Jeanne Moreau e a construção do cinema

Morre, aos 89 anos, atriz que deu vida a clássicos das telonas

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postado em 01/08/2017 09:21 / atualizado em 01/08/2017 15:31

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT

Subverter o cenário e andamento das narrativas foi uma constante para a estrela maior do cinema francês Jeanne Moreau, encontrada morta ontem em Paris, aos 89 anos. No cinema, a arma de Moreau sempre foi a surpresa, desde a vestimenta e os propósitos da personagem Julie de A noiva estava de preto (1968) até a amplidão da personagem shakespeariana Doll, encenada em Falstaff — O toque da meia-noite (1965), o filme conduzido por aquele considerado o maior cineasta do mundo, Orson Welles. O cineasta, que dirigiu Moreau em outros dois filmes (História imortal, que explorou linhas de sensualidade, e O processo, baseado em Kafka) a categorizou como a melhor atriz do mundo.

Mas o predicado veio tarde, e apenas reiterando méritos: Moreau era nome firmado como musa da nouvelle vague, nos primórdios do movimento que veio a rejuvenescer o cinema. Adepta do risco na vida – abominando a estagnação –, a atriz não deixou de censurar os artistas “que estão mortos, antes mesmo da própria morte”. Dona de voz grave e personalidade marcante, Jeanne Moreau foi um verdadeiro estandarte nas filmografias de François Truffaut (desde uma ponta em Os incompreendidos, de 1959, até a consagração em Uma mulher para dois, de 1962), e de Louis Malle (que assinalou a controvérsia na parceria com a intérprete, em 1958, com Os amantes), passando por figuração de luxo, no filme Uma mulher é uma mulher (1961), assinado por Jean-Luc Godard.

Com Louis Malle, para quem ainda encenou o dramático Trinta anos esta noite (1963) e Ascensor para o cadafalso (1958), Moreau quebrou padrões, no Festival de Veneza, sob o escândalo do premiado Os amantes, em que uma dona de casa, claramente, assumia insatisfações sexuais. O inconformismo foi marca de muitas personagens de Moreau, e foi patente em O diário de uma camareira (feito pelo espanhol Luis Buñuel, em 1964), na comédia A idosa senhora que andava no mar (pelo qual ganhou o único prêmio César competitivo de melhor atriz em 1992, antes de duas distinções com César, pela obra, em 2008 e 1995).

Inteligência
Reconhecida pela inteligência, Jeanne Moreau foi a única mulher a presidir (em 1975 e 1995) o Festival de Cannes, certame em que se viu premiada em 1960, por Duas almas em suplício, no qual contracenava com Jean-Paul Belmondo. Na fita, baseada em roteiro de Marguerite Duras e dirigida pelo bissexto dramaturgo inglês Peter Brook, a atriz interpreta uma entediada burguesa que testemunha um crime, fato que afetará o próprio curso de sua vida.

Fora do circuito do teatro de personalidades formadas pela Comédie-Française ou mesmo da sétima arte, Moreau, na vida pessoal, não se libertou das artes. Foi casada com o ator Jean-Louis Richard (corroteirista de A noite americana) e com William Friedkin (diretor de O exorcista), vivendo um romance interrompido pela súbita paixão assumida ao lado do estilista Pierre Cardin. Envolvida em quase 150 produções artísticas, a mulher que, como ressaltou no Twitter o presidente Emmanuel Macron, “encarnou o cinema”, naturalmente, quando dirigiu filmes, enalteceu mulheres de peso, desde os bastidores dos longas No coração, a chama (1976) e L´adolescente (1979).

Neste último, Moreau dirigiu ninguém menos do que a colega Simone Signoret (de Almas em leilão), enquanto no anterior, ela deu relevância para a personagem de Lucia Bosé, atriz descoberta pelo gênio Michelangelo Antonioni, com o qual Jeanne esteve à disposição, ao lado de Marcello Mastroianni, no clássico A noite (1961). Com Mastroianni, ela atuou, ainda, no longa O passo suspenso da cegonha (1991), do grego Theo Angelopoulos, e, para Antonioni, Moreau emprestou o talento no penúltimo filme da carreira dele, Além das nuvens (1995).

Além disso, a porção diretora da atriz moldou o documentário Lillian Gish (1983), sobre a pioneira atriz e diretora norte-americana. Mesmo relutante e partidária do desacordo “em tão somente comprazer o público”, como dito numa entrevista, Jeanne Moreau manteve a excelência – que, por exemplo, resplandece em momentos antológicos de Jules e Jim (1962), no qual entona Le tourbillon, e corre ao lado de Henri Serre e Oskar Wener — e o diálogo multicultural permanente com criadores como o isralense Amos Gitaï, com qual realizou Mais tarde, você entenderá (2008) e Aproximação (2007).

A visão ampla rendeu à atriz a participação no drama Joanna Francesa (1973), coprodução francesa assinada por Cacá Diegues, e com participações de monumentos brasileiros como Fernanda Montenegro e Lélia Abramo. Outro diretor de língua portuguesa a dirigir a atriz foi Manuel de Oliveira, que escreveu O gebo e a sombra (2012), detido em questões éticas. Fora das telas, vale a lembrança de que Moreau ajudou a moldar, no século 20, as feições da mulher contemporânea. “Minha feminilidade é inglesa”, chegou a gabar-se, ressaltando o desapego a padrões de comportamento tradicionais.

No Brasil e no mundo
Premiada em Berlim, Veneza e ganhadora até de prêmio Bafta de melhor atriz (atribuído no âmbito do cinema inglês), Jeanne Moreau circulou pelo mundo, nas equipes multinacionais de fitas como Até o fim do mundo (1991), do alemão Wim Wenders; Querelle (1982), baseado em obra de Jean Genet e recriado pelo alemão Rainer Werner Fassbinder e uma trinca de filmes do inglês Joseph Losey – Cidadão Klein (1976), Eva (1962) e La truite (1982).

Estrela de dimensão global em filmes como O Rolls-Royce amarelo (1965), ao lado de Ingrid Bergman, Alain Delon e Omar Sharif, Moreau soube manter a ponte de renome internacional, sacramentado pelo gênio Elia Kazan em O último magnata (1976), longa que cerca a produção hollywoodiana. Moderna, geniosa e potente, chegou longe a filha de uma dançarina com um proprietário de restaurante que ofuscou Brigitte Bardot, em Viva Maria! (1965) e se manteve na ativa em filmes de valores diversos como Nikita (1990), de Luc Besson, e O tempo que resta (2005), de François Ozon. Difícil assimilar que tenha morrido, sozinha, ontem, no bairro de Place de Ternes (Paris).

"Jeanne Moreau é a melhor atriz do mundo"
Orson Welles, cineasta

 
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