Ana Miranda evoca a atualidade de Xica da Silva

A personagem encarna o sonho de emancipação pessoal

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postado em 17/06/2017 07:00

Mauricio Pokemon/Divulgação

  

Uma grande personagem brasileira sob o olhar de uma grande escritora brasileira. Foi desse encontro que nasceu Xica da Silva – A Cinderela Negra (Ed. Record), de Ana Miranda, a mesma autora de A última quimera, Boca do inferno e Desmundo, entre outros. É uma biografia que não despreza a dimensão mitológica da personagem revelada. Ana é atração da Feira do Livro de Brasília, no domingo, às 19h, no Pátio Brasil. Nesta entrevista, ela fala sobre o fascínio e as múltiplas facetas de Xica da Silva.


O que a fascinou na figura de Xica da Silva? O que ela inspira?
A Xica tem um lado misterioso, inquietante. Foi uma pessoa incompreendida por muitos, e por muito tempo, porque é de uma imensa complexidade. Parece ter poderes mágicos, evocando forças profundas da mulher. E o que mais me fascina nela é a conquista da liberdade, ela simboliza toda a nossa luta pela liberdade, de escrava à senhora, sobretudo senhora de si mesma. Ela inspira um dos arquétipos mais recorrentes, que é o da Cinderela, sair das cinzas do fogão, da Gata Borralheira, sair do borralho, acender as brasas e ser uma luminosa e majestosa figura.

Qual a dimensão simbólica de um personagem da estatura de Xica da Silva para uma história tão permeada de opressão, racismo e preconceito contra as mulheres quanto é a história brasileira?
A força da sua história a torna a primeira mulher brasileira a se destacar historicamente, exceto rainhas. Ela é a mais antiga figura feminina que se ergueu das sombras do lar, e sua história questiona o machismo, a sexualidade, o empoderamento, para usar uma palavra que está sendo muito usada. Ela é um símbolo de assumir poderes que a sociedade não oferece às mulheres, ainda menos às pobres, negras, e mesmo feias, dizem que ela não era bonita, pelo menos não a ponto de atrair pela beleza.

Nos anos 1970, foi enfatizada a dimensão de liberdade sexual de Xica da Silva. Que outras facetas são relevantes na história de Chica da Silva?
A Xica foi sendo transformada pelas mentalidades de cada época, e como os anos 1970 foram muito marcados pela desrepressão e liberdade de costumes, a sua imagem serviu a esse propósito. É impressionante como cada época, e dentro de cada época cada corrente ou liberal ou conservadora vai marcando a Xica. As facetas mais relevantes são contraditórias, como a de libertadora e escravizadora, de crueldade e bondade, de vingança e perdão, de generosidade e ambição, de sentimento e frieza. Hoje ela está passando pela fase de se tornar uma figura histórica, além das lendas que carrega.

Por que, apesar de escrever uma biografia, você não despreza os aspectos míticos na figura de Xica da Silva?

Acho que qualquer biógrafo, seja um historiador, seja um jornalista, seja um romancista, jamais conseguirá separar a história da percepção social da personagem da sua história cotidiana. Mesmo a brilhante biografia acadêmica escrita pela Júnia Ferreira Furtado não ignorou esses aspectos, e começa contando como os ossos da Xica faziam ruídos assustadores e como as babás usavam o medo da negra morta para fazer as crianças dormirem. A Xica é, além dela mesma, tudo o que se viu nela, pelos tempos adentro.

Depois de tantas lutas pela emancipação das mulheres negras, Xica ainda é uma fonte de inspiração no terceiro milênio?
Ela é mais do que um símbolo para a emancipação de mulheres, ela teve o aspecto do embranquecimento, e o fato de ter tido um vasto plantel de escravos, quando enriqueceu, e isso torna um pouco confusa a sua compreensão como modelo feminista ou antirracista. Ela simboliza algo mais amplo, que toca homens e mulheres, pobres e ricos, negros e não negros, que é a emancipação pessoal, a conquista de algum sonho. E ela sempre será muito fascinante, por tocar em aspectos que nos tocam a todos.

Como você vê o lugar da literatura no mundo virtual e pós-humano? Você vislumbra sinais alentadores nos escritos das novas gerações? Ou nós estamos condenados à banalização do humano?

Tenho me esforçado para acompanhar as novas safras de escritores e livros, está uma produção vasta, não dou conta de tudo. Mas percebo que a literatura está viva, e ainda seduz, muita gente quer escrever e publicar, ser reconhecida como ficcionista, a fantasia literária ainda é um sonho vivo, uma necessidade humana. Claro, os livros que fazem grande sucesso são cada vez menos complexos. Mas sempre aparece alguma coisa profunda que nos seduz, encanta, emociona, como o aparecimento de Valter Hugo Mãe, por exemplo, o seu sucess d’estime é um consolo. Embora a maioria dos escritores esteja trabalhando com uma expressão bastante coloquial, ainda há gente fazendo arte com as palavras, e isso vai manter a literatura viva, ela nunca vai ser banalmente uma fonte de histórias para minisséries ou filmes, vai ser a arte da palavra em si. O movimento literário atual vive um momento de individualidades cada vez mais radicais, e da expressão das diferenças. Isso vai contra a vulgaridade que é intrínseca aos meios de massa. Uma amiga minha vai dançar na praça com trezentas mulheres uma dança da moda, mas quando chega em casa ela pode se expressar como indivíduo, no “livro do rosto”. E se a grande rede de comunicação livre por um lado dá voz aos que não sabem o que dizem e não têm o que dizer, conforme o Umberto Eco, por outro lado proporciona uma busca de expressão pessoal. Mas eu não sei responder sobre o futuro. O mundo está mudando demais, e ninguém sabe no que vai dar.

Editora Record/Reprodução

Xica da Silva – A Cinderela Negra
De Ana Miranda/515 páginas
Palestra da autora na Feira do Livro de Brasília, amanhã, às 19h, 
no Pátio Brasil.

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