Ex-ministra da Cultura da França fala sobre relevância da arte e educação

Atualmente Audrey Azoulay está em campanha pela presidência da Unesco

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postado em 22/07/2017 07:10

Anne-Christine POUJOULAT/ AFP /

A candidatura de Audrey Azoulay à diretoria-geral da Unesco conta com oito concorrentes, mas uma certa dose de sorte e bons antecedentes pairam sobre a cabeça da ex-ministra da Cultura da França. Formada pela Escola Nacional de Administração (ENA), instituição da qual saem os presidentes, políticos e altos funcionários do governo francês, o nome de Azoulay despontou quando, em 2014, foi chamada por François Hollande para assumir a área de cultura e comunicação do Palácio do Eliseu. O protagonismo à frente do setor de audiovisual — ela foi diretora adjunta do Centro Nacional do Cinema e da Imagem (CNC) — ajudou a obter alguns trunfos quando foi chamada, em 2016, para ser ministra do ex-presidente.


Logo que chegou ao ministério, Azoulay conseguiu fechar um acordo cuja negociação se arrastava com os chamados intermitentes do espetáculo, concedendo direitos e garantias a pessoas que trabalham na cultura sem contratos permanentes. A ministra também herdou um orçamento de causar inveja em tempos de crise graças a um descontingenciamento oportuno. Saiu bem-vista do ministério. E com o apoio para a campanha que pode levá-la ao posto máximo da Unesco, embora alguns países árabes tenham reclamado porque esperavam engajamento da França em suas próprias campanhas. As eleições serão em outubro e há nove candidatos, sendo apenas um, Azoulay, representante de um país europeu.

No início de julho, a embaixada da França no Cairo recebeu uma petição com assinaturas de mais de 50 nomes expressivos da cultura árabe questionando a iniciativa de Hollande ao lançar Azoulay candidata. “Nas candidaturas, o procedimento é aberto e transparente e todos são legítimos para se apresentar. E não foi apenas a França que se apresentou. É um procedimento aberto a todos, incluindo os países árabes. Há quatro candidaturas de países árabes. Não tem isso de ser um direito de tal ou tal região do mundo. As candidaturas são legítimas, respeitadas e julgadas pelo que são e pelo que trazem como projeto”, defende a candidata, ao lembrar que não houve uma expressão global dos países árabes em relação ao descontentamento.

De passagem pelo Brasil para promover a candidatura, ela se deparou com um Ministério da Cultura sem ministro (e com um interino), uma crise política devastadora e pouco interesse da cúpula política, ocupada em se livrar de acusações de corrupção, em falar sobre educação e cultura, os dois faróis da Unesco. Filha do ex-conselheiro do rei do Marrocos, herdeira de uma família de classe média alta de judeus marroquinos, Azoulay quer chegar à direção da Unesco em um momento em que os nacionalismos se acirram e as tragédias humanitárias se alastram.

Não há mais, como aponta a candidata, solução de conflitos que seja unicamente securitária ou militar. E ela acredita que pode contribuir para enfrentar os desafios. “Quando a Unesco foi criada, o mundo estava em ruínas, moralmente e fisicamente, e o ideal era construir uma sociedade melhor e uma paz durável. Hoje, os desafios são outros. Nossas sociedades estão cada vez mais interconectadas e não há solução possível de forma isolada. As organizações internacionais são ainda mais necessárias”, acredita a ex-ministra, que conversou com o Correio durante a passagem por Brasília.


O mundo vive um momento frágil para todos os valores defendidos pela Unesco, com acontecimentos como a eleição do Trump, o Brexit e a virada à direita em vários estados europeus. Como enfrentar isso?
Estamos em um momento cheio de tentações e de recolhimento sobre si mesmo, no qual há muitas tentações de populismo, mas isso não ganha em todos os lugares. Na França, tivemos muito medo com a subida da extrema direita e as eleições mostraram que os franceses escolheram outro caminho. Que era, aliás, um caminho aberto à Europa, ao mundo, à mundialização. Então nem tudo é sombra, mas há, sim, tentações de populismo e para tratá-lo é preciso primeiro conhecer o outro, para não ter medo dele. Esse é o papel da cultura, da educação. É preciso ser educado com esses valores e isso também é um papel que a Unesco pode reforçar, valores como cidadania mundial, paz e tolerância. São valores necessários em face dessas tentações de recolhimento e de populismo.

Houve, recentemente, subvenções que foram retiradas, como nos anos 1980?
Houve. Seja de alguns estados que não pagam mais suas contribuições em consequência de um desacordo, seja de estados que pagam atrasado ou porque têm problemas orçamentários, ou com finanças públicas, porque as coisas estão tensas no mundo inteiro, ou porque querem expressar algo junto à organização pagando mais tarde. De qualquer forma, para a Unesco, é preciso não apenas contar com os estados-membros, mas também buscar financiamentos privados para participar desses grandes objetivos de interesse geral. Há grandes empresas e fundações interessadas em ações de educação, ações culturais.

E qual seria a contribuição da França?
A França sempre contribuiu muito com o orçamento da Unesco e não está em atraso em relação à contribuição, mas a nossa candidatura não tem razões financeiras. Não a trazemos com uma ideia financeira, nos candidatamos porque acreditamos nos valores que a Unesco carrega no seu projeto político.

E o Brasil, onde está nesse cenário? Qual o desafio em relação ao Brasil?

É um estado que sempre foi muito ativo, faz parte dos estados que acreditam na organização. Não basta pagar a contribuição, tem que ser ativo e o Brasil é um país muito ativo, que, aliás, acabou de ganhar mais uma classificação (de patrimônio mundial) na última conferência que está em curso sobre o patrimônio mundial. Por isso, foi importante, para mim, vir apresentar minha candidatura.

Tivemos três ministros da Cultura no último ano e estamos vivendo uma crise política complicada. Você acha um bom momento?

A sociedade civil, quando falamos de meio cultural e educativo, vai além das alternâncias políticas e há um interesse forte pelo que faz a Unesco. Na maioria dos países, assim como no Brasil, comissões nacionais e que são abrigos da Unesco estabelecem laços com a sociedade civil e isso dura independentemente do calendário político. De qualquer forma, são agendas de longo prazo, como são as agendas da Unesco.

A senhora tem uma forte ligação com o setor de audiovisual, que na França é muito regulamentado de maneira a proteger a produção nacional. Essa regulação assusta boa parte dos países neoliberais. A senhora acha que esse modelo pode ser exportável?
Acho que alguns princípios deviam ser válidos em todos os lugares, embora cada país tenha sua especificidade. Algumas regras são importantes, não só para proteger o cinema francês ou brasileiro — e o cinema francês é muito aberto, há muita competição, coprodução —, é importante ter a regra de que os criadores e a cadeia de valores da criação devem ser remuneradas por seu trabalho. É importante cuidar desse equilíbrio porque isso pode se distorcer entre a criação e a difusão. E a regra que tentamos implantar é essa: os que difundem o cinema devem financiar a criação. Há diferentes maneiras de fazê-lo e elas podem ser adaptadas às economias e aos sistemas, mas acho que o mais importante é sempre proteger a remuneração da parte mais fraca. Uma segunda regra muito importante para mim é que, nas nossas relações internacionais o cinema, o audiovisual e a cultura não devem ser considerados uma mercadoria como outra qualquer e não devem ser submetidos às forças do mercado.

É um diálogo difícil hoje?

Penso que, para a cultura, precisamos de uma forma não necessariamente de intervenção direta. Na França, o audiovisual não é pago pelo orçamento do estado — mas organizamos uma solidariedade dos grandes em relação aos pequenos, da tomada de risco em relação aos jovens talentos. É preciso regular. E a diversidade não é espontânea, ela precisa ser protegida para que dure. É preciso organizar as indústrias culturais.

A senhora defende uma intervenção forte do Estado?
Não é necessariamente uma intervenção forte do Estado, porque é preciso também fazer a separação entre esfera privada e pública, mas a regulação é necessária. E é um modelo que produziu sucessos. Quando você vê o que aconteceu na Europa: um monte de cinematografias que não se organizaram desapareceram. E eram extraordinárias nos anos 1960, 1950. Então, é algo que deve ser protegido e não deve ser fechado ao mundo. A França é o país com mais acordos de coprodução com outros países.

Há uma resistência no mundo, de maneira geral, quando se fala de regulação para proteger a cultura?
A cultura é sempre um combate, mas é o que nos faz avançar. Sem cultura, sem literatura, sem cinema também não tem política, porque aí não há uma narrativa comum, de sociedade compartilhada. Precisamos disso. E é um combate muito levado pelos artistas, pelos profissionais da cultura. É muito importante que se mobilizem porque assim eles levam com eles a sociedade.

Como a senhora encara a questão daintegração das gerações de franceses filhos de imigrantes árabes, um assunto polêmico desde os atentados terroristas?

Eu sou filha de marroquinos que foram para a França nos anos 1960 e, para mim, a integração na França é a escola. Quando as crianças chegam à escola francesa, seja de onde forem, eles se tornam franceses de certa forma porque têm acesso a essa educação. Têm acesso também à cultura. Vir de países diferentes e se encontrar nesse meio é uma grande força. Para mim, foi uma grande força. Primeiro porque eu tinha acesso a várias culturas, a marroquina e a francesa. Hoje, a sociedade francesa é diversa, menos um pouco que as de outros países, mas é diversa, e precisamos reconhecer isso como uma força.

Como vê a imagem de violência ligada aos imigrantes?
Os atentados não estavam ligados à imigração, os terroristas não eram estrangeiros. E isso traz outra questão que é a prevenção da radicalização violenta, que é extremamente minoritária. É pela instituição, a escola e também a cultura, que a França integra populações diversas. Além disso, temos uma juventude forte, enquanto alguns países europeus têm uma população envelhecida. É preciso conhecer a cultura do outro para não ficar com medo e para conseguir essa integração.

Também como ministra, a senhora lançou um grupo para trabalhar na paridade entre homens e mulheres na sua administração. Por que isso é importante?
É muito importante e não apenas para as mulheres, mas para fazer evoluir a sociedade em conjunto. O ministério da Cultura tem um papel maior que os outros porque é o ministério da representação. Modelos e imagens se forjam por meio da cultura, então é importante ter mulheres reconhecidas no meio cultural. Avançamos num tema importante que é o do acesso aos meios de produção para as mulheres, porque podemos ter mulheres coreógrafas, diretoras de cinema etc, e temos, mas não tanto quanto homens, e é comum que elas tenham menos acesso aos meios financeiros que os homens.
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