Entrevista com Rodrigo Hilbert, um 'homão' daqueles!

Ele rejeita o título de 'super-homem'. Pé no chão, o apresentador prefere se aproximar das coisas simples, da família e das raízes, inclusive na cozinha, lugar onde revolucionou a própria carreira

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postado em 08/08/2017 07:18 / atualizado em 08/08/2017 12:31

Ney Coelho/Divulgação
 


Rodrigo Hilbert nunca entrou em uma sala de aula para aprender qual a melhor técnica de cozimento a vácuo ou o molho mais apropriado para acompanhar um magret de pato. Tudo que sabe sobre a cozinha (também sobre a vida) é fruto da relação familiar. As receitas são simples, pé no chão e sem invencionices. Ele aprendeu com a mãe, Suzete Hilbert, a suprir as próprias necessidades. E ponto. Além das caçarolas, o menino curioso de Orleans, em Santa Catarina, pinta, borda e se sente à vontade com as atividades domésticas. Subverte o status quo da mesma forma que a mulher, Fernanda Lima, à frente do programa Amor & Sexo, da Rede Globo. O episódio de Tempero de família, na Paraíba, com o apresentador fazendo uma peça crochê, sacramentou de vez um título com o qual ele não se sente tão confortável: “Homão da porra!”. “Não aceito o ‘título’, pois não considero nada do que eu faça extraordinário. Existem tantas outras pessoas no mundo fazendo mais do que eu. Quantas mulheres hoje não lutam por causas maiores? Quantos discursos de fato precisamos engrossar para voltarmos a ser pessoas autônomas e donas de nós mesmas?”, rebate. Na nova temporada do programa, que estreia amanhã, o foco se volta às raízes brasileiras no além-mar. Rodrigo Hilbert faz do Rio de Janeiro uma sucursal de Lisboa com a Tasca do Tempero de Família, onde quem impera é a cozinha portuguesa. Vinhos, doces conventuais e bacalhau preenchem as taças e caçarolas.



Entrevista Rodrigo Hilbert

Comecei a cozinhar por necessidade, minha mãe trabalhava fora e eu precisava terminar o almoço que ela deixava pré-pronto para todos almoçarem. Aprendi muita coisa com essa experiência e olhando minha avó e minhas tias na cozinha, e também o meu avô, que adorava cozinhar e reunir a família. Mas aprendi muito também nas minhas andanças com o programa. Ao longo das últimas temporadas do Tempero de família, visitei inúmeros lugares e famílias, aprendi muito mais sobre culinária do que eu poderia imaginar. Cozinhar, para mim, é a possibilidade de reunir quem mais gostamos em torno da mesa e prolongar os dias da melhor maneira possível.

O programa Tempero de família tornou-se um dos mais assistidos do GNT e revolucionou sua carreira. Você se vê mais como um chef, apresentador, modelo, ou misto das três coisas?
Antes de tudo, preciso esclarecer um equívoco muito comum: eu não sou chef, sou cozinheiro. Nunca estudei gastronomia, cozinho por diversão e prazer. Dito isso, eu destacaria que sou um misto de muitas coisas. Comecei a trabalhar aos 12 anos, auxiliando meu avô na oficina dele, aos 17 fui para São Paulo trabalhar como modelo e, mais tarde, me mudei para o Rio de Janeiro, onde iniciei a vida artística e tive oportunidade de vivenciar várias interseções das artes. Sou um cara disposto a aprender com a vida. Espero ainda aprender e vivenciar muitas experiências que acrescentem ainda mais à pessoa que sou hoje.

Como enxerga o casamento entre entretenimento e gastronomia?
Assisto a alguns outros programas de culinária, mas não sou um cara muito ligado em televisão. Posso falar sobre a experiência do Tempero. A ideia do nosso programa surgiu quando a Fernanda convidou uma grande amiga nossa para um almoço de domingo lá em casa. A Gisela Matta filmou toda aquela bagunça e muito tempo depois aquilo acabou virando o projeto de um programa, criado por mim, pela Fernanda, pelo Antonio Amancio e pela Gisela. Foi tudo muito despretensioso e inesperado, mas, para nossa surpresa, tudo deu muito certo. Fizemos uma primeira temporada em Santa Catarina e tivemos um retorno muito bacana do público. Desde então, já se vão 19 temporadas e dois livros de receitas do programa – o segundo estamos lançando agora no mês de agosto.

E o que explica esse sucesso?
Acho que, de alguma forma, as pessoas se identificaram com o programa. Quando escrevemos, produzimos e executamos o programa, tentamos sempre trazer novas coisas para o espectador: uma nova receita, um novo lugar, uma nova história, uma nova experiência, mas nunca esquecendo que a cozinha é o melhor lugar para dividirmos isso tudo com as pessoas que amamos.

Nos programas, você sempre mostra como vivem os produtores e produtoras rurais. O Brasil, majoritariamente urbano, se distanciou muito dessas raízes?
Venho de uma cidade do interior de Santa Catarina, onde, até algum tempo atrás, restaurantes e afins não eram comuns na cidade. Lembro de quando criança minha família e meus vizinhos também terem horta, criação de animais e nos alimentarmos daquilo que produzíamos. Hoje continuo tentando me alimentar assim. Lá em casa eu, a Fernanda e as crianças consumimos muitas coisas que são produzidas no nosso sítio. É uma forma mais saudável de nos alimentarmos e sobretudo de sabermos a procedência daquele alimento. Em nossas andanças com o Tempero, vimos que muitas outras muitas famílias vivem assim também: plantando, criando, consumindo, vendendo e tirando dia a dia o sustento delas por meio da terra. Acredito que já tivemos um momento em que as pessoas se esqueceram de onde os alimentos vinham, mas acho que aos poucos essa consciência vem retornando, e cada dia mais as pessoas têm dado importância ao que colocam na mesa de suas casas.

Certa vez, vi uma entrevista em que você não se sentia confortável com o título de “homão da porra”, por não fazer muito mais do que muitas mulheres fazem diariamente. Ainda somos subvalorizadas?
Tive a sorte de crescer ao lado de mulheres fortes. A minha criação, a dos meus irmãos, primos e de toda a família em geral, foi baseada em grandes exemplos femininos: minha mãe, minha avó, minhas tias. Acho essa história de “homão da porra” uma grande brincadeira e não aceito o “título”, pois não considero nada do que eu faça extraordinário. Existem tantas outras pessoas no mundo fazendo mais do que eu. Quantas mulheres hoje não lutam por causas maiores? Quantos discursos de fato precisamos engrossar para voltarmos a ser pessoas autônomas e donas de nós mesmas? Acho legal ser inspiração para que mais pessoas se arrisquem na cozinha, ou para que mais pessoas se arrisquem a serem “metidas” a faz-tudo, mas acho ainda mais legal darmos voz a realmente quem merece e tem algo a nos ensinar.

Cozinhar, tricotar, ser artesão. Muitas das suas habilidades são atribuídas ao sexo feminino. Como vê a questão do gênero hoje? Fernanda Lima, por exemplo, derruba muitos desses tabus em Amor & Sexo. Vocês levam esses assuntos para casa, para a criação dos filhos gêmeos?
Como já disse anteriormente, tive a sorte de ser criado em maioria pelas mulheres da minha família. Tenho certeza que muitas das minhas habilidades vêm dessa raiz, assim como outras herdei do meu avô, e outras nasceram comigo, e assim se formam as personalidades. Tenho em casa uma mulher forte, decidida, estudiosa e que, assim como eu, teve exemplos de força feminina dentro da família. Fernanda é uma mulher incrível e que se propôs a debater abertamente com o público assuntos até então velados pela sociedade. Criamos nossos filhos em parceria, tentando orientá-los explicando que as diferenças acima de tudo precisam ser respeitadas.
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