Projota se reafirma um dos principais rappers do país em novo álbum

No novo disco, A milenar arte de meter o louco, lançado ontem, o paulista fala de afeto, mas também de revolta

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postado em 29/07/2017 07:29

Casé Assessoria/Divulgação

Mais de 500 milhões de visualizações no YouTube, 7 milhões de curtidas no Facebook, 1,2 milhão de seguidores no Instagram. Os números superlativos pertencem a Projota, rapper conhecido por falar de amor em um gênero amplo, mas ainda estigmatizado pelas letras com “porradas” políticas e sociais. Não se apegue apenas ao cantor que, entre rimas e flows, permite-se expurgar o romantismo em hits aos moldes de Mulher e Enquanto você dormia. O músico passeia entre os dois extremos. No novo disco, A milenar arte de meter o louco, lançado ontem, o paulista fala de afeto, mas também de revolta.

Nascido em Lauzane Paulista, na Zona Norte de São Paulo, Projota é um dos artistas que faz a ponte entre o rap underground e o mainstream. Toca em rádios e em trilhas de novelas, mas confessa escrever pensando nos meninos “de vila” que se espelham na sua trajetória. Ama o som dos Racionais, mas tem em Renato Russo uma das inspirações. O cantor que dividiu o microfone com Anitta em Cobertor, em 2014, e viu o número de fãs crescer exponencialmente, não esquece de quando começou a carreira, sem nenhum apoio.

Aos 18 anos, Projota usava o computador do trabalho para postar as composições no finado Orkut e distribuir música entre amigos. Negro e pobre, sofreu com o racismo e a desconfiança de que a vida artística poderia garantir o salário no fim do mês. O sucesso veio um tempo depois. Foi impulsionado, em parte, por uma boa safra que, pouco a pouco, quebra preconceitos com a música genuinamente nascida nas periferias.
 
 

Amizade
Uma parte desses rappers estão em A milenar arte de meter o louco. Mano Brown faz o prefácio do disco. Karol Conka aparece em Mais like. Amigo de infância, Rashid divide os microfones em Segura seu BO. “Eles representam as várias vertentes do rap. É uma geração antes e após a minha. É uma cena que está muito promissora”, comemora o rapper de 31 anos. Porém, como de costume, Projota não se prende aos pares do estilo. Com o duo Anavitória canta a leve e suave faixa Linda. “Qualquer coisa me move. Não me limito nos temas por onde quero navegar. Se estou apaixonado, faço uma música. Se estou p. com o governo, faço outra. É como ir ao psicólogo. De repente, aparece umas neuroses que eu nem sabia que tinha. É um refúgio”, conta.

 Universal Music/Reprodução
A milenar arte de meter o louco
Novo disco do rapper Projota. Universal Music, 12 faixas.

Cinco perguntas /  Projota 

 
Superou o estigma de “rapper” romântico? 
Minhas letras não falam só de amor. No disco novo, só três são sobre isso. A maioria das letras retratam a violência, a política, o indivíduo. Promovo principalmente um levante da autoestima daquele moleque que me ouve. As que chegam à mídia é que são as românticas. Na real, o álbum está bem pesado. Às vezes, não falo tanto sobre política diretamente, porque outras pessoas têm um conhecimento melhor sobre isso para falar. O meu conhecimento é a minha história. Gosto de falar diretamente com a pessoa, com uma mensagem positiva, que dê forças aos moleques de vila, por exemplo. Para que as pessoas acreditem nos sonhos delas como eu acreditei nos meus.

Se incomoda quando dizem que você faz rap de autoajuda?
Já usamos bastante esse termo. Acaba resumindo um pouco a ideia. Recebo mensagens todos os dias falando coisas que são meu combustível. Gente que se inspirou no que passei e vivi. Minha vida melhorou muito financeiramente, mas isso não adiantaria nada se não sentisse o coração aquecido, mantendo o som no qual acredito.

É mais fácil cantar rap hoje do que quando começou? 
Ainda há preconceito, até porque sou negro. Não é preciso nem discutir muito para saber que isso ainda acontece no Brasil. Há discriminação, sim, até porque a maioria das pessoas que cantam rap são negras. É uma música oriunda da periferia, o que gera um preconceito de classe social também. É difícil superar certas coisas. O samba levou décadas para se libertar disso. Estamos em um processo, mas chegaremos lá. Nunca pensei em desistir. Sempre precisei trabalhar três vezes mais, mas segui em frente.

Fazer divulgação nas redes sociais em uma época em que as gravadoras ainda eram disseminadoras de conteúdo mostrou-se uma ótima estratégia? 
Não era uma estratégia, era o único jeito. É daí que vem o nome A arte de meter o louco. Quando parece impossível e não tem pode onde ir, você dá um jeito, faz o que tem que fazer com o que se tem na mão. Eu jogava no Orkut, no YouTube, divulgando para amigos e esperando que as músicas se espalhassem de alguma forma. Foi loucura largar emprego, faculdade. Nenhuma gravadora se interessava por nós, não aparecíamos na televisão. O rap estava desacreditado, a mídia nem olhava para os caras. Mas a gente estava se movimentado de forma underground.

O momento político inspirou alguma composição? 
O disco tem uma raiva contida que, com certeza, se junta com o que está acontecendo. Quase se trata de música, não dá para falar do mesmo tema sempre. No ano passado, lancei O portão do céu, totalmente política. É difícil falar de novo sobre isso, fica redundante. A minha música é de instinto, não pensando “vou falar sobre isso”, aí eu faria uma palestra, deixa de ser música na minha concepção. Tem que vir naturalmente. Nesse momento eu estava olhando internamente, pensando em problemas por que passei. É bastante biográfico.

Outros lançamentos

Hungria 
Nascido na Cidade Ocidental (GO), no Entorno do DF, e radicado em São Paulo, o rapper Hungria disponibilizou o clipe Coração de aço no fim de julho. A música já soma mais de 6 milhões de visualizações no YouTube.

Fábio Brazza
Neto do poeta concreto Ronaldo Azeredo, Fábio Brazza, conhecido por fazer “rap à brasileira”, acaba de lançar o álbum É ritmo mas também é poesia, terceiro da carreira.
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