Ópera Studio faz releituras de clássicos do gênero e inova no palco

Com direção de Irene Bentley, o projeto Ópera Studio busca trazer a ópera para o marco do século 21

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Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/D.A Press
 
Se a tradição da criação operística já assustou os espectadores desavisados e acostumados ao pensamento de que a ópera é um meio de representação arcaico, os novos intérpretes do gênero mostram que a inovação sobe ao palco. Entre os bons exemplos do segmento na capital destaca-se Ópera Studio.
 
Com direção de Irene Bentley, o projeto busca trazer a ópera para o marco do século 21, proporcionando aos participantes e ao público uma releitura das obras consagradas, sob a ótica da sociedade contemporânea. O objetivo é agregar conhecimentos de diferentes gerações, permitindo que os mais novos e antigos no caminho dialoguem a respeito da criação atual.

Tendo como ponto de encontro a Universidade de Brasília, a Ópera Studio se destaca por suas montagens inventivas que acontecem há mais de 10 anos. A iniciativa trabalha com alunos e professores da UnB de todos os cursos, além de convidados de fora da academia. Irene Bentley, nome que esteve na linha de frente da fundação e da continuidade do projeto, acredita que a ópera é o espetáculo mais complexo que existe.
“Navegamos pela música associada às artes cênicas, às artes visuais, à expressão corporal, à literatura e à poesia. São conhecimentos integrados que viabilizam o cultivo do potencial criativo do ser humano”, declara a professora e intérprete. Para ela, a união entre os mais jovens e mais velhos artistas possibilita que os mais jovens despertem para a busca de obras produzidas há muitos anos, revelando para eles um mundo, até então, desconhecido.

Esta participação proporciona oportunidades de aprofundamento da compreensão e do conhecimento para os que escolheram o canto ou a música como principal atividade da sua vida, quer como docentes ou como intérpretes e também como profissionais de outras áreas. Para Irene, um dos motivos do sucesso do projeto acontece principalmente por preencher uma lacuna na cidade.
 
Irene destaca que os profissionais que trabalham nessa área devem estar atentos às novidades do meio, promovendo uma reciclagem e atualização permanente dos conceitos. Enquanto isso, as montagens da cidade buscam estimular o desejo de aprimoramento vocal e cênico de seus participantes, na tentativa de ampliar e profissionalizar o mercado local.

Para a criadora, os espetáculos do projeto são aguardados com expectativa por parte da população. “O nosso trabalho busca mostrar aos amantes da ópera o surgimento da nova geração de cantores líricos de nossa cidade e incentivá-los a se apresentarem diante de um público cada vez mais exigente”, lembra. O próximo passo do projeto é montar A flauta mágica, de Mozart. A ideia é mesclar um elenco de jovens e antigos intérpretes e recriar, com ares contemporâneos, a obra feita no século 18. Bentley é um dos nomes mais tradicionais quando nos referimos à criação operística brasiliense e, atualmente, atrai participantes de todas as idades para suas montagens.

Jovens intérpretes
 
O jovem Henrique Raynal participa, aos 23 anos, de seu primeiro projeto com a Ópera Studio, tornando-se diretor cênico em A flauta mágica. O ator e cantor conta que quando viu pela primeira vez a divulgação de um espetáculo do projeto, em um pôster da universidade, pensava na ópera ainda como algo refinado e inacessível. Ao participar dos ensaios com Irene, percebeu que um dos principais pilares das montagens era justamente tornar os espetáculos mais acessíveis com o público, ampliando o diálogo com seus espectadores.

“Qualquer tipo de arte é aquilo que nós fazemos dela e a professora Irene decidiu fazer do Ópera Studio uma porta de acesso para qualquer pessoa conhecer e experienciar uma ópera, seja como público ou como trabalho”, declara Henrique. O ator destaca, ainda, a importância de perceber que a diretora dialogava de maneira eficaz com toda sua equipe criativa, além de delegar importantes tarefas a jovens intérpretes, o que cria um constante ar de renovação em suas criações.

Gabriel Murowaniecki, 22 anos, participa do projeto desde 2013 e também faz parte do time de jovens artistas que decidiram se dedicar à ópera. Mesmo sendo apaixonado por música erudita, já teve seus preconceitos com a ópera. “Pensava em como essas obras que falam sobre casamentos arranjados e mortes trágicas poderiam ser relacionadas ao nosso tempo. Mas elas são. Vemos trabalhos completos que dialogam com diversas questões atemporais e com a condição humana”, destaca. Para ele, o encanto está em perceber que os cantores no palco interpretam as mais genuínas verdades sobre as alegrias e tristezas de seus personagens e o público de todas as idades pode se identificar com isso.

Enquanto isso, Gabriela Dourado trilha um caminho mais longo, tendo se interessado pelo gênero quando tinha apenas 14 anos. O que a atraiu foi a característica de misturar diferentes técnicas e estilos artísticos, caracterizando-se como uma linguagem atemporal. “Muitas montagens de hoje em dia quebram a rigidez que já existiu anteriormente. As montagens são ambientadas nos dias atuais, utilizam muita tecnologia e são traduzidas para a linguagem de cada local. Acho que isso favorece o despertar de uma geração mais jovem”, afirma.

Outro importante ponto levantado é a de que a produção de ópera nos dias atuais cria uma importante oportunidade de diálogo entre gerações. A música é antiga, mas os dramas das personagens são atuais, refletem emoções de pessoas em todas as gerações. A tecnologia passa a fazer parte das montagens, aliando tradição e inovação. Hoje, a ópera se transforma em uma experiência auditiva, visual e sensorial. 
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