Em novo romance, José Eduardo Agualusa fala de sonhos e de Angola

Escritor angolano José Eduardo Agualusa faz romance sobre sonhos e sobre o país natal

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postado em 14/08/2017 07:30

 
Tusquets/Divulgação
 
Logo nas primeiras 30 páginas de Sociedade dos sonhadores involuntários, o narrador dispara: “Não gosto de música brasileira. Não gosto de nada que venha do Brasil. Odeio o Brasil.” O sujeito começa, então, a listar as exceções. Inclui aí Paulinho da Viola, Pelé, a Mangueira. E basta. Segundo José Eduardo Agualusa, autor do romance cujo protagonista dedica especial atenção aos sonhos, o personagem representa um “tipo angolano” que costuma declarar não gostar do Brasil para logo em seguida se desmentir. 

O próprio Agualusa, nascido e criado em Angola, tem lá sua lista de coisas das quais não gosta por aqui. “Não gosto da classe política brasileira, não gosto de uma certa elite brasileira que me parece muito antibrasileira, não gosto de Bolsonaro, que não me parece brasileiro. Vai mais pela classe política e pela elite brasileira”, avisa o autor, que esteve no país para lançar seu Sociedade dos sonhadores involuntários.

O novo romance brotou enquanto Agualusa escrevia um livro completamente diferente. Foi há pouco mais de dois anos, quando esteve em Natal para conhecer o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, que pesquisa sonhos. Na época, Agualusa escrevia A rainha Ginga, um romance histórico sobre personagem fundamental para a formação da identidade angolana. “O Sidarta tem o papel no sentido de me ter posto para pensar sobre o sonho. Eu li uma entrevista dele na qual falava em estudar os sonhos. E fui à procura dele. Consegui ficar em Natal com uma bolsa, escrevi parte de A rainha Ginga. E o fato de ter conhecido o Sidarta e as conversas que tive com ele foram importantes para o livro”, avisa o escritor.

Em Sociedade dos sonhadores involuntários, um jornalista angolano que sonha com pessoas que não conhece se envolve com várias pessoas que, como ele, têm ligação especial com os próprios sonhos. Em Cuba, conhece um homem que transita pelos sonhos dos outros. Na África do Sul, uma artista plástica que transforma os próprios sonhos em fotografias. Há fantasia, um tanto de surrealismo, mas também muita realidade no romance. 

Esta última vem em forma de comentário político sobre um tema que Agualusa queria muito tratar. A certa altura, a filha do jornalista acaba presa depois de se envolver em movimento de protesto contra o ditador do país.

Angola, sabe-se, vive uma ditadura, com o presidente José Eduardo dos Santos no poder há mais de 37 anos. Em 2014, um grupo de jovens decidiu protestar contra o ditador e acabou preso. O rosto que deu cara ao movimento foi o do músico Luaty Beirão, preso, torturado, cuja greve de fome mobilizou outros jovens. 

Situação social

Beirão esteve na Flip no final de julho e, de certa forma, também inspirou Agualusa a criar um lado político para sua sociedade. “O livro nasce de duas situações diferentes. De um lado, vem de um interesse meu pelos sonhos, porque sonho muito e o sonho está no meu trabalho desde sempre”, explica. “Do outro, nasce de uma situação social em Angola que é a eclosão de um movimento jovem de contestação ao regime. De um lado, queria escrever um livro que tivesse a ver com essa relação das pessoas com os sonhos e do outro, e queria escrever algo que tivesse a ver com diferentes gerações da sociedade angolana, com uma geração mais velha e com uma geração mais jovem e seu comportamento diante da resistência ao regime.” 

Valorizar os sonhos, o escritor conta, é algo comum na vida de artistas. Ele cita músicos que criaram melodias a partir do mundo onírico, pintores como Salvador Dali, que desenvolvia técnicas para acordar no meio da noite, a tempo de lembrar-se o suficiente para pintar, de escritores que sonharam com seus personagens. O próprio Agualusa mantém um diário no qual anota os próprios sonhos. É sobre como lida com esse mundo, mas também com o mundo real, que o escritor fala em entrevista ao Correio.

Entrevista / José Eduardo Agualusa

Sonhos são pouco valorizados hoje em dia?
Sim. O Sidarta Ribeiro disse que, desde sempre, os sonhos tinham uma utilidade prática para as pessoas, as pessoas pensavam naquilo que sonhavam. É uma função prática. Quando você sonha com a morte de sua mulher, por exemplo, pode estar fazendo o luto, preparando o luto dessa mulher. São sonhos práticos. A relação que tenho com os sonhos é bastante utilitária. E não é nada de extraordinário, porque acontece muito com escritores, criadores, artistas plásticos, músicos. Portanto, essa é uma utilidade prática dos sonhos.

Por que não valorizamos?
Acho que nossa sociedade contemporânea perdeu muitas tradições. No mundo urbano se perderam outros universos que se mantêm no mundo rural. Isso tem a ver com a rapidez que vivemos, provavelmente com a evolução de uma série de situações. Há questões que a própria ciência afastou, mas outras, provavelmente, não têm uma explicação. Há várias maneiras de olhar para os sonhos, não necessariamente de uma forma mágica, mas de uma forma prática.

Tem um momento em que o personagem, atingido por um raio, fala da memória, da perda de memória. Não valorizamos a memória também?
Acho que temos medo de pensar sobre isso. Nós somos nossa memória, cada um de nós é aquilo que se lembra. E nossa memória é muito frágil. Dá um certo medo pensar que somos tão frágeis, pensar a respeito de algo tão tênue. Faço um diário há 10 anos e quem faz diário tem uma percepção disso porque, lendo o diário, você vai lembrando de acontecimentos que sumiram da memória, inclusive de pessoas com as quais você conviveu e que se apagaram por completo. Você percebe que, ao se apagarem essas pessoas e esses momentos, muito de você desapareceu também. Somos a soma de todos os acontecimentos da nossa vida, das nossas vivências, mas lembramos de tão pouco. Não temos grande espaço para a memória.

Olhando para Angola e para o Brasil, dois países tão ligados historicamente, o que você vê de semelhanças hoje?
Tem e não tem, porque são situações muito diferentes. O Brasil acompanha Angola na sua evolução, no seu crescimento, na sua gênese. São países que nascem ao mesmo tempo e vão alimentando um ao outro. Angola formou o Brasil, mas o Brasil também formou Angola ao longo dos séculos. Se Angola tem noção disso, o Brasil não tem. O Brasil foi também esquecendo Angola. Esquecendo sua origem. Mas, a meu ver, o que o Brasil tem de melhor é exatamente essa matriz africana, essas expressões culturais de matriz africana que vão da música ao candomblé, da capoeira ao carnaval. O que o Brasil tem de pior é uma expressão que vem ainda hoje do pior que o Brasil já teve, que é a escravatura, que é a formação das classes econômicas que ainda hoje dominam o país.

E em Angola é diferente?
Angola é um pouco diferente, é um país que teve escravatura sim, mas de uma forma bastante diversa, e que venceu o colonialismo português através das armas. O Brasil não teve propriamente que lutar, a independência foi dada pelos portugueses. Então, de certa maneira, a política que estava instalada e a classe colonial continuaram no poder como uma espécie de endocolonialismo que se completou no Brasil. Isso é diferente de Angola. Também temos um endocolonialismo, mas um pouco diferente, um pouco atenuado, porque houve uma independência conseguida de forma violenta, e a classe que chegou ao poder não era exatamente de portugueses. Mesmo assim, acho que é uma classe com uma certa expectativa de exploração colonial.

Ainda não conseguimos fazer uma discussão madura do que foi a escravidão?
Acho que, em termos de discussão acadêmica, ela tem sido feita.

Mas e na sociedade, na classe média de forma geral?
Provavelmente não, porque isso se vê até hoje na relação entre as pessoas. Como você tem um país de maioria africana e esses africanos não estão representados no poder? Até na questão da representação isso se nota. E é um caso até extraordinário, porque não é o quarto mundo esses países que fizeram uma origem semelhante ao Brasil. Países como a Jamaica, que tiveram processo semelhante de formação, não têm essa relação que no Brasil persiste de desigualdade racial e de representação das pessoas no poder. Isso não existe lá de maneira nenhuma. É um pouco estranho.

Podemos dizer que Sociedade dos sonhadores involuntários tem um quê de fantástico?
Tem algo de onírico mesmo. Por isso é um livro sobre sonhos. É um livro onde os sonhos acabam triunfando. Eu cada vez tenho mais dúvidas sobre fronteiras do quem quer que seja, mas também essa fronteira do real e do não real. Nossos sonhos são reais dentro de nós, o que você sente enquanto sonha é completamente real, as emoções são reais, você acorda chorando, rindo ou com aquela tristeza, que é absolutamente real. O que é real e o que não é? Essa fronteira não é tão concreta como nós gostamos de imaginar que é.

“Eu cada vez tenho mais dúvidas sobre fronteiras do quem quer que seja, mas também essa fronteira do real e do não real”
 

Sociedade dos sonhadores involuntários
De José Eduardo Agualusa. Tusquets, 256 páginas. R$ 41,90
 
 
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