Lançamentos trazem obras-primas das HQs, como A vida secreta de Londres

'A vida secreta de Londres' e 'Os morcegos-cérebro de Vênus e outras histórias' são ótima oportunidade para ler quadrinistas ingleses e americanos

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postado em 25/07/2017 06:48 / atualizado em 24/07/2017 19:04

Veneta/Reprodução
 
O crescimento do mercado de quadrinhos no Brasil abriu as portas para que HQs inéditas no país fossem publicadas. Com o aumento de editoras dedicadas à arte sequencial, diversas obras de nomes importantes do gênero chegaram ao país. De biografias de artistas famosos a álbuns fundamentais para o estilo, várias novidades foram lançadas.

Com esse cenário positivo, duas antologias aportam agora às prateleiras de livrarias brasileiras e se tornam opções para os fãs de quadrinhos conhecerem histórias clássicas do gênero em língua portuguesa. A vida secreta de Londres (Veneta) e Os morcegos-cérebro de Vênus e outras histórias (Editora Mino) são oportunidades para conhecer o trabalho de gigantes dos quadrinhos ingleses e americanos.

A vida secreta de Londres é uma antologia com 176 páginas que reúne histórias da capital britânica. Vista por um viés sombrio, a cidade é base para narrativas de autores como Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean e Stewart Home.

Organizada pelo quadrinista e ilustrador argentino Oscar Zarate, a antologia vai além dos quadrinhos. Textos em prosa e poemas completam o álbum. Zarate ilustra no livro uma das histórias de Alan Moore. As narrativas, em geral, se passam em uma Londres menos conhecida, noturna, depois que a maioria dos movimentos na cidade já cessaram.

No Brasil, a antologia foi traduzida por Alexandre Boide. Responsável por verter ao português obras importantes dos quadrinhos — como Notas sobre Gaza, de Joe Sacco —, Boide explica que a cidade é representada de diferentes maneiras nos livros. "As histórias são muito diferentes entre si, inclusive em termos de gênero (há quadrinhos, textos em prosa e poesia). Por isso, é difícil encontrar um mínimo denominador comum que dê conta de como a cidade é retratada no álbum como um todo."

Ele aponta, no entanto, que existem, sim, aproximações entre as histórias. Mesmo que abordados de maneiras diferentes, alguns temas aparecem em obras de autores diferentes no livro. "Há diversas aproximações visíveis. Nos seus quadrinhos, Neil Gaiman e Alan Moore mergulham em histórias relacionadas ao submundo da violência e do sexo, e em seus textos em prosa no álbum se debruçam sobre o passado de determinadas regiões da cidade", exemplifica.

Boide apresenta algumas especificidades que a tradução da antologia trouxe. Alguns textos, para ele, se revelam mais potentes e originais que outros. "Alan Moore, com  suas referências constantes a elementos de outros textos e contextos, e a do (para mim) surpreendente Iain Sinclair, com seus enredos sutilmente sugeridos e suas frases grandiloquentes", acredita.

O próprio Iain Sinclair é um destaque da obra, segundo Boide. Menos conhecido que outros nomes presentes na antologia, como Moore e Gaiman, o texto de Sinclair impressionou o tradutor. "Considerando parâmetros mais lineares e convencionais, talvez suas narrativas não sejam tão bem estruturadas em termos de enredo, mas ele espalha pequenos bolsões de sentido, por assim dizer, ao longo do texto, o que permite mergulhos em um universo ficcional bem rico e peculiar", destaca.

A parceria dele com o ilustrador Dave McKean também foi surpreendente para o tradutor. McKean é recorrentemente lembrado pelas histórias em parceria com Gaiman. "Talvez em Sinclair ele tenha encontrado um parceiro para experiências ainda mais abertas e radicais. Eu, pelo menos, vou ficar de olho daqui para a frente em coisas produzidas por esses dois."

As parcerias e os encontros inusitados, para o tradutor, são uma das principais qualidades de antologias. "Acho que esse é o grande trunfo de uma antologia bem-sucedida: produzir encontros", pondera.

A pura  ficção científica nos qadrinhos

 
Editora Mino/Reprodução
 
 
Trinta e uma narrativas compõem Os morcegos-cérebro de Vênus e outras histórias. O álbum apresenta clássicos dos quadrinhos de ficção científica produzidos durante a chamada Era de ouro dos quadrinhos americanos (entre 1939 e 1954). As narrativas foram escritas antes da autocensura do Comics Code Authority (também em 1954). O código foi uma regulamentação das editoras em meio ao sentimento moralista e anticomunista que predominava nos EUA pós-Segunda Guerra Mundial.

Uma história do quadrinista Basil Wolverton dá título ao álbum. O livro foi uma seleção feita pelos editores brasileiros Carlos Junqueira e Lauro Larsen. Para chegar ao resultado final, mais de 2 mil páginas, em domínio público, foram avaliadas pelos dois. O material final foi traduzido pelo quadrinista Diego Gerlach.

Além da seleção, Carlos Junqueira foi responsável por retrabalhar as histórias novamente para dar qualidade de publicação ao material antigo. “Encontrei republicações estrangeiras recentes que pareciam ter sido escaneadas e impressas. Então, baixei os arquivos e comecei a restaurar essas revistas; e posso dizer que ficaram com a arte até melhor do que em suas edições originais”, relatou ao site Universo HQ.

As histórias do álbum são assinadas por nomes importantes dos quadrinhos da época, como Jack Kirby, Alex Toth, Joe Kubert e Steve Ditko. O último, por exemplo, foi parceiro de Stan Lee na criação do Homem-Aranha. No livro, 23 autores, ao todo, assinam as narrativas de ficção científica. 

Originalmente publicadas em cor, as histórias foram transformadas em preto e branco com o trabalho de Junqueira. O designer Thiago Ferreira rediagramou as páginas e adaptou balões e letreiros.

A ideia é, a partir de agora, criar uma coleção com volumes temáticos, já que, nas pesquisas, Junqueira e Larsen encontraram bastante material de outros gêneros. A próxima edição está prevista para ter histórias de terror.
 

Duas perguntas / Alexandre Boide

 

Como Londres é retratada nas histórias? Ela se transforma também em personagem?
Acho problemático afirmar que Londres também é personagem do álbum, porque a cidade não se transmuta totalmente em persona, mas em muitos casos a ênfase dada ao espaço pelos autores é tamanha que é possível afirmar que são histórias sobre Londres ou (parte dela), e não sobre as pessoas que circulam por esse ambiente.

São vários autores diferentes no livro. Do ponto de vista da tradução, como você lidou com isso? É uma dificuldade maior?
O tradutor de ficção precisa estar preparado a todo momento para captar e reproduzir vozes, seja de narradores, personagens ou de um eu lírico. É um processo que se repete a cada novo trabalho, e não faz diferença se é uma história de dez páginas ou de duzentas. A dificuldade em si não está no fato de haver muitas vozes autorais no mesmo livro, e sim nas nuances e idiossincrasias de cada uma. Mas essa variedade em si não implicou maior dificuldade na tradução. No máximo, exigiu uma atenção extra na decifração dos diferentes estilos. 
 

 
SERVIÇO

A vida secreta de Londres
Oscar Zarate (organizador). Veneta. 176 páginas. R$ 69.


Os morcegos-cérebro de Vênus e outras histórias
Vários autores. Editora Mino. 208 páginas. R$ 79,90
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