Artigo: Poucos artistas brasileiros foram tão originais quanto Luiz Melodia

O cantor e compositor morreu na sexta (4/8)

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postado em 05/08/2017 07:00 / atualizado em 05/08/2017 09:18

Guto Costa/Divulgação

 
Corria o ano de 1973 quando apareceu nas lojas um disco com a foto de um sujeito segurando um globo terrestre sobre um punhado de feijões crus. Na contracapa, um círculo com uma colagem de fotos estava sobre os mesmos feijões, mas ao lado apareciam um garfo e uma faca. Era a estreia de Luiz Melodia no disco.

Foi um ano especial. E de muitas estreias: Fagner mostrou Manera fru fru manera, Raul Seixas incorporou Tarzan em Krig-ha bandolo!, Sérgio Sampaio pôs seu bloco na rua, Secos & Molhados viraram o país do avesso, Zé Rodrix solou seu 1º Acto, Walter Franco mexeu cabeças em Ou Não? e João Bosco chegou atirando bala com bala.

Nessa efervescência, Luiz Melodia chegou impondo clássicos incontestáveis, que inauguraram o que pode ser considerada a moderna música popular brasileira. Com Pérola negra, Estácio holy Estácio, Magrelinha e Estácio eu e você ele se colocou imediatamente como objeto de culto. Mas o sucesso popular só viria depois, e graças à tevê.

A mistura sonora que ele propôs, mesmo mantendo os pés no morro de São Carlos, no Estácio; a costura de versos nervosos e urgentes, que driblavam a censura e vinham amaciadas pelos excessos; e a voz metálica e extensa, com uso moderado de vibratos, cerziram toda a carreira, que alternou momentos de grande exposição com mergulhos no ostracismo.

No primeiro disco, a censura proibiu duas canções (Feto, Poeta do morro e Feras que virão) e vetou versos que, em represália, Melodia substituiu por qualquer coisa — em Pra Aquietar, por exemplo, o non sense vem das canetadas que a letra original sofreu. Dois anos depois da estreia, Melodia chegou à final do festival Abertura com Ébano, mas a consagração popular veio com a novela Pecado capital e a música Juventude transviada.

O estilo de Luiz Melodia nasceu das múltiplas influências que ele recebeu desde criança. Esteve exposto ao ritmo do Estácio, o berço do samba como se conhece hoje — foi lá que Ismael Silva fundou a escola de samba Deixa Falar — e, acompanhando o pai boêmio Oswaldo, de quem herdou também o sobrenome artístico, conheceu boleros e sambas-canções (teve planos de gravar um disco só com canções de Lupicínio Rodrigues).

Mas o jovem Melodia também andou de braços dados com o iê-iê-iê, atuando em conjuntos como Os Instantâneos. A primeira vez que ele fez sucesso foi no rádio, quando, como calouro, cantou Rosita, sucesso de Roberto Carlos. Mais tarde ele gravaria O broto do Jacaré, Quase fui lhe procurar e devolveria o sentido original de Negro gato.

Da mistura surgiu uma música absolutamente original, ainda que sazonal — ele dizia que só compunha quando a canção vinha naturalmente, sem forçar; que preferia não ficar procurando versos — e com alguns parceiros fundamentais, caso de Perinho Albuquerque, guitarrista que produziu a maior parte de seu disco de estreia, e de Renato Piau, violonista que, segundo Manoel de Barros, pode até dar nome a relâmpagos e esteve com ele até o fim.

O último disco de Luiz Melodia foi Zerima, de 2014, e mostra um cantor e compositor ainda destemido com a chama da inovação intacta — que teve a sagacidade de recuperar uma das mais belas canções de Sergio Sampaio, colega de maldição, Leros e leros e boleros, e Maracangalha, de Dorival Caymmi (com o filho Mahal Reis, que canta um rap no último disco), além de apresentar nove canções originais, incluindo Cheia de graça, Sonho real e Dor de carnaval.

Poucos compositores brasileiros foram tão originais, poucos cantores foram tão expressivos, poucos artistas foram tão audazes — é como se as proverbiais sete vidas do negro gato tivessem sido vividas numa só. Numa hora em que nossa música popular afunda, aos brasileiros, resta o lamento de perder mais um pouco de poesia e de melodia.
 
 
 
 

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