Única ópera de Beethoven ganha montagem no palco da Escola de Música

Obra tem um contexto político e foi adaptada para ser ambientada nos anos 1960

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postado em 26/07/2017 07:30

Cristiano Costa/Sesc DF
 
 
Ludwig van Beethoven era um revolucionário e acreditava nos ideais iluministas. Isso explica vários pontos de Fidelio, única ópera escrita pelo compositor e que ganha o palco da Escola de Música de Brasília (EMB) de hoje até domingo. Sob a batuta do maestro Artur Soares e produzida por Hugo Lemos, a ópera vai reunir a Orquestra e Coro da Capital Philharmonia para contar a história de Leonore, uma mulher que se disfarça de homem para percorrer o interior das prisões em busca do marido. Um contexto político envolve a trama, já que Florestan, o marido, está encarcerado por causa de uma disputa ideológica com um aristocrata ao qual se opõe.

Quando Ludwig van Beethoven escreveu Fidelio, imaginou uma história que se passava no século 16. Para a versão brasiliense, Hugo Lemos optou por ambientar a peça nos anos 1960. A perseguição política sofrida pelo marido de Leonore tem a ver, o produtor acredita, com parte das ditaduras e opressões que se espalharam pela América Latina na segunda metade do século 20. “Estamos fazendo uma montagem atemporal sem fazer referência a uma época específica e escolhemos ambientar nos anos 1960 porque tem a ver com a ditadura. O libreto fala de um preso político, então, tem a ver com a gente”, garante Lemos.

Beethoven era um entusiasta das ideias iluministas que pautaram a Revolução Francesa em 1789. Quando recebeu a encomenda para Fidelio com um libreto escrito pelo mesmo autor de A flauta mágica, de Mozart, o compositor não gostou do que leu por discordar politicamente do conteúdo. Pediu então a um amigo que arrumasse outro libreto e passou uma década debruçado sobre a partitura até entender que estava pronta, em 1815. “É uma ópera muito fundamentada nas óperas românticas que se seguem. É clássica, mas permite muitos avanços românticos como o nível ao qual ele leva ao êxtase, ao drama”, explica o maestro Artur Soares. “Mas é o mesmo Beethoven irascível, impetuoso da 5ª e da 9ª Sinfonias.”

Formada por 36 músicos e 22 cantores, a Capital Philharmonia é uma orquestra de resistência e reúne desde professores da EMB e alunos do departamento de música da Universidade de Brasília (UnB) até profissionais liberais que também são músicos. Criada em 2012 por um grupo de amigos que queriam cantar ópera e tocar, a formação tem sofrido com a redução de espaços na cidade: o fechamento do Teatro Nacional dificultou a apresentação de óperas, já que a sala Villa-Lobos é uma das poucas a ter fosso para a orquestra. Isso ajuda a reduzir o número de óperas apresentadas na cidade, embora o interesse de cantores e músicos continue grande. “Enfrentamos várias dificuldades nas instituições e nossas orquestras não são estáveis”, avalia Soares. “Nós funcionamos na base do ‘eu-trocínio’. O FAC aparece de vez em quando e é importante. Agora, o interesse pela ópera é grande porque temos aqui bons professores de canto e muita gente cantando. E quem vai a uma ópera, gosta e volta.”

As sopranos Janette Dornellas e Erika Kallina se revezam no papel de Leonore e dividem o palco com Licio Bruno, Carlos Eduardo Marcos e Marília Oliveira, nomes frequentes no circuito da ópera nacional. Para criar o cenário, Hyandra Ello buscou inspiração na geometria ilusionista de Maurits Cornelis Escher, uma ideia do produtor Hugo Lemos. “Usei muitas linhas e mudanças de altura no cenário para imprimir um pouco da ilusão de ótica. É um espetáculo muito marcado por linhas geométricas, diagonais e retas”, avisa Hyandra.

Fidelio
Com Orquestra e Coro da Capital Philharmonia. De hoje a domingo, às 19h, no teatro da Escola de Música de Brasília (SGA/Sul Quadra 602 Projeção D Parte A ). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia)
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