Cão sem plumas: Espetáculo de Deborah Colker fala de um Brasil maltratado

A montagem é baseada em poema de João Cabral de Melo Neto. Em entrevista, Deborah Colker comenta sobre o espetáculo, que tem apresentação no sábado em Brasília

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postado em 12/08/2017 07:30 / atualizado em 12/08/2017 13:05

Deborah Colker/Divulgação

João Cabral de Melo Neto publicou Cão sem plumas em 1950. Pelos versos que acompanham o curso do rio Capibaribe desfila o “ventre triste de um cão”. É um rio que, “como um cão sem plumas”, “nada sabia da chuva azul”. O rio que atravessa a cidade como espada sabia muito da lama, do lodo, dos caranguejos. A imagem de descaso e miséria que assustou João Cabral e o levou ao poema naqueles anos 1950 causou igual impacto na coreógrafa Deborah Colker, que transformou os versos do pernambucano no espetáculo Cão sem plumas, com apresentação única neste sábado (12/8) em Brasília, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães.


“João Cabral escreve esse poema em Barcelona. Ele lê uma estatística de expectativa de vida na Índia, que em 1950 era de 29 anos. E em Pernambuco, de 28 anos”, conta Deborah. “Ele leva um susto e escreve o poema. Era degradante, totalmente miserável. E é uma situação que continua a mesma ou pior, porque algo que não se resolve e acontece desde 1950, só piora, todo mundo sabe disso.”

Cão sem plumas, o espetáculo, começou a ser gestado em 2014, logo depois de Deborah estrear Belle, com coreografia inspirada no romance Belle de jour, de Joseph Kessel. O universo literário não era estranho à coreógrafa, que já trabalhou com textos em Cruel e Tayana, mas a poesia é uma novidade. “A poesia é irmã da dança”, avisa. “E, no caso de João Cabral, é árida, crua, contundente, brutal, em cada palavra você vê aquela lama, aquela pedra, aquela terra, aquele homem, aquele caranguejo”.

Deborah já tinha uma parte do roteiro do espetáculo quando viajou com a companhia para a nascente do Capibaribe, no ano passado. A intenção era acompanhar o curso do rio e filmar os bailarinos enquanto interagiam com as paisagens e os habitantes. Acompanhada do diretor Claudio Assis e dos músicos Lirinha e Jorge du Peixe, um dos fundadores do movimento Mangue Beat, a coreógrafa captou as cenas que pontuam todo o espetáculo. Foram 23 dias de filmagens e experiências que envolveram oficinas e saraus com artistas locais em busca de referências musicais e corporais para criar a coreografia.

“A gente apresentava o resultado das oficinas e convivia com essas pessoas, então a gente foi para ensinar, mas aprendeu muito mais que qualquer coisa. A gente já não sabia mais quem era aluno e quem era professor ali”, conta Deborah.

No palco, a lama, os movimentos dos caranguejos e uma mistura que tem coco, maracatu e outros ritmos do agreste pernambucano dão o tom da coreografia. São cenas que Deborah extraiu do poema e, com certa coragem, transformou em metáforas, apesar de ouvir frequentemente declarações sobre a rejeição do poeta quanto à figura de linguagem. Aulas com o acadêmico Antônio Carlos Secchin ajudaram a entrar no universo erudito dos que estudam João Cabral, o que foi importante para compreender alguns aspectos da obra. “Todo mundo diz que a poética de João Cabral é muito crua, que ele odiava metáfora. Eu acho isso muito estranho para um poema que se chama Cão sem plumas. Cão não tem pluma, isso é uma metáfora, é o cão sem brilho, abandonado, solitário, mendigo”, analisa.

Cão sem plumas é um espetáculo sobre o que Deborah Colker aponta como inconcebível e inadmissível. As imagens do filme incluem os bailarinos dançando no mangue, em meio aos caranguejos, à beira do rio, em regiões de seca, com o chão craquelado de uma terra que não via água há meses, mas também em favelas e lixões do Recife. A estética da lama é a estética da pele, algo que, desde o início, esteve presente na maneira como a coreógrafa enxerga tanto o poema quanto a coreografia.

Há oito anos, o nascimento do neto Theo, que sofre de uma doença genética de pele, fez Deborah encarar a vida de maneira diferente. A personalidade proativa e acostumada a encontrar soluções para colocar em prática ideias muitas vezes complicadas esbarrou no insolúvel de uma doença incurável. “Quando reli Cão sem plumas foi arrebatador. Veio como uma flecha. E num momento em que eu tava com certas percepções da vida. Pensei que era incrível porque era um poema sobre o rio Capibaribe, mas sobre todos os rios do mundo, sobre os ribeirinhos, mas sobre todos os ribeirinhos do mundo, sobre o descaso”, diz.

Enquanto João Cabral fala de um homem saqueado, mastigado, podado, ele fala também do descaso. “Um descaso do homem em relação ao próprio homem, em relação à natureza, às crianças, à vida. E tem essa história objetiva, ligada ao nascimento do meu neto, que me colocou no colo algo que não teria solução, não teria cura, algo que é como se fosse o impossível”, revela a coreógrafa. O Brasil de Cão sem plumas não é incurável e Deborah Colker acredita que é possível encontrar um remédio, desde que a resignação não se instale na mentalidade dos brasileiros.

Ponto a Ponto / Deborah Colker

Força
Sou assim: quando quero algo, tenho minha força de vontade, vou lá e aconteço. E aí tive que lidar com isso de uma maneira diferente, com a busca, com a provocação, com a vida de uma maneira diferente. Cão sem plumas fala de cada passo que eu vinha dando. É um poema geográfico e, além de ser universal, ele vai descrevendo aquele lugar e você percebe que aquele é o seu lugar. Aqueles homens caranguejos, saqueados, mastigados, roubados são, ao mesmo tempo, resistentes, teimosos, guerreiros. Aquela terra afirma a pele dele, aquela terra é quem ele é, é a existência dele. Então tem uma força. É a tragédia e a riqueza convivendo junto. Ele é muito geográfico, mas é muito humano, fala muito da existência.

Metáfora
A metáfora não foi o instrumento. O instrumento de trabalho para a coreografia foi o poema. João Cabral foi meu timoneiro. Todo o espetáculo é uma viagem proposta pelo poema, como esse rio começa pequenino, como ele se expõe, como ele seca, como ele vai crescendo, como vai ficando denso, como se encontra com o mar e forma os mangues, como fica maior ainda e chega na cidade grande, constrói as cidades e as favelas e abastece aquela cidade, aquelas vidas.

A coreografia
Esse espetáculo é sobre o inconcebível, o inadmissível. Isso não deveria existir, não deveria ser permitido, não deveria existir uma seca com uma situação que as pessoas vivam em uma condição tão cruel com alguém que diz que é impossível de resolver. Sei o que é isso por causa de uma coisa pessoal, entrei em contato com um mundo relacionado a isso, e quando você ouve dizer que “é assim e assim será”. Não pode, temos que lutar, a gente tem que provocar, buscar. O ser humano tem a obrigação, a missão de não permitir a existência disso. Tem que ser inadmissível, inconcebível e pronto. Ninguém tem que olhar e se acostumar e dizer “é isso”.

Denúncia
O poema denuncia isso, mas de maneira alguma é panfletário. Nem meu espetáculo é. É muito maior do que isso. É político, sim, como nossa conversa é política. Mas daí a se tornar uma coisa panfletária, não. A gente está falando de humanidade, de filosofia, de busca, de provocação, de arte.

Cão sem plumas

Companhia de Dança Deborah Colker. Coreografia: Deborah Colker. Hoje, às 21h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Eixo Monumental). Ingressos de R$ 70 a R$ 340. Assinantes do Correio têm desconto de 50% na compra de até 4 ingressos inteiros, mediante apresentação do cartão (clube do assinante), somente na central de ingressos do  Brasília Shopping.
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