Flip começa na quarta e tem como tema a diversidade

A Festa Literária Internacional de Paraty aborda questões de identidade e gênero

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postado em 23/07/2017 07:33 / atualizado em 21/07/2017 18:30

arquivo pessoal

 
A programação da Festa Literária Internacional de Paraty este ano vem com atenção especial para reivindicações antigas. Sem estabelecer um sistema de cotas ou se impor qualquer número, a curadora Josélia Aguiar conseguiu montar um programa com 30% de autores negros e 50% de escritoras mulheres. Além disso, a homenagem a Lima Barreto faz um reparo justo a um dos mais injustiçados escritores brasileiros do século 20. Negro e inconformado com as desigualdades sociais e raciais que já marcavam a sociedade brasileira da Primeira República, Barreto não hesitou em fazer da literatura um espaço de crítica social.

Com início na próxima quarta-feira, a Flip 2017 terá 43 convidados e abertura do pianista André Mehmari, que compôs a Suíte Policarpo, inspirada em Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, especialmente para a 15ª edição do evento. Josélia, que nasceu em Salvador, vive em São Paulo, é jornalista e já escreveu sobre literatura para os mais importantes veículos do país, conta que estava atenta às reivindicações de mais mulheres e mais negros na Flip.
 
“A preocupação para mim, como curadora mulher, era muito grande e, identificada com Lima Barreto, era muito importante ter um número maior de autores negros. Esse percentual que a gente conseguiu, eu não tinha em vista”, garante.

Foi por meio dos trabalhos que Josélia chegou aos autores. “Não pensei em termo de cotas, eu queria conhecer os trabalhos e ver como as mesas poderiam ter autores diversos tratando dos mais variados temas, o que é um pouco mais complexo porque você tem que conhecer mais o que os autores estão escrevendo para ver como fazer as combinações”, explica a curadora, que chegou a Lima Barreto por meio de Jorge Amado, do qual ela acaba de finalizar uma biografia. “Em meio às pesquisas, entendi que Lima Barreto tinha sido muito importante para o Jorge Amado jovem. E depois fui ver, mais pra frente, que há uma influência muito grande na virada do Jorge Amado no fim dos anos 1950”, revela.

Reflexões


Outra preocupação de Josélia foi não limitar as temáticas das mesas a questões de gênero e raça, o que implicaria em preconceito e reducionismo. Entre os estrangeiros convidados, por exemplo, está Paul Beatty, norte-americano que se recusa a ser visto apenas como um autor negro, Scholastique Mukasonga, nigeriana cuja escrita mergulha na violência da colonização da Nigéria, e Marlon James, primeiro jamaicano a vencer o Man Booker Prize.

Do Brasil, participam Lázaro Ramos, que acaba de lançar o relato Na minha pele, a atriz e diretora Grace Passô, do grupo Espanca!, e o músico e poeta Ricardo Aleixo, finalista do Portugal Telecom com Modelos vivos. Também estão entre os convidados Conceição Evaristo, referência quando se trata do registro da memória negra no Brasil, e Ana Maria Gonçalves, autora do monumental Um defeito de cor.

As questões racial e de gênero estão refletidas nas mesas, mas não as limitam. “O que pensei desde o começo? Que Lima Barreto ia ser tratado como autor, como escritor, pela pluralidade de gêneros. Eu queria, sim, colocar a questão racial em debate, mas não queria que os autores negros tivessem só que falar da questão racial, porque seria uma forma de ser preconceituoso, como se só fosse possível que eles contribuíssem nessa questão, assim como pode acontecer em alguns eventos que colocam as mulheres para falar só sobre feminismo e empoderamento. Então, todos os debates tinham essa perspectiva de identidade e de gênero, mas são debates muito variados, com muita acepções”, avisa Josélia.

Assim Paul Beatty e Marlon James vão falar sobre o grande romance na literatura americana, Grace Passô divide a mesa com Frederico Lourenço e Guilhermo Gontijo Flores para falar de mitologias e Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristro fazem homenagem às vozes femininas negras na literatura mundial. Mitologias e contos de fadas também são tema da mesa de Alberto Mussa e do islandês Sjón. Personagens de história do Brasil pautam João José Reis e Ana Miranda, que acaba de publicar biografia romanceada de Xica da Silva, e a historiadora Lilia Schwarcz terá a companhia de Lázaro Ramos e Felipe Hirsch para falar de Lima Barreto na sessão de abertura da Flip.

Como queria algum elemento surpresa e diferente durante a festa, Josélia criou a série Fruto Estranho, um conjunto de intervenções poéticas e performáticas ao longo da programação oficial. Assim, entre duas mesas, haverá performances, declamação de poesia, encenação, sessões de fotografia e apresentação de videopoema. “É uma programação dentro da programação principal que acho que de uma maneria é uma nova proposta de formato”, avisa a curadora.

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