Festival de cenas curtas reúne jovens que produzem teatro no DF

1/4 de Cena ajuda a dinamizar o processo criativo e a ampliar circulação de artistas

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postado em 09/08/2017 07:30 / atualizado em 09/08/2017 10:34

 
 
Saua Filmes/Divulgação
 
A primeira edição do festival 1/4 de Cena chega para completar a movimentada safra atual do teatro brasiliense. O projeto, com codinome Furando a Bolha, vem para possibilitar que um maior número de trabalhos independentes possam ser produzidos na cidade, com espaço de apresentação e circulação disponíveis. A diversidade de estéticas e linguagens é uma das fortes características do festival, que reúne grupos, coletivos e artistas individuais de maneira democrática e ampla.

A mostra competitiva conta com 12 cenas, que levam ao palco jovens atrizes e atores com produção forte e contínua no Distrito Federal. A premiação conta com a atriz brasiliense Rosanna Viegas como mestre de cerimônias e apresentação da banda Talo de Mamoma, além do performer Vanderlei Costa.

Janaína Mello é atriz, produtora e curadora geral do festival. Para ela, o formato de cenas curtas dinamiza o processo criativo e amplia as possibilidades de circulação dos artistas, promovendo uma cena mais autônoma e produtiva. Um festival regular, por sua vez, dinamiza o setor, aproxima o público e, para o artista, é uma oportunidade de receber feedback dos pares e do espectador.

“Tivemos 140 inscritos, logo na primeira edição, com diferentes formatos, alguns mais maduros, outros menos. Por isso, como parte do festival, oferecemos um Laboratório de Criação para Cenas Curtas e outras atividades formativas”, conta. A ideia é propor a relação entre diferentes linguagens artísticas e a comunidade, identificando dificuldades e promovendo a criação acessível a todos os públicos.

A curadoria buscou selecionar representantes das diversas áreas e linguagens que dialogam com a dinâmica da cena curta, assim como mesclar trabalhos inéditos, experimentos e cenas já consolidadas. Janaína conta que a opção por solos, que compõem 80% do festival, foi um acaso que demonstrou a realidade da produção local da cena curta, composta majoritariamente por monólogos com grande variedade de técnicas e estilos. “A avaliação da curadoria procurou perceber os aspectos dramatúrgicos de cada proposta, assim como as qualidades e presenças das atrizes, atores, bailarinos, bailarinas, palhaços, palhaças e performers”, afirma a coordenadora.

Nos palcos

O ator José Reis apresenta a cena Pós-Frango no festival, uma dança que levanta estereótipos impostos ao corpo e trabalha com a ideia de um homem-frango, versão compacta de uma obra maior, chamada Frango. Para o ator, são projetos como esse que abrem caminhos para a emergência de trabalhos em amadurecimento, pois dão lugar a obras abertas e valorizam o risco criativo. “Eu já vi processos artísticos serem interrompidos ou extintos porque a ambição de se chegar a uma obra perfeita e acabada era maior do que o carinho que e o cuidado que o trabalho pedia”, declara.

Desta maneira, pensar a cena curta é partir de uma simplicidade para uma complexidade, é não esperar um grande projeto e sim dar vazão a pequenas coisas, cultivar pequenos desejos, criar em outra lógica temporal. José destaca que é nesse tipo de festival onde se dá espaço para o inacabamento, para a flexibilidade de ideias.

Enquanto isso, a atriz e performer Luara Learth apresenta a peça Flecha, criada em Lisboa, em um programa de estudo e pesquisa em criação coreográfica. O trabalho fala de relações com o corpo a partir de uma perspectiva ancestral, sexual e mitológica. “Ultimamente, tenho trabalhado muito com os limites do corpo em relação ao tempo e ao espaço, e como o próprio tempo é um fator coreográfico que muda o corpo, a presença e o lugar”, conta a atriz. Para ela, o importante é que o trabalho se complete com as experiências de cada espectador presente nas apresentações. A criação pode ser vista, desta maneira, pelos olhos do público, ganhando diferentes significados e percepções.

A mostra competitiva

Durante os três dias de mostra, público e júri convidado escolherão as melhores cenas. Cédulas de votação serão distribuídas ao público e a cada dia da mostra uma cena indicada pelo voto popular será premiada. O júri, composto de artistas locais e nacionais, irá escolher uma cena, considerando questões como interpretação, dramaturgia, composição e presença. Assim, as 12 cenas apresentadas entre os dias 10 e 12 de agosto concorrem a quatro premiações, uma por dia, pelo público e uma geral pelo júri. Ao todo, a seletiva contou com 140 inscrições de cenas curtas de até 15 minutos.




Duas perguntas/ José Reis e Luara Learth


Qual a força e a fraqueza do teatro brasiliense?
José Reis — O teatro brasiliense carrega o luxo de poder ser experimental. Não há uma tradição que cobre um tipo de se fazer teatro na cidade. Isso é um privilégio imenso para os criadores, porque deixa os pontos de partida e de chegada, quando existem, ilimitados. Há uma diversidade e uma permissibilidade na produção brasiliense que espantam qualquer estrangeiro. De outro lado, faltam espaços acessíveis para a pesquisa criativa, para os ensaios e para as apresentações.

As pautas dos teatros são caríssimas e isso abafa as criações independentes, pois as torna dependentes de um edital que cubra minimamente os gastos de realização do trabalho. É quase uma regra. Sem edital, não há trabalho, não há estreia. Falta uma sala pública que possa ser utilizada de maneira independente para um grupo desenvolver sua peça, sua performance, seu manifesto artístico. Arte é anterior a edital, é necessidade de corpo, é modo de existir. Fico muito feliz com os festivais que têm sido produzidos a contragosto dos orçamentos estatais, com insistência e com a constatação de que o mundo precisa de arte.


Qual a importância de projetos como o ¼ de Cena para o Teatro na cidade?
Luana Learth — O 1/4 de cena na minha visão é uma possibilidade de partilhar materiais e pesquisas que não estão formatados na duração que normativamente se entende como satisfatória enquanto espetáculo, tendo toda a logística de produção e divulgação já resolvidas pelo festival. Dessa forma, elas conseguiram abarcar as produções de alguns artistas não institucionalizados, que não teriam oportunidade de partilhar seus trabalhos em outros festivais. O que é bonito também é que a curadoria selecionou trabalhos de estéticas muito diferentes, e vai ser interessante ser permeada por isso. Com certeza, o trabalho vai ganhar outras camadas que eu ainda nem sei, além de atingir outros públicos.
 
 

Festival 1/4 de Cena
De 10 a 13 de agosto, sempre às 20h, no Teatro Sesc Garagem (913 sul). Confira a programação completa no site do Correio.
 
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