Luiz Melodia criou um estilo particular e fora dos padrões

Para alguns pesquisadores, o modo de cantar dele não tem herdeiros

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postado em 05/08/2017 07:00

 Marcos Hermes/Divulgacao

Aos 20 anos, Luiz Carlos dos Santos era visto como um compositor de grande potencial. Em 1971, chamou a atenção dos poetas e letristas Wally Salomão e Torquato Neto, frequentadores da boemia do Morro do Estácio, no centro do Rio de Janeiro, onde o jovem franzino morava com a família. Ali, ficaram impressionados ao tomar conhecimento de algumas das músicas de autoria daquele rapaz de voz inconfundível.

Wally fazia, com Jards Macalé, a produção do Fa-Tal, show que Gal Costa estrearia pouco tempo depois no Teatro Teresa Raquel, em Copacabana. O repertório já estava fechado, mas, ao ser apresentada às canções de Luiz Melodia, a cantora baiana imediatamente se apaixonou por Pérola negra, que viria a se tornar um dos pontos altos do espetáculo.

Gravado ao vivo, Fa-Tal se tornaria um álbum antológico na discografia da musa do tropicalismo, e foi responsável por revelar para o Brasil aquele novo talento carioca. No ano seguinte, o filho do sambista Oswaldo Melodia iniciaria oficialmente a carreira ao lançar o primeiro LP, não por acaso intitulado Pérola negra.

Desde então, Melô (como era chamado pelos amigos) desenvolveu uma trajetória de sucesso, interrompida na madrugada de ontem. Por volta das 5h, a música popular brasileira perdeu um dos seus maiores criadores. Em 46 anos de carreira, ele construiu um legado de 14 discos, dois DVDs e clássicos como Estácio, holly Estácio (lançado por Maria Bethânia), Magrelinha (interpretada originalmene por Zezé Mota), Juventude transviada, Ébano, Farrapo humano e Fadas — essa última composta em parceria com o guitarrista piauiense-brasiliense Renato Piau.

Com 66 anos, o músico perdeu a luta contra o câncer na medula óssea. Um dos primeiros a tomar conhecimento da morte do amigo foi Piau que, durante muitos anos, o acompanhou no palco e nas gravações. Foi ele que comunicou à família o óbito. Tentando a recuperação, Melodia chegou a fazer um transplante de medula óssea e resistiu ao tratamento, mas não vinha respondendo bem à quimioterapia no hospital Quinta D’Or. Agora é só saudade.
 

Luiz Melodia tinha voz e estilos singulares

Luiz Melodia ocupava lugar único na música brasileira. Não tinha antecessores nem deixou sucessores e construiu um espaço singular no cenário musical nacional. É um lugar que o pesquisador e musicólogo Ricardo Cravo Albin chama de “limbo no paraíso das originalidades”. Luiz Melodia, Albin compara, foi um time de futebol inteiro quando se trata de inovar. Da voz às composições, trouxe um novo ar para os palcos e gravadoras. “Era uma voz excepcional, como só os grandes cantores universais têm, aquela voz que vem da alma, das vísceras”, descreve.
 
 
 
Descoberto nos anos 1970 com Pérola negra, gravada por Gal Gosta, Melodia começou a fazer sucesso na mesma década que viu surgir nomes como Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Cartola e Nelson Cavaquinho. “Foram anos muito especiais, a volta do samba, a hora e a vez desses sambistas”, conta Albin. “E Melodia é um compositor igualmente excepcional, ele foi uma das estrelas mais reluzentes desses anos 1970. E ele ficou como um espécime isolado e original do porte do nosso Gonzaguinha.”
 
Além da originalidade da voz, Alvin aponta a excepcionalidade das composições do artista, poeticamente únicas e singulares. “E ele vem da miséria, do morro de São Carlos. Não é um sambista, como seria natural, um sambista um pouco mais leve. Pelo contrário, ele se fez um músico, digamos, universitário dentro de um nível de gente do porte de Chico, Caetano, João Bosco, ou seja, foi uma pessoa dentro dessa corrente”, diz o musicólogo, que foi amigo do artista.

Para o pesquisador e crítico Tárik de Souza, autor de Tem mais samba e Rostos e gostos da MPB, Melodia é “um desses originais absurdos que aparecem assim de vez em quando na música brasileira”. O crítico compara o artista a Jorge Ben e Dorival Caymmi: figuras que, segundo ele, vêm do nada e criam um tipo de música completamente diferente. No caso de Melodia, uma mescla de samba e blues até então inédita no cenário brasileiro. “Ele chamava de blues do Estácio, mas é samba, blues, um pouco de jovem guarda, tudo misturado, um grande compositor. Um compositor de letras atomizadas, completamente diferente das letras que existiam na época, que as pessoas faziam, mesmo dentro do tropicalismo. Ele era uma figura diferente, não se misturava com nada, mesmo a origem dele no Estácio, não se confunde também com o samba que se fazia no Estácio”, diz Souza.

Para ele, Melodia não deixa descendentes porque criou um estilo muito particular e fora dos padrões. Souza costumava dizer que o artista poderia ser um sucessor de Jamelão, por conta do tom da voz. “Ele tinha aquele timbre vocal muito límpido, muito forte, muito metálico. E era o rei do cover, ele gravou o Negro gato e deu um banho no Roberto Carlos. Gravou o Codinome Beija-flor muito melhor que o Cazuza”, lamenta o crítico.

Fagner lembra de Melodia como um companheiro de geração. Os dois batalharam pelo primeiro disco na mesma época e na mesma gravadora, Philips, na qual o artista gravou Pérola negra, em 1973. “Nossa primeira gravadora, eu adorava o Melodia. A gente batalhou muito pelo primeiro disco, a gente se via constantemente, os lugares eram quase os mesmos, na gravadora e tal. A gente foi ficando muito amigo, ele participou de disco meu também”, conta Fagner. “Ele enfrentou muito preconceito. E tinha uma voz! As músicas dele eram diferenciadas, tinham características da origem dele, ele tinha uma identidade com o que fazia.”

Vizinho de Melodia na Gávea, João Donato conta que fez arranjos para várias músicas do cantor e compositor, incluindo Poeta do morro e Sorri pra Bahia. “Melodia vai deixar saudades porque, além de ser um grande criador de melodias, também agregava muito a classe artística e conquistou no meio vários amigos.”

O violeiro Roberto Correa passou a escutar Luiz Melodia na década de 1980. Era um jovem adulto e, depois de se debruçar sobre o rock nos anos 1970, descobriu a MPB. “Uma das pessoas que admirava pelas suas composições era Luiz Melodia, ele trouxe uma coisa nova pra MPB. Primeiro como artista, suas composições eram diferenciadas, ele tinha um jeito especial de fazer música, era uma contribuição genial, isso me tocava”, lembra.

Depoimento 

“O Luiz Melodia foi uma verdadeira pérola negra e continua sendo através de suas músicas tão vivas, que influenciaram tantos músicos e compositores que surgem e vão surgir. Essas músicas vão continuar influenciando muitos artistas porque seu trabalho é riquíssimo. Ele contribuiu muito para a cultura brasileira com sua voz e arranjos  incríveis. Acho que se alguém perguntar por Luiz Melodia, vamos ter sempre aquela lembrança de que ele foi por aí levando o violão debaixo do braço”.

Alberto Salgado, músico brasiliense

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