Longas do Festival de Brasília contemplam temáticas variadas

Filmes abordam racismo, homossexualidade e violência. A pluralidade está nas telas!

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postado em 13/08/2017 07:00 / atualizado em 11/08/2017 18:12

Katásia Filmes/Divulgação
 

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro completa 50 edições antenado com os tempos de busca pela pluradidade que vivemos. Tais características podem ser observadas na seleção oficial das mostras competitivas deste ano.



Diretoras experientes como Daniela Thomas (de Vazante, exibido no Festival de Berlim) e Heloisa Passos (à frente de Construindo pontes) demarcam não só a presença feminina, mas ainda afinam o discurso sempre questionador atrelado ao festival. Vazante trata de temas como exploração sexual durante a escravatura e o documentário de Heloísa Passos examina laços de afeto familiar modificados pelo estabelecimento da ditadura e pela construção de uma hidrelétrica nacional.

O misto entre ficção e realidade segue sendo proposição presente na lista dos selecionados para o evento na capital do país que transcorrerá entre os dias 15 e 24 de setembro. O ceilandense Adirley Queirós é quem traz hibridismo no longa Era uma vez Brasília, que figurou no Festival de Locarno (Suíça). Sob o investimento de R$ 350 mil, ele realizou um longa que altera parte da história experimentada por Brasília nesses 57 últimos anos. "Foi a minha experiência mais radical de linguagem até hoje. O cinema tem possibilidade de ser um instrumento de afirmação intelectual de classe. No meu filme, deixei liberdade para que os personagens mostrassem como queriam ser retratados", comentou o diretor que, há três anos, foi premiado pelo longa Branco sai, preto fica.


De esquerda
Sem camuflar as atuações como "militante de esquerda e realizador de filmes", o diretor pernambucano Marcelo Pedroso — premiado pela direção de Brasil S/A — virá novamente ao certame no qual esteve também com o curta Câmara escura (2012). Agora, será a vez de Por trás da linha de escudos, um documentário. "A ideia foi conhecer e entender a perspectiva de soldados e oficiais, num encontro delicado e sob a dificuldade de, num esforço de mão dupla, dividirmos a cena na dinâmica do filme", comentou.

Sem a pretensão de criar uma alegoria sobre o Brasil, a equipe de concorrentes por Arábia também dialoga com tema candente na sociedade: as discussões de direitos trabalhistas. "Com certeza há traçado político, na medida em que o filme assume como tarefa contar uma história não tão visível, por ângulo do menos favorecido", explica o codiretor João Dumans, ao lado do colega Affonso Uchoa. O contato de um menino com o diário de um trabalhador de fábrica que sofre acidente está no centro dos acontecimentos de Arábia. "Pelo lugar em que se coloca a narrativa, atenta ao olhar de um operário, com as relações pessoais dele, notamos o retorno de questões constantemente em pauta. Mexemos no tema da herança que vem desde o período colonial: violência e injustiças contra classes menos favorecidas", comenta o diretor João Dumans.

Baixo orçamento
Um cinema com aproximação diferenciada de temas sociais está na faixa de outro dos longas concorrentes a melhor filme do Festival de Brasília: o terror O nó do diabo, assinado coletivamente pelos paraibanos Ramon Porto Mota, Ian Abé e Jhesus Tribuzi, além do mineiro Gabriel Martins. Desafiando a "pouca infraestrutura" do cinema paraibano, o grupo operou milagre com um orçamento de R$ 650 mil. "Temos trabalhado muito o cinema de gênero, com reconhecimento de nossos curtas em festivais nacionais como o de Tiradentes", explica Ian Abé.

Derivado de uma série, com montagem compactada para longa-metragem, O nó do diabo apresenta cinco histórias. "Longe do horror trash ou cômico, da violência gratuita — ou dos filmes que têm 'efeito pelo efeito' —, acompanhamos o tipo de terror à la George Romero, com uma chave de fundo político. É um filme de horror em episódio. Tratamos dos horrores da escravidão", adianta o cineasta.

Numa outra esfera temática, o diretor gaúcho Ismael Caneppele defenderá o longa Música para quando as luzes se apagam. "É um documentário que fala sobre o transbordar que mistura ficção e realidade. Nada mais contemporâneo”, pontua ele, reconhecido pela trama de Os famosos e os duendes da morte (2009). Ao tratar do tema da juventude, Canepelle, que também é escritor, se percebe cercando "um momento de florescências; não que outras idades não o sejam". A responsabilidade de representar um segmento defasado no cinema nacional — o da juventude — traz inspiração e responsabilidade de “dar voz aos que falam menos, mas que dizem mais".

 

Sem marginalização do negro

Liz Riscado/Divulgação

A parceria estabelecida há sete anos entre os diretores Ary Rosa e Glenda Nicário, no curso de cinema da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), culminou com a chegada de ambos no Festival de Brasília. Depois da criação dos curtas-metragens Curta casa (2012) e Dilma (2014), em torno de uma dona de bar, Ary e Glenda obtiveram R$ 800 mil na seleção de editais da TVE Bahia e da Ancine, para a criação de Café com canela.

Com o longa estruturado por protagonistas negros, Ary Rosa enfatiza que não vê o preconceito racial como forma de temática. "Cachoeira (no interior baiano) é uma das cidades com mais negros no país. Ignorar esse dado seria negligenciar todas as classes e profissões da sociedade", comenta o diretor.

Com atores do Bando de Teatro Olodum, o longa não incorpora possível marginalização no patamar discursivo. "Optamos por corpos negros que naturalizassem a ação. Mas, por associação, o espectador pode notar um discurso político", ressalva Ary.

Três perguntas// Júlia Murat

Reprodução/Internet

O “enfrentamento” latente entre homens e mulheres, direita e esquerda, conservadores e libertários, é um alicerce explorado pelo filme, o concorrente a Candango Pendular?
Entendendo o enfrentamento como um debate e o inerente conflito que surge do encontro de ideias: sim, acho que a relação dos dois personagens produz um encontro, um debate e um conflito. No filme, os dois personagens dividem o espaço exatamente no meio, e logo adiante o escultor (um dos protagonistas) pede mais espaço, pois suas esculturas já não cabem mais na parte dele. O espaço dividido exatamente no meio não é suficiente para ele. Acredito que nas relações humanas achamos que a divisão igualitária seria o ideal, mas, na prática, ela nunca é possível. Alguém sempre precisa de mais do que o outro, mais carinho, mais atenção, mais espaço, mais amor. No entanto, é necessário politicamente buscarmos a igualdade: de gênero, de raça, de espaço político.

Não ficou receosa dos comparativos com linguagem de teatro, o tal “teatro filmado”, usando apenas um ambiente, na narrativa?

A linguagem do teatro sempre me influenciou: acho que o teatro tem uma liberdade dramatúrgica invejável, que lhe permite fugir do realismo. Por isso, não me assombraria a comparação com o teatro. Quando você diz “teatro filmado” imagino que esteja questionando o fato de fazermos um filme em uma única locação. Pendular é um filme sobre claustrofobia, ou como uma relação aparentemente saudável pode ser claustrofóbica. O que melhor (do ponto de vista de linguagem) para construir uma claustrofobia do que o cerceamento de um filme em uma única locação? Foi uma escolha de linguagem.

Qual a importância da sua mãe (a diretora Lúcia Murat) na carreira e como percebe a trajetória de ambas na perspectiva do Festival de Brasília?
Toda. Eu sou uma pessoa extremamente privilegiada: filha de uma cineasta reconhecida que sempre me abriu caminhos. Fui criada num lugar de pouquíssimo machismo, onde sempre tive muito apoio e ajuda. Tirar a minha mãe da equação que me leva a apresentar o filme em Brasília seria injusto, tanto com ela, como com todas as pessoas que sempre batalharam para entrar nesse difícil e elitista meio cinematográfico.

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