A dramaturgia dos palcos de Sam Shepard

Morte do ator causou comoção no mundo do cinema. Obra nas telonas somam quase 70 títulos

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 01/08/2017 09:29

ALBERTO PIZZOLI
 


Filho de um fazendeiro que lutou na Segunda Guerra Mundial e de uma professora de ensino médio, o ator Sam Shepard deixou mais do que uma carreira brilhante nos cinemas e no teatro. A morte do ator – em sua residência no estado norte-americano do Kentucky –, por esclerose lateral amiotrófica, aconteceu no domingo, tendo sido noticiada ontem.

Nascido em 15 de novembro de 1943, na pequena Forte Sheridan (Illinois), o dramaturgo teve uma chegada sem grandes pretensões ao teatro. Com medo dos palcos, mas fortemente atraído por interpretar, Shepard já deixou peças no meio de cenas no início da carreira. Certa vez declarou: “Existe o medo do público e, ao mesmo tempo, você quer desesperadamente adentrar um território novo. Então, de vez em quando, você ganha a oportunidade de fazer essa travessia. É como pular em água gelada”.

Shepard chegou a entrar na universidade de seu estado de nascimento, mas não prosseguiu nos estudos, preferindo seguir a carreira de ator em Nova York, e ganhar a vida também como professor de dramaturgia. Vencedor de prêmio Pulitzer, para além da produção escrita, Shepard se notabilizou pela participação no cinema, com quase 70 filmes como ator.

O consagrado Robert Altman, por exemplo, abraçou o talento de Sam Shepard como ator e criador de Louco de amor, adaptado para o cinema em 1985. Antes disso, Shepard havia alcançado indicação para o Oscar de melhor ator coadjuvante, em Os eleitos – Onde o futuro começa (1983), a cargo de Philip Kaufman. Na pele de Chuck Yeager, o ator e dramaturgo despontou ao lado de colegas como Dennis Quaid e Ed Harris, num longa que obteve quatro prêmios Oscar. O cinema ainda rendeu indicação ao cobiçado prêmio Bafta, quando em 1984 concorreu pelo cultuado Paris, Texas, ao ser responsável pelo roteiro do longa assinado por Wim Wenders.

Como diretor de cinema, o autor de mais de 40 peças se destacou em duas ocasiões: dirigiu River Phoenix e Alan Bates em O espírito do silêncio (1983) e, em A casa de Kate é um caso (1988), coroou a parceria (também doméstica, por longos anos) com a atriz Jessica Lange. A estrela e companheira contracenou com ele também em Frances (1982) e Minha terra, minha vida (1984).

Lembrado pelos mais novos por filmes como Álbum de família (2013), em que esteve ao lado de Julia Roberts e Meryl Streep, Shepard compareceu ainda em Amor bandido (sucesso de 2012). Deixa um thriller inédito nos cinemas, Never here. Ele se afirmou para os espectadores dos tempos de Netflix, como o Robert Rayburn, de Bloodline (2015).

Figura de ponta em clássicos do cinema como Cinzas no paraíso (1978), monumental obra de Terrence Malick, Shepard ainda esteve em Ressurreição (1980), estrelado por Ellen Burstyn. Na televisão, entre outros personagens, o ator foi notabilizado como o autor Dashiell Hammett, em Dash e Lilly (1999), pelo qual concorreu a um Globo de Ouro, na série estrelada por Judy Davis, atriz que interpretou a escritora Lillian Hellman. O ator deixa três filhos – Jesse, Hannah e Walker – e duas irmãs: Sandy e Roxanne.


O que eles disseram
"Sam Shepard. Nos anos 80, uma referência grande para mim, adolescente, escrevia peças, roteiros e atuava em filmes bons. Respeito. Rip"
Kléber Mendonça Filho, diretor, no Twitter


"Sam Shepard é um dos grandes. Esses olhos viram tanto, e ele escreveu sobre o que viu com honestidade destemida e atemporal. RIP maestro"
Beau Willimon, produtor, via Instagram



Momentos marcantes no palco

Buried child
Responsável por tornar Shepard conhecido nacionalmente, a peça Buried child — um drama familiar no meio rural estadunidense que mistura mistério, comédia e tragédia — estreou em São Francisco em 1978. No ano seguinte, a obra conquistou o prêmio Pulitzer. Em 1996, a montagem foi levada para a Broadway e indicada a cinco Tony Awards.

A lie of the mind
Escrita e dirigida por Sam Shepard, A lie of the mind estreou no teatro Promenade, em Nova York, no ano de 1985. Faziam parte do elenco atores como Amanda Plummer (Pulp fiction), Harvey Keitel e Geraldine Page. O espetáculo recebeu uma adaptação brasileira dirigida por Paulo de Moraes, com o título Mente mentira.

Louco de amor
Apresentando a história de um casal de ex-namorados que acaba se encontrando anos depois em um hotel, a peça foi finalista no Pulitzer de 1984. Foi adaptada no Brasil por Francisco Medeiros, em uma montagem que contava com Umberto Magnani (Velho Chico) no elenco. Na versão brasileira, o diretor diminuiu os estereótipos de caubói do protagonista e o deixou mais urbano.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.