Flip: Grace Passô questiona dramaturgia estabelecida em apresentação

A curadora Josélia Aguiar propôs não só diversidade na composição das mesas como também trouxe novos formatos para a conferência dos autores

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postado em 28/07/2017 11:24

 Flip/divulgação
A segunda noite da 15 Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) recebeu  na parte da programação denominada Fruto estranho a atriz e dramaturga premiada Grace Passô.  Nesta edição, a curadora Josélia Aguiar propôs não só diversidade na composição das mesas - com 50% de mulheres (são 23 escritores e 23 escritoras) e 30% de autores negros - , como também trouxe novos formatos para a conferência dos autores.  

Se antes as conferências seguiam padrões mais próximos às apresentações acadêmicas com mesas e mediações, nesta edição a primeira sessão com Lázaro Ramos (que lança o Na minha pele) e Lilia Schwarcz (lança a biografia Lima Barreto: Triste visionário pela Companhia das Letras) foi uma cena aberta dirigida por  Felipe Hirsch. Em Fruto estranho os autores convidados apresentam textos literários em performances que valorizam a palavra. A apresentação de Grace antecedeu a mesa Odi et amo Frederico Lourenço Guilherme Gontijo Flores, dois dos principais nome da tradução do grego no Brasil. Frederico falou sobre as primeiras traduções da Bíblia para o português e Guilherme da poetisa Safo ( VI e VII a.C) da Ilha de Lesbos.

A  noite de ontem  não foi diferente do primeiro dia em termos de inovação com a leitura de textos feita por Grace Passô, que lança Mata teu pai pela editora Cobogô. Grace subiu ao palco montado na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios.  Gracê apresentou trechos do novo texto que ela está escrevendo para teatro, faz parte do Projeto  Grãos da Imagem, cuja primeira peça foi o “Vaga Carne”. “São desdobramentos do que  comecei a pesquisar no Vaga Carne.” Nos textos, ela apresenta quatro corpos atravessados pela voz dos nossos tempos.  Logo depois da apresentação, Gracê conversou no camarim com o Estado de Minas.

O texto  que Grace escreve tem nome provisório “Parto” , e ela o apresentou em quatro partes: a primeira é a narrativa de um homem descrevendo o corpo da atriz que deve encenar a peça que ele escreve. A descrição do homem  não é o corpo que está em cena, que lê o texto.  “Existe uma guerra entre o corpo dessa mulher e a voz desse homem que quer colonizá-la a todo custo”. Na segunda narrativa, um trecho do espetáculo Vaga Carne (2016): um corpo catatônico de mulher atravessado por uma voz que apresenta o corpo por dentro e por fora. A terceira parte um corpo que fala sobre ausência e a quarta parte, um corpo que profere as palavras musicalmente, que tenta descrever imagem que ele vê e sonha pela música.

Ao apresentar Grace Passô, a curadora destacou que se trata de uma das dramaturgas mais premiadas na atualidade: em 2016 e 2017, recebeu quatro Prêmios por Vaga carne – entre eles o Shell de melhor texto. Desde 2005 já foram 15 prêmios nacionais. E quem vê Grace atuando ou assiste aos espetáculos que ela concebe entende rapidamente o motivo do reconhecimento: são textos contemporâneos que trazem propostas de desconstrução dos lugares da plateia, da cena e do ator. “Estou ligada ao teatro na sua totalidade. Penso a dramaturgia colada às questões que me instigam para a cena. De alguma forma se meus textos parecem  romper com a narrativa convencional, isto tem a ver  com a leitura que me preocupo sempre em relação aos códigos teatrais. Interesso-me em romper com noções estagnadas de lugar do público, do, da atriz e da cena. Não me interessa a reprodução de um formato já entendido como dramaturgia.”

E nessa busca, Grace tem feito um teatro vivo, presencial que ela mesma chama de “ritual único.”  A decisão da curadoria de trazer dessa forma inovadora o texto dramatúrgico para a Flip, na avaliação de Grace, é uma forma de abrir espaço para o gênero.   Grace começou a escrever  diante do desejo de conceber uma obra para o teatro. Foi uma das fundadoras do grupo Espanca!. “O que faço está dentro da cena autoral da produção contemporânea brasileira. Mas reflete sim o fato de Belo Horizonte ser uma cidade extremamente inventiva em relação à dramaturgia. Para além dos estereótipos, BH existe uma forma muito inventiva em Belo Horizonte na forma de falar”, afirma. Grace foi muitíssimo aplaudida ao final da apresentação.

A passagem de Grace pela Flip foi bem rápida. Hoje ela retorna a Contagem, onde grava filme Temporada, dirigido por André Novais da Filmes de Plástico. Também atuou em outro filme feito pelo coletivo, No coração do mundo, que está na fase de montagem.
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