"A música tem me conservado bastante", diz João Donato ao Correio

Aos 82 anos, João Donato se multiplica em inúmeras atividades e projetos, com vigor extraordinário

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postado em 31/07/2017 07:00

Rogerio Neves/Divulgação
 
João Donato é o único remanescente da geração de músicos, de diferentes nacionalidades, que, no começo da década de 1970, estiveram lado a lado em palcos de clubes de jazz em Los Angeles e São Francisco, na Califórnia – entre eles, os norte-americanos Stan Gets, Chet Baker e Bud Shank; os cubanos Mongo Santamaria e Armando Peraza; e os brasileiros Tom Jobim e Rosinha de Valença.
 
Aos 82 anos, João mantém-se em plena atividade, fazendo shows, gravando discos e atuando como residente artístico da Sala Baden Powell, casa de espetáculos em Copacabana, no Rio de Janeiro. No começo de dezembro – 45 anos depois –, a convite da universidade de Ucla e do Gety Museum, ele volta a Los Angeles para participar de uma série de eventos, intitulada Pacific Standard Time.
 
O genial compositor e pianista acreano aproveitará esse retorno ao tempo para refrescar a memória e recontar sua história, ligada ao latin jazz, em documentário de produção independente a ser feito por sua equipe.
 

» Entrevista //João Donato


João,  qual o segredo para tanta vitalidade aos 82 anos?
Eu sou longevo, talvez por ser acreano e ter tomado muito tucupi, tacacá, açaí; ter comido taperebá, uxi pirarucu; ter tido uma infância saudável e alegre; ter subido em árvore; ter nadado em rio, andado de pé descalço. Pode ser por isso. A própria música tem me conservado bastante, porque quando eu tô pensando, tocando, compondo, falando sobre música não tem espaço para remoer mágoas, pensar no que não é bom. Não tenho pensamentos duvidosos, negativos a respeito de coisa nenhuma. Eu prefiro não opinar sobre coisas negativas. Nem chego a pensar nisso.Tenho muita saúde, graças a Deus. Também gosto de descansar bastante, evito me estressar, durmo bastante. Enfim, acho que é a combinação de tudo isso.

Como avalia o encontro musical com seu filho, que atua em outra sintonia?
A relação de pai e filho tem como base o amor, a compreensão. Não é à toa que o CD se chama Sintetizamor. Desde muito novinho, o Donatinho é o meu companheiro de teclas; me apresentava as novidades sonoras nos jogos, Mario Broder, playstation. Ele tem essa pegada pop, enquanto a minha praia é o jazz. Essas duas esferas se encontram bastante bem em muitas ocasiões na história da música, haja visto o trabalho que o Miles Davis fez já por último. Ele entrou com força no universo pop e deu certo. Enfim, o Donatinho é pop e eu sou jazz, então é um pop-jazz que soa uma delícia!
 
Você abraça a nova geração da MPB?
Olha, a nova geração eu tenho abraçado desde sempre, desde o início, quando Tom Jobim, João Gilberto, Altamiro Carrilho, Paulo Moura, éramos um bando de jovens desconhecidos. Eu era amigo e companheiro de música. Depois, fui para os Estados Unidos, comecei a tocar com o pessoal do jazz, antes de o jazz se tornar uma música popular, algo que veio a se tornar depois com Stan Getz, Chet Baker, Bud Shank; os latinos também, Tito Puente, Mongo Santamaria. Logo em seguida, quando voltei para o Brasil, encontro a Tropicália e rolam os encontros com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa.Um pouco depois chegam Fagner, Fafá de Belém, Clara Nunes, Luiz Melodia, Emílio Santiago. Eu estive (e estou) sempre muito bem acompanhado (risos).

E mais recentemente?
Agora, Adriana Calcanhoto, Fernanda Abreu, Marcelo D2, Carlinhos Brown, Fernanda Takai, Kassin, BNegão, Tulipa Ruiz, Mariana Aydar, Marina de La Riva. No Rock in Rio, vou receber uma homenagem dessas cantoras. Todos eles representam atualmente o que os outros representavam naquela época. Eu é que não passo de geração, vou gerando as gerações (risos) que acabam sempre me procurando e eu vou gostando. Assim, vai havendo uma relação que é uma via de mão dupla, como dizem. É bom pra todos: para quem gosta de música boa, principalmente; e é prazeroso para nós que fazemos música. Fica uma amizade que tem como base a música. Olha só que maravilha!
 
Como foi o encontro com Ronaldo Bastos, do Clube de Esquina? 
A minha parceria com o Ronaldo Bastos não é de hoje. Desde o tempo em que a Adriana Calcanhoto gravou aquele primeiro sucesso, Naquela estação, uma composição originalmente minha com o Caetano. A gente estava lá enrolado para fechar um verso e o Ronaldo chegou e solucionou. “Também não dava mais para tentar” ...e então o Ronaldo complementou: “Te convencer a não partir”. Aí, tornou-se nosso parceiro nessa música. Depois disso, temos feito outras coisas juntos: Caju em flor, gravada pela Nana Caymmi há uns três anos; e outras que não estão gravadas.
 
Já o Bluchanga é o novo trabalho com o seu trio. Em sua obra, o que esse disco representa?
Representa uma sensação de bem-estar, sendo uma coletânea de músicas que eu gosto de tocar distraidamente quando estou no meu piano em casa. Algumas de autoria de compositores que admiro, como Horace Silver (The mochican and thegreat spirit), Clare Fisher (Morning), Tita & Edson Lobo (Uma bênção). Outras músicas a Ivone (Belém) encontrou no baú em cadernos do tempo em que eu morava nos Estados Unidos, com a minha letrinha bem caprichada. Há a que homenageio Duke Ellington (Uma para o Duke) e outra Trident, nome de clube de jazz em Sausalito, onde eu tocava com Chet Baker e Bud Shank. Tantas lembranças de um tempo de inocência.. Enfim, tem a música Bluchanga, que também foi feita naquele tempo e gravada naquele tempo. Capricorn é daquela época e foi gravada no disco que fiz com o Eumir Deodato. E tem ainda Rio Branco, que fiz para minha cidade natal, no Acre.
 
Aliás, o que vem a ser a expressão Bluchanga?
Foi criada por mim, quando eu tocava na orquestra de Mongo Santamaria. Charanga era um tipo de orquestra típica cubana. O nome da orquestra era Mongo Santamaria e sua Charanga . Então, eu fiz uma música para nós tocarmos no circuito de jazz, como Birdland em New York.
 
O que a residência artística da Sala Baden Powell lhe trouxe de positivo?
A cultura sempre fica para trás nos orçamentos dos governos. No momento atual, com a residência artística, a gente tem conseguido preservar melhor  aquele teatro, que leva o nome de Baden Powell e que é tão importante para o Rio de Janeiro. Lá. na programação, além de muita música, tem teatro, poesia, artes plásticas. Uma beleza! A Sala Baden Powell é hoje um santuário para os acontecimentos artísticos de boa qualidade no Rio, com ingressos a preços bastante populares.
 
Mesmo com a Ivone a seu lado, como vem conseguindo viabilizar o projeto de reerguer a Sala Baden Powell?
Na verdade, há uma equipe de produtores, artistas e músicos que se reuniu para manter o espaço com esse astral das artes e da cultura de boa qualidade. Primeiro, arrumamos as comunicações, pois os telefones não estavam funcionando. Cuidamos da divulgação na internet e nos jornais, rádios. Desde a bilheteria, o público se sente acolhido, num ambiente de bem-estar; convidamos o grafiteiro Toz para fazer um painel e colorir as paredes. Quando chegamos, eram todas cinza.

Seus companheiros de ofício têm, então, colaborado com você?
Sim, na música tenho a meu lado Moacyr Luz, BNegão e a cantora e produtora Amanda Bravo, filha do meu amigo e parceiro Durval Ferreira. Na programação, não faltam os meus amigos da bossa nova, do rap, do samba, do choro, de todos os estilos. Já passaram pelo palco, sob nova direção, (risos), Leny Andrade, Áurea Martins, Marcos Valle, Azymuth, Joyce Moreno, Roberto Menescal, Leila Pinheiro, BNegão, Tulipa Ruiz, Chico Batera, Arismar do Espírito Santo, Cordão do Boitatá, Mulheres de Chico, Silvério Pontes, Daniela Spielmann e o brasiliense Gabriel Grossi. Inovamos com uma programação de música clássica nas manhãs de domingo, lotadas. 
 
Brasília deixou de estar entre seus planos, para shows?
Eu amo Brasília. E lanço um desafio: quem me convida para um show? Urgente!
 
Quais são as melhores recordações da cidade, onde conheceu sua mulher, Ivone?
Eu amo o céu azul e as nuvens divertidas de Brasília, aquele ar puro, os passarinhos cantando nas janelas dos prédios. E ainda tem o Clube do Choro. E aí conheci Ivone, o meu grande amor.
 
Serviço
Bluchanga
CD de João Donato, acompanhado por Luis Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Sidinho Moreira (percussão), Leo Amuedo (violão), Ricardo Pontes (flauta) e José Arimatea (fulgelehorn), com 12 faixas. Lançamento: selo Acre Musical. Preço sugerido, R$ 25.
 
Sintetizamor
CD de João Donato e Donatinho, com 10 faixas. Lançamento da DeckDisc. Preço sugerido: R$ 29,90
 
 
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