Contos infantis e narrativas rurais estão em mostra de animação russa

Mostra reúne 37 produções da Rússia com filmes que primam pela linguagem de vanguarda

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postado em 26/07/2017 06:15 / atualizado em 25/07/2017 18:46

Aleksander Petrov/Divulgação
 
Um verdadeiro mundo de tradições,  de imagens espetaculares e de experimentação a ser desvendado, em criações que atravessam 65 anos da história do país com a maior área terrestre: os atrativos estão na realização da 1ª Mostra de Animação Russa, no Cine Brasília (EQS 106/107). De amanhã até domingo, em 17 blocos de programação, será possível apreciar 37 produções de uma região que se distingue pelo legado de narrativas rurais, pelos contos infantis e pela linguagem de vanguarda.

Para além do universo das crianças, a mostra sob curadoria de Maria Vragova e Luiz Gustavo Carvalho trará obras como Três histórias de amor (de Svtelana Fillipova), criada com técnica particular que emprega borra de café e traz dados históricos do escritor Vladimir Maiakóvski (o “poeta da Revolução”). Convidada de honra do evento, Svtelana também exibirá Brutus, em torno do triste destino de um cão durante a vigência do nazismo.

Entre os curtas apresentados por Svetlana está A história de Sara, centrado na cadeia de pensamentos de uma menina de 6 anos, com sistemático uso da frágil lógica de que “o velho” é reposto pelo “novo”. Primeira atração na grade da mostra de animação, A luva (1967) será mostrado às 15h de amanhã. Ao revelar a história de uma menina persistente na ideia de ter um cachorro, o diretor Roman Katchanov foi vencedor de prêmio em Annecy (França), evento tido como o mais importante do mundo para o segmento. Nome sacramentado entre os amantes das animações, Hayao Miyazaki é uma das assumidas influências para Lev Atamanov, autor do média-metragem A flor vermelha (1952), filme muito anterior à explosão de A bela e a fera (1989), mas que traz enredo bem similar ao do clássico da Disney.

Svetlana Filippova/Divulgação


Prêmios internacionais

Também firmado no imaginário pelas animações norte-americanas, o famoso ursinho Pooh serve de protagonista para três produções apresentadas no Cine Brasília, entre as quais O ursinho Puff (1969), de Fiodor Khitruk, que obteve a aprovação irrestrita de Alan Milne (o inglês que criou o personagem Pooh). No universo dos traçados do cultuado diretor Yuri Norstein (com quatro filmes a serem exibidos) está O ouriço no nevoeiro (1975), vencedor de 35 prêmios internacionais, e que sonda a crise existencial de um ouriço que pretende visitar o amigo urso. No bloco de atrações reservado a adultos (amanhã, às 17h30) estão duas preciosidades assinadas por Alexander Petrov: o curta indicado ao Oscar A vaca (1989), detido nas memórias rurais de um menino e a relação de carinho dele com uma vaca, e O velho e o mar (1999), adaptado da literatura de Ernest Hemingway, e que venceu o Oscar da categoria de curta de animação, ao apresentar a obsessiva perseguição de um idoso por um peixe gigante.

Com ingressos a R$ 6,  os filmes terão versões dubladas ou legendadas (condicionadas ao conteúdo). Programado para as 16h de amanhã, A ilha (1973), por exemplo, faturou uma importante distinção no Festival de Cannes, ao tratar de um tema adulto: numa parábola, a intenção é a de denúncia da universal solidão e do isolamento partilhado entre uma porção de humanos.

Mostra de animação russa
Cine Brasília (106/107 Sul). Amanhã, a partir das 15h. Ingressos: R$ 6. Classificação indicativa variável, com filmes dublados e legendados. Mostra prossegue até domingo. 


Aleksander Petrov/Divulgação


Três perguntas  Luiz Gustavo Carvalho, curador  da mostra


O que dá tanta qualidade e tradição ao terreno de animação russa?
A Rússia está estreitamente ligada à história da animação. Starevich é um dos pioneiros da animação mundial. Porém, uma das principais razões para o alto nível da escola de animação russa e soviética é o fato de que esta linguagem foi sempre explorada por grandes artistas durante todo o século 20. Na Vanguarda Russa, na minha opinião, o principal movimento artístico do século 20, a animação estava presente como forma de expressão artística. Também durante o Degelo khruscheviano, os filmes de animação tinham um papel protagonista no movimento artístico da ex-União Soviética do século 20. Tudo isso fez com que esta tradição fosse amadurecendo e perpetue até hoje. Ainda, atualmente, a Rússia conta com grandes animadores, que vêm recebendo os maiores prêmios nos festivais internacionais de animação.

Quais os dois filmes imperdíveis e que traços colocam eles no posto?
O homem na moldura, de Fiodor Khitruk, e O conto dos contos (1979), de Yuri Norstein (o Andrei Tarkovski da animação). Khitruk revoluciona a animação na década de 1960, rompendo com uma estética stalinista e buscando as influências vanguardistas para os seus filmes. Retrata, ainda, com um olhar poético, perspicaz e crítico, a sociedade soviética da segunda metade do século 20. O conto dos contos, de Norstein, foi considerado pela crítica “o melhor desenho animado de todos os povos e de todas as épocas”. Propõe uma reflexão poética sobre questões profundas e íntimas do ser humano.

Quais os temas mais recorrentes, dentro do recorte proposto pela mostra?
O recorte da mostra traz uma riqueza de temas recorrentes. Porém, enquanto os primeiros filmes da mostra, da década de 1950, ainda utilizam o folclore russo e clássicos literários como cenário, a animação da década de 1960 retrata, com excelente humor, problemas e situações cotidianas vividas pelas pessoas do país. A série Espera, você vai ver! pode ser considerada a “Enciclopédia Animada da União Soviética”. Este humor pode ser ainda visto em títulos contemporâneos, como Lavatory-Lovestory (indicado ao Oscar, vencedor do renomado Festival AnimaMundi e presente no evento), de Konstantin Bronzit, em que uma história romântica acontece em um banheiro público.
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