Levante negro: atrizes criam projetos para diminuir disparidades raciais

Negros e pardos ainda são minoria em produções audiovisuais. Atrizes querem diminuir a enorme disparidade

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postado em 25/07/2017 06:00 / atualizado em 28/07/2017 10:30

Alexandre Fontenele/Divulgacao
 
Tal como Zezé Motta faz há mais de três décadas com o Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN), artistas como a brasiliense Jessica Cardoso se organizam em busca de mais visibilidade para atores negros. Mais que um discurso incisivo, o investimento se concentra em ações práticas.
A jovem foi uma das selecionadas para o curso Afrobrasilidade e o palco, coordenado por Lázaro Ramos e com aulas do professor Kiko Mascarenhas, que se encerrou na última sexta-feira. Apenas 22 colegas de profissão tiveram a mesma oportunidade.

“Foi um superaprendizado”, contou, sobre os momentos de troca com um dos mais engajados atores brasileiros. Antes do convite da emissora, Jessica Cardoso anunciou outra ação.
 
Com o site Teatro no DF, a atriz (que ganhou visibilidade ao interpretar a escritora Anne Sexton, em 2013) está cadastrando currículos, vídeos e portfólios de nomes da cidade. Essa é uma batalha antiga que se concretizou este mês. “Assim, poderíamos fazer circular de modo mais afetivo uma página sobre a qual pudéssemos dizer: ‘Está procurando ator ou atriz negra no DF? Ó, aqui nesse site tem uma lista com vários deles’”, resume.
 

 
A iniciativa em busca de representatividade para atrizes e atores negros surge em momento oportuno. A ONU declarou de 2015 até 2024 a Década Internacional de Afrodescendentes, com o intuito de assegurar a proteção dos direitos humanos. Desde então, uma série de estudos e levantamentos têm sido feitos para mapear as discrepâncias raciais, inclusive no âmbito cultural. Recentemente, uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) apontou que atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal de filmes nacionais, por exemplo.
 
 
 
 

Outras frentes

Aumentar o número de atores negros em cena é uma das razões de existir para Maria Gal, atriz nascida em Salvador. No ar na série Sob pressão, na Globo, ela também está no elenco da nova versão cinematográfica de Dona Flor e seus dos maridos, com previsão de estreia no segundo semestre. No entanto, dois projetos a fazem vibrar de maneira especial. Ela está produzindo uma série em que uma mulher negra e periférica é protagonista. O Souza é uma parceria com Claudio Torres Gonzaga (A Grande Família), Charles Daves (Pé na Cova) e Tom Farias. A produção terá primeira exibição na TV BRASIL.

Ainda em fase de produção, Maria Gal também capitaneia um filme sobre a escritora e cordelista negra Carolina Maria de Jesus. Nessa empreitada, tem o apoio da ONU Mulheres. “Será uma grande história de superação”, antecipa. “Carolina, para mim, é uma das maiores referências não apenas como escritora, mas como a grande mulher que ela foi. Ela era uma visionária, uma mulher que estava à frente do seu tempo, a ponto de seus escritos serem extremamente atuais até hoje. Ainda me choca e acho impressionante como muitas pessoas ainda desconhecem sua obra e seu valor”, emenda.

Duas perguntas / Maria Gal

Já passou por situações constrangedoras por ser uma atriz negra?
Essa é uma questão delicada. Infelizmente, o negro no Brasil muitas vezes não é visto pelo seu potencial comercial e poder de compra. Consequentemente nós, atores negros, famosos ou desconhecidos, de alguma forma recebemos esse olhar. Lembro de não ter sido escolhida em um determinado trabalho pelo fato de terem achado meu tom de pele “menos comercial”. Agora, eu pergunto: se temos um país com 54% de população negra que consome, vê audiovisual, assiste tevê, cinema etc, será que realmente atores negros e de pele escura tem um potencial “menos comercial”? Gosto de reagir me empoderando. Minha principal reação é me tornar uma atriz que produz conteúdo audiovisual, assim como diversos atores negros norte-americanos. Alguns deles são grandes referências para mim.

Na semana passada, Lázaro Ramos coordenou uma oficina de Afrobrasilidade e o palco, que prometeu ser a primeira de várias. É um começo para diminuir as discrepâncias em elencos de filmes, séries, novelas, etc?
Lázaro é uma das minhas referências. Aliás, não só minha, mas de muitos atores.  Acredito que para termos um audiovisual que de fato reflita nossa sociedade precisamos de inúmeras iniciativas. Precisamos que os canais de TV aberta, fechada, distribuidoras e video on demand se sensibilizem para esta questão. Até por uma questão comercial também.  A publicidade já percebeu um pouco isso. Não estamos mais na era da idealização de um padrão e sim na era da identificação. Se não me vejo, não consumo! 
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