Antonio Meneses vai do erudito ao popular em recital na cidade

Principal nome do violoncelo contemporâneo no Brasil se apresenta hoje

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postado em 15/08/2017 07:12 / atualizado em 15/08/2017 15:57

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Antonio Meneses gosta de tocar peças escritas por violoncelistas. Eles costumam fazer transições precisas. Conhecem e têm intimidade com as possibilidades do instrumento, o que pode, muitas vezes, resultar em grandes composições. É o caso do repertório que o violoncelista toca hoje em Brasília, em recital que faz parte da série Solo Música. Maior nome do violoncelo contemporâneo no Brasil e um dos mais importantes do mundo, o músico nascido em Recife e radicado em Berna (Suíça) sobe ao palco do teatro da Caixa hoje para tocar Bach, Alfredo Piatti, Gaspar Cassadó e Clóvis Pereira. É um repertório no qual está bem à vontade, já que todas as peças aparecem em discos gravados ao longo das últimas cinco décadas de trajetória. Para quem conhece o trabalho do músico, será uma oportunidade para reviver alguns de seus melhores momentos. Para quem não conhece, o recital de hoje é a melhor das cartas de apresentação.

Em uma introdução a Antonio Meneses — que foi aluno de Antonio Janigro, já tocou com a Filarmônica de Berlim e sob regência de Herbert von Karajan, Claudio Abbado e Mstislav Rostropovih e Riccardo Chailly, além de ter sido integrante do Beaux Arts Trio —, não poderiam faltar as suítes para violoncelo de Johann Sebastian Bach. As peças foram gravadas pelo músico em 2004 e o disco se tornou um daqueles incontornáveis nas estantes de quem gosta de boa música. Do italiano Allredo Piatti, Meneses gravou todos os 12 Caprichos.

Em Brasília, ele toca apenas três. De Cassadó, espanhol da Catalunha, o violoncelista faz uma suíte cheia de referências melódicas. “Esses dois compositores foram grandes violoncelistas”, garante o músico, em entrevista ao Correio. “Piatti era chamado de Paganini do violoncelo. Fez uma obra bastante extensa, mas esses caprichos são importantes no repertório violoncelístico principalmente como estudos. Eu acho que eles são mais que simples estudos, acho que devem ser tocados também.”

Referências
Piatti viveu no século 19 e Cassadó morreu em 1966. Este último é, portanto, um homem do século 20 e um dos nomes que ajudou a incrementar o repertório de peças para violoncelo. Estudou com Pablo Casals, um dos maiores violoncelistas do século 20, e incorporou muitos elementos da música espanhola em composições que hoje já são clássicas. Dele, Meneses toca uma suíte que classifica como “bastante espanholada”.

“É uma música com muitos temas, muito tipicamente espanhola, com uma dança catalã que é a sardana, que tem no último movimento, no qual ele faz uma espécie de pot-pourri de danças e canções. É uma música muito bacana, muito vibrante, cheia de energia”, avisa o instrumentista, que também ajuda a incrementar o repertório para violoncelo no século 21, já que compositores como Marlos Nobre, Clóvis Pereira e Almeida Prado escreveram para ele.

A Suíte Macambira, da qual toca hoje o trecho O canto do cego, foi composta pelo pernambucano Clóvis Pereira especialmente para Meneses e simboliza uma aproximação que o músico queria há tempos e acaba de colocar em prática em um encontro notável. “É uma parte dessa minha ida para o lado do popular, só que de uma maneira mais clássica”, repara o instrumentista.

Há alguns anos, Antonio Meneses ensaia gravar música popular e, embora suas gravações dos últimos dois anos sejam dedicadas a compositores como Schumann, Tchaikovsky, Saint-Saëns, Kodály, Webern e Schöpnberg, há aqui e ali um indício da vontade de conversar com a produção da terra natal. Para efetivar essa vontade, ele se juntou ao pianista André Mehmari e os dois gravaram juntos um disco que comemora datas redondas. Lançado oficialmente este mês com um recital em Ilha Bela, no litoral paulista, AM60 AM40 (60 anos de Meneses, 40 de Mehmari) tem de Bach a baião, passando por Tom Jobim, Piazzolla, Alberto Ginastera e muito improviso de Mehmari.

Ele assina a Suíte Brasileira, composição em seis movimentos dedicada a Meneses e com trechos escritos especialmente para o violoncelo. “Ele soube escrever bem para o violoncelo, é uma obra que não é fácil de tocar, mas ficou bem escrita no final das contas, e a parte dele é toda improvisada. Minha parte é escrita, mas a dele não. E cada vez que a gente toca sai diferente”, conta Meneses.

Entrevista // Antonio Meneses
O disco com Mehmari tem muito mais MPB do que você já gravou anteriormente. Por quê?
Nós fizemos esse CD pra comemorar fazendo música. E como nós viemos de mundos completamente diferentes, ele é mais da música popular, apesar de o Mehmari também ser um músico clássico, e eu sou muito mais um músico clássico, encontramos uma maneira de conversarmos musicalmente. Ele escreveu peças, transcrições, estamos tocando obras também de Bach, de Piazzolla, de Ginastera. Entre o meu mundo e o mundo dele.

O que seria o meio dessemundo onde vocês se encontram?
Olha, é uma música que eu digo que pode ser um clássico popular ou um popular clássico. Por exemplo: as obras de Bach são tão populares que todo mundo conhece. Há músicas de Tom Jobim que são clássicos. Mehmari fez a transcrição de uma canção de Tom Jobim, Sem você, que é justamente aí que a gente se encontra.

Você já tinha se aproximado um pouco do popular, mas nesse disco, isso é explícito. Por quê?
Eu sempre gostei muito de um certo tipo de música popular brasileira, principalmente aquilo de que me lembro de quando era garoto, de quando ainda morava no Brasil. E que era choro, todo tipo de samba, canções brasileiras e a música nordestina que, naturalmente, eu sempre adorei, como frevo e baião. Além disso, era o tipo de música que meu pai, que era músico também, cantava muito em casa. Não era nada profissional, só de brincadeira. E eu adorava as canções que ele cantava. Algumas das canções que estamos fazendo vêm desse tempo, do meu desejo de tocar outro tipo de música algum dia.

No repertório que você toca em Brasília, há composições de dois violoncelistas. É diferente ocar uma peça escrita para violoncelo por um violoncelista?
O que acontece é que o violoncelista explora melhor todas as possíveis técnicas do instrumento. Piatti, por exemplo, tem obras que são dois, três violoncelos tocando. Ele sabe fazer uma transição naturalmente, de uma maneira que um compositor que é pianista perguntaria, pediria ajuda a um violoncelista. E isso faz uma certa diferença.

Você é professor em Berna e em Cremona. Como é o violoncelo hoje? Há muito interesse? Você nota aumento ou diminuição do interesse pelo instrumento?
Sem dúvida nenhuma, o violoncelo é um instrumento bem mais popular do que na primeira metade do século 20. Custou muito a popularizar. Grandes instrumentistas por exemplo pediam aos melhores compositores da época deles que escrevessem obras para violoncelo, então, o repertório cresceu incrivelmente. E, hoje em dia, há uma quantidade enorme de jovens querendo tocar violoncelo. O interessante é que há muitas mulheres, muitas moças. Minha classe de Cremona tem oito moças e dois rapazes. É uma coisa interessantíssima de se notar o interesse das moças em tocar esse instrumento. Existia antes, mas era muito menor.

Como equilibrar virtuosismo, emoção e respeito pela escrita?
Isso é um trabalho muito grande, muito importante e acho que muito de cada músico. Existem músicos que primam pela técnica, mas se você não consegue encontrar um meio termo, você nunca vai ser realmente um grande artista. É preciso compreender bem a obra e, ao mesmo tempo, a intuição também é necessária.

Série Solo Música - Antonio Meneses
Hoje, às 20h, no Teatro da CAIXA. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Classificação indicativa: 12 anos.
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