Rapper Sadek fala sobre o abismo entre gerações na França

De origem russa e tunisiana, Sadek contracena com Gérard Depardieu em Tour de France

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postado em 18/06/2017 07:00 / atualizado em 16/06/2017 17:26

Bonfilm/Divulgação


Rio de Janeiro — Nem tudo é preto no branco. Quando se trata de posições políticas na Europa de hoje, a complexidade precisa ser levada em conta e há nuances capazes de abalar certezas extremas. Tour de France, em cartaz hoje pelo Festival Varilux 2017, é um pouco sobre isso. Por causa da narrativa que leva em conta a complexidade, o rapper Sadek, 26 anos, topou entrar para o elenco do filme e contracenar com Gérard Depardieu. Tour de France é um filme político que fala sobre a França de hoje, sobre o abismo entre duas gerações, sobre racismo e radicalismo e, acima de tudo, sobre se sentir ou não cidadão de um país no qual a origem árabe pode significar a diferença entre ser ou não integrado à sociedade.

No longa de Rachid Djaïdani, Sadek vive Far’Hook, um rapper conhecido nas batalhas de rua da periferia parisiense e prestes a abrir um concerto para outro rapper, vivido por Yasiin Bey, ex-Mods Def. Depois de um desentendimento com outro rapper, Far’Hook acaba jurado de morte e escapa de um atentado. Seu produtor, de origem francesa e convertido ao islã, manda o cantor passar um tempo afastado até a realização do concerto, encarado como a grande oportunidade de projetar o nome do rapper.

É o pai do produtor, Serge, vivido por Gérard Depardieu, o encarregado de tirar Far’Hook temporariamente das ruas de Paris. Para isso, os dois vão empreender uma viagem pelos portos da França em busca de paisagens pintadas por Joseph Vernet, artista do século 18 especialista em marinas, uma obsessão de Serge. No caminho, o embate entre uma França radical e de extrema direita, e outra, formada pelos descendentes de imigrantes árabes que nunca se sentiram realmente inseridos, serve de pano de fundo para o encontro dos dois personagens.

Imigração
Filho de um pai de origem tunisiana e de mãe russa, Sadek cresceu em Neuilly-Plaissance, um “quartier”, como se diz sobre os bairros habitados por herdeiros da imigração. Não é dos mais complicados, mas é bem representativo dos cenários que fomentam o rap francês, especialmente as batalhas de rua. Foi uma delas, inclusive, que revelou Sadek e o levou a assinar contrato com a gravadora Hostile Records, da EMI, em 2012.

Como outros rappers, Sadek fala da realidade na periferia, do racismo, da falta de integração e das consequências sociais que colocam à margem os Rachids e Mohameds franceses. Mektoub — música sobre como um atropelamento, aos 11 anos, o fez passar um ano na cama e, para se distrair, começou a escrever — viralizou na internet. “O rap é uma lupa, ou um amplificador do que acontece na periferia. Não é um problema de fundo, é que nos apegamos a um problema de forma, como acontece com frequência na França, para dissimular os problemas de fundo, que são o trabalho para os jovens, o lugar deles na sociedade, o patriotismo. Por que não somos patriotas na França?”, questiona o artista.

Sadek nunca havia pensado em fazer cinema. “Uma das razões pelas quais aceitei fazê-lo é que a história é magnífica no sentido de que, na pressão, somos obrigados a conversar. Somos obrigados a estar juntos e é quando somos obrigados a estar juntos é que acabamos aceitando os defeitos e as qualidades do outro”, diz o ator.

Na tela, ele descobriu outra forma de comunicação com um público que raramente se sente representado. O longa é político, sim, mas cheio de ternura. Há momentos preciosos, mesmo que carregados de clichês, como a fala de Far´Hook para explicar que a França considera pessoas como ele franceses de segunda categoria. E uma sequência imperdível de Depardieu transformando a Marseillaise, o hino nacional da França, em rap. E ainda a ternura de perceber que havia mais semelhanças entre ele e Far´Hook do que diferenças. No Rio para a o lançamento do filme, previsto para 29 de junho, Sadek contou como foi a aproximação com o cinema e qual o papel do rap no diálogo entre gerações.

Rogério Resende/ Divulgação

Entrevista / Sadek


Tour de France é um filme sobre uma realidade que você conhece bem. Há semelhanças entre você e o personagem de Far´Hook? 
O personagem não sou eu, de forma alguma. Sou alguém que não acredita na política há muito tempo e aceitei fazer esse filme porque era uma oportunidade extraordinária de entrar em uma nova vocação, era uma sobrevida para mim e isso mudou minha vida. Não posso dizer às pessoas que o fiz por convicção. Para mim, com todo respeito, foi como um pequeno trabalho, algo que faço para ir em direção à outra coisa. E como não fui eu quem escreveu o roteiro, não tenho a pretensão de defendê-lo no nível das convicções. Rachid me dirigiu muito bem e, por isso, aceitei ser instrumento dele e não intervir com minhas convicções, que são bem distantes das do personagem.

Por que não acredita mais na política?
A política é feita por pessoas que querem ter poder. E quando pensamos apenas em ter poder, não pensamos em ajudar os outros. Quando queremos realmente ajudar os outros, temos tendência a nos colocar na retaguarda. Cada vez que sou confrontado com a política, fico com medo. Quando olho nos olhos dessas pessoas, sinto que mentem, sejam de direita ou de esquerda. As pessoas de direita não pensam muito no que dizem, mas sabem que o que dizem vende bem. Eu os vejo como rappers sem consciência, que fazem coisas para tornar as pessoas tristes e que, no final, vão usar o dinheiro para comprar rolex, ferraris e belos apartamentos. Para onde vai o dinheiro dos pobres? Robin Wood morreu na floresta de Sherwood há muito tempo.

Como as duas gerações representadas no filme podem dialogar sem a política?
Falando, simplesmente. Não tem outro jeito. O racismo, para mim, é uma forma da humanidade completamente ultrapassada. Eu aceito que cada povo tem suas diferenças, mas, evidentemente, não é regido por sua origem. Temos traços de personalidade de nossos povos, naturezas contra as quais não podemos lutar. Mesmo morfologicamente, somos feitos de maneira diferente. Por que querer absolutamente uniformizar tudo e dizer que tudo é igual? Não dá. Há desigualdades sérias e é preciso aceitar isso.

E  papel do rap o diálogo de gerações?
O rap que faço acompanha um certo frenesi do cotidiano. É rap para fazer esportes, para dançar, para dirigir. Para mim, ele tem a mesma função de um jogo de vídeo extremamente violento. Aí as pessoas dizem “ah, mas vai inspirar as pessoas a fazerem besteira”, e eu digo: ‘não! Temos todos uma parte de violência e a música violenta permite expiar isso’. Na verdade, para mim, o rap violento é como um cão que late, mas não morde. Ele late para que você olhe para ele.

E o cinema, nisso tudo, tem uma voz?
Acho que tem uma voz muito importante assim como todas as artes e a cultura porque é o que permite materializar a arte das pessoas e é importante cultivar as diferenças. Eu me recuso endossar o papel daquele que vai mudar o mundo, mas aceito endossar o papel daquele que pode inspirar aquele que vai salvar o mundo. Acho que nossa função, de artistas e de atores, é inspirar as pessoas a ir em direção à luz. 
 
Como foi trabalhar com Depardieu?
Foi completamente maravilhoso. Às vezes, tem pessoas do cinema que vêm me perguntar se ele não é muito difícil. Aí eu me afasto. Ele foi um amor comigo. Nunca foi agressivo, ruim, foi só amor. E ele é muito sensível. Ele sente até a sexualidade nas pessoas. É um gigante gentil. Foi uma felicidade filmar com ele. De certa forma, foi uma fonte de salvação para todas as minhas frustrações e eu entendi que preciso me aceitar.

Você cresceu na periferia. Acha possível que esses jovens venham a se sentir realmente franceses um dia?
Eu nunca, nunca me senti francês. Mas o que pode fazer as pessoas se sentirem francesas é uma mudança no programa de educação. Quando se trata de história, temos um grande problema. Nas verdadeiras periferias, temos turmas com 25 negros e 12 árabes. E por que falam com eles sobre Vercingetorix? Por que falam com eles sobre “nossos ancestrais” os gauleses e ocultam a colonização , a guerra da Argélia? Além disso, fazem os negros acreditarem que eles não têm história. Quer dizer, fica parecendo que, antes da colonização, eles não existiam. E aí eles crescem com uma frustração. É como uma criança que descobre que foi adotada. Entende o sentimento de rejeição? Não é a história dele. Eu acho que devíamos ter o culhão de dizer “a escravidão existiu, é assim e você tem que aceitar”. Mas com amor. O problema é que eles descobrem por eles mesmos, e aí é como uma traição. As pessoas que estão no poder hoje, na França, podem mudar isso, mas aceitam ser tributários de uma tradição que nem é deles, porque não são eles que estão na origem da colonização, não são eles que estão na origem da Segunda Guerra, mas eles seguem a história. 

Você diz que a pressão obriga as pessoas a se falarem. Haverá um momento, na sociedade francesa, em que esse diálogo vai realmente ocorrer?
Acho que nunca começará. Para mim, esse diálogo acontece em etapas diferentes na vida de cada um. Por exemplo: estou com uma delegação francesa de cinema da qual estou a anos-luz de distância. Não somos do mesmo mundo, da mesma origem social, da mesma cidade, mas quando estamos em um avião e somos obrigados a passar tempo juntos, nem eles nem nós vão ficar sem dialogar. 
 


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