Exposição reúne retratos do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980

A fotógrafa Leonore Mau registrou um país especial durante as três vezes que passou pelo local em companhia do poeta Hubert Fichte

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postado em 10/07/2017 08:55 / atualizado em 10/07/2017 09:18

Leonore Mau/Divulgacao
 
A fotógrafa alemã Leonore Mau esteve no Brasil três vezes entre as décadas de 1960 e 1980. Em todas, realizou centenas de registros, resultados de uma curiosidade que envolvia, além de estudo, a convivência com o meio e as pessoas fotografados. Guardada na Fundação S. Fischer, em Hamburgo, dona do espólio da fotógrafa, a coleção é uma preciosidade pouco conhecida no Brasil e que agora ganha visibilidade graças à iniciativa do Instituto Goethe de Porto Alegre.

A unidade gaúcha da instituição propôs que, além da homenagem programada para o poeta Hubert Fichte para este ano, se fizesse uma exposição com as imagens de Leonore, que era também a companheira do poeta. A ideia era lembrar duas efemérides: os 100 anos do nascimento da fotógrafa e as três décadas da morte de Fichte.

“O Goethe de Porto Alegre achou importante homenagear a companheira de Fichte, que fez muitos projetos com ele e que tinha uma relação com a literatura dele. Além disso, Leonore Mau, no Brasil, é pouco conhecida”, explica Alexandre Santos, historiador e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e responsável por fazer a seleção das imagens de A casa de Leonore Mau, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

A história do casal é cheia de peculiaridades. Proveniente de uma família abastada, Leonore era casada com um arquiteto de sucesso quando conheceu Fichte. Os dois se encantaram um com o outro e, sobretudo, encontraram uma afinidade poético-visual que resultou na produção de muitos projetos pensados e realizados em parceria. Eles começaram a viajar juntos em 1967, com uma incursão no Portugal da ditadura de Salazar, de onde trouxeram um fotofilme dedicado aos trabalhadores do Porto. As classes operárias, as minorias e os oprimidos sempre estiveram no topo da lista de interesses de Leonore e Fichte e, no Brasil, não foi diferente.

As fotos da exposição retratam tanto a proximidade da fotógrafa com seus fotografados quanto os aspectos da sociedade brasileira que realmente atraíam o casal. “Há sempre um envolvimento com as classes oprimidas, os trabalhadores, no caso do Brasil, os negros, sua cultura, suas formas de lazer, suas formas de religiosidade. É um trabalho fascinante que existe entre os dois. Fui descobrir sobre Leonore Mau através da literatura do Fichte”, conta Santos, curador da exposição.
 
“É um recorte que coincide com a ditadura militar, exatamente os anos que eles vieram aqui. Procurei trazer o grande cardápio de temas relacionados à vivência deles nessas cidades e imagens bastante tocantes para pensar o Brasil de hoje e esses retrocessos que fazem com que alguns grupos pensem na volta dos militares ou de um regime mais fechado.”
 
Leonore Mau/Divulgacao
 
Livro
Parte da experiência do casal no Brasil está em Explosão: um romance de etnologia, ainda inédito no país e com tradução de Marcelo Backes a caminho. No livro, assinado pelo poeta e publicado postumamente em 1993, o casal Irma e Jäckie, ela fotógrafa, ele escritor, funciona como alter ego de Leonore e Fichte. “É um romance de autoficção e vai ser lançado no Brasil no segundo semestre, que são alter egos dele e dela. O tempo todo, e isso que torna fascinante a relação dos dois, eles estão conversando sobre o que é ser um artista, o que é trabalhar num país exótico como o Brasil e o que é contribuir para uma visão etnográfica e etnológica dessas pessoas com a as quais eles se deparam. Fichte era completamente fascinado pela cultura negra e eles vão ter também uma relação de vida muito peculiar”, conta Santos.

O Brasil de Leonore era um país, já naquela época, muito marcado pela desigualdade. Ela coloca lado a lado o carnaval popular e aquele do espetáculo, preparado para atender às necessidades do turismo. Nas ruas, a alemã capta imagens dos cartazes espalhados pelo regime com pedidos para que a população se mobilizasse contra os “terroristas”, pessoas que lutavam contra a ditadura.

Trabalhadores de rua, quase sempre do mercado informal e, na maioria das vezes, negra, também atraem sua atenção. “As imagens dela lembram as do século 19 que o Debret fez em gravura quando veio. Ele ficou espantado com a sociedade escravocrata que encontrou. E mais de 100 anos depois, ainda nos deparamos, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, com trabalhadores de rua que parecem os negros que Debret trabalhou em suas gravuras”, aponta Santos.
 
Ele acredita que, reunidas, as imagens de Leonore Mau possam despertar uma reflexão sobre o Brasil contemporâneo. “Essa exposição é muito oportuna de ser apresentada em Brasília no momento político bastante delicado no qual estamos”, acredita o curador.

A casa de Leonore Mau
Curadoria: Alexandre Santos. Visitação até 20 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 21h, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES Trecho 2)
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