem ser limitadas, que não serão o gênero mais visto para sempre. O público está disposto a se expandir em outros gêneros, que podem se consolidar no circuito comercial”, argumenta.

Encarar a bilheteria

 

Se o circuito comercial do terror entrar em pauta, pode chamar o pessoal do filme O rastro, porque eles têm muito a dizer. Representante do gênero conquistou significativa distribuição nas salas de cinema brasileiras, conseguindo ficar à frente de outras apostas de bilheteria —  O rastro alcançou uma média de público de 43. 396.  Já o longa-metragem Real - O plano por trás da história conseguiu 27. 153. Ambos os números são referentes a seus finais de semana de estreia, respectivamente, 19 a 21 e 26 a 28 de maio, de acordo com o portal Adoro Cinema.

“A gente começou o filme há oito anos. Foi um processo longo para tentar fazer uma produção de terror brasileiro, que levasse em consideração o contexto social e político, que aborda  os medos enraizados em nossa cultura, e não só uma coisa de sangue”. A frase de um dos roteiristas e produtores do filme O rastro, André Pereira, aponta o quanto o gênero está conseguindo atrair o público por meio de um conteúdo mais complexo e denso, e não só apresentando mortes.

Rafael Lobo, cineasta e mestre em cinema pela Universidade de Brasília, lembra que a importância de chegar ao circuito comercial é absoluta para fazer o gênero ser mais visto, e, em consequência, obter mais sucesso. “O rastro tirou essa segmentação do terror preso e engessado aos festivais, principalmente, internacionais, e levá-los ao contexto do mainstream. Esse filme não é uma fuga à regra, mas apenas demonstra um sintoma do que está por vir”.

O segredo é fazer


Se existe um segredo que pode ser aplicado a essa nova fase do terror brasileiro é a sua complexidade. Mais do que só tratar os filmes como um grande banho de sangue com bruxas e decapitações, Lobo adverte: “O século 21 consagrou o terror como um gênero mais visto. As produções estão fugindo do padrão do gênero de cenas de casas mal-assombradas e apresentando novas perspectivas de contar uma história”.

Já segundo o cineasta e produtor Marcus Ligocki, essa nova safra do gênero de terror não está apenas em previsões, mas se tornando realidade. “Lançamentos recentes como Iluminados, O lobo atrás da porta, O caseiro e O rastro demonstram, na minha opinião, um aumento da intimidade de toda a cadeia produtiva com o gênero, sinalizando um futuro promissor para o filme de terror brasileiro”, aponta Ligocki.

Atuando como sócio de uma produtora que trabalha exclusivamente com gêneros fantásticos (a Infravermelho), responsável por levar um longa-metragem de terror à TV a cabo (Percepção do medo) e se preparando para levar o filme Desalmados aos cinemas em 2018, o diretor brasiliense Armando Fonseca reforça que a história de cada terror não está sendo baseado somente em sangue, e aposta em um futuro menos conservador e de maior sucesso ao gênero. “Vale muito mais o contexto que você dá ao efeito, do que só o efeito em si. Só vai funcionar se você tiver um ângulo, uma boa história”, explica Fonseca, que ainda completa: “Existem mais pessoas querendo assistir [terror], e isso não é só um entusiasta falando, é a constatação de um nicho com público, que pode ser mais explorado”, conclui.


“O século 21 consagrou o terror como um gênero mais visto. As produções estão fugindo do padrão do gênero de cenas de casas mal-assombradas e apresentando novas perspectivas de contar uma história"
Rafael Lobo, cineasta e pesquisador de cinema

 

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