Confira como anda o mercado de efeitos especiais no Brasil

A estreia do filme 'Malasartes e o duelo com a morte' fica marcado como o longa-metragem com maior uso da técnica

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postado em 15/08/2017 07:15 / atualizado em 14/08/2017 19:13

Reprodução/Internet
 
 
Grande parte da magia do cinema se encontra naquilo que sai do real, que só é possível dentro do mundo das telonas, naquelas circunstâncias. E se a imaginação para criar outra realidade tão especifica é um pré-requisito básico para qualquer cineasta, a capacidade de colocar todas essas ideias em prática é um verdadeiro desafio ao cinema nacional, mas que o filme Malasartes e o duelo com a morte parece ter superado.

A produção marca a história do audiovisual brasileiro como o filme com maior uso de recursos de efeitos especiais até o momento, segundo a produtora 02 Filmes. Foram criados 700 planos digitalmente, contabilizando quase 50% de sua duração — em alguns momentos, os atores foram completamente recriados via animação. A empreitada custou ao estúdio quase R$ 10 milhões, sendo R$ 4,5 milhões somente para a pós-produção.

Paulo Barcellos, diretor da 02 Pós, um braço da produtora designado a pós-produção, conversou com o Diversão & Arte para contar um pouco sobre o processo de criar uma obrar com recursos até então inimagináveis ao cenário nacional. “O (diretor) Paulo Morelli planejava o filme há uns 20 anos, mais ou menos, mas nunca foi possível pois seria muito caro, mas, há três anos, ele quis retomar e a gente embarcou no desafio”, relembra.

Diferentemente das grandes produções norte-americanas, o contexto nacional ainda não tem muita experiência em trabalho de longa escala com efeitos especiais, e, segundo Barcellos, esse foi um dos principais desafios para a construção da história de Malasartes.

“A maior dificuldade de trabalhar com tantos efeitos especiais é a falta de experiência para todo mundo. Todos estavam aprendendo a lidar com tudo isso, então, a primeira barreira foi especializar a equipe, mas depois da primeira semana já estávamos acertados”, explica Barcellos, que ainda conta que alguns profissionais da pós-produção já estão com novos empregos no exterior após o trabalho em Malasartes.

Futuro
A expectativa agora é que o cinema nacional seja impulsionado pelos números relacionados aos efeitos especiais que a pós-produção de Barcellos criou. “O Malasartes foi uma oportunidade de mostrar o quanto o Brasil é capaz de produzir em animação gráfica. Esperamos que a demanda aumente, vamos explorar o gênero e ampliar nossas ferramentas de trabalho”, sustenta.

Para Marcus Ligocki, membro da Associação de Produtores e Realizadores de Longa-Metragem do Distrito Federal, o cinema nacional está em um momento favorável para o desenvolvimento e uso de efeitos especiais. “É um momento especial para o cinema brasileiro, principalmente nessa perspectiva, porque estamos flertando com o cinema internacional”, aponta Ligocki, que ainda completa: “As produtoras estão se dedicando ao cinema e não só à publicidade. Temos produções de animação com qualidade da Pixar. O importante é lembrar que os desenvolvimentos dos efeitos especiais acontecem paralelamente ao desenvolvimento do roteiro, fotografia. Trata-se de todo um conjunto”.

Já para Santiago Dellape, membro da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo, os efeitos especiais estão ganhando espaço no cinema nacional, mas devem ser usados para ajudar a compor uma narrativa melhor. “É importante que os efeitos especiais se encaixem dentro da narrativa, eles tem de ser usados quando necessários, assim a história fica melhor”, defende.
 
Linha do tempo dos efeitos especiais (1878 até hoje)

Os efeitos especiais fazem parte da história do cinema, nasceram junto com as primeiras gravações, afinal, o próprio movimento faz parte de uma ilusão, e para ilustrar essa situação, nada melhor do que ver a evolução desse desenvolvimento:

Corte
Uma das primeiras representações claras de um efeito especial foi realizada por Thomas Edison e Alfred Clark em The Execution of Mary, Queen of Scots, ainda em 1893. O famoso inventor gravou algo que seria tosco hoje em dia – o corte e troca de uma atriz por um boneco, mas que na época foi surpreendente.

Ficção cientifica
Em 1902, foi a vez de George Méliès apresentar Le Voyage Dans La Lune. A primeira ficção cientifica do cinema apresenta a produção de miniaturas, exposições múltiplas com espelho, pinturas de fundos e vários artifícios para compor a história

Maquiagens
Com Nosferatu, Friedrich Wilhelm Murnau apresentou ao mundo o assustador monstro de 1922. Com muito trabalho na maquiagem, o alemão também acelerou a projeção de alguns trechos e fez, com auxilio de negativos, recursos visuais inéditos até então.

Slow Motion
The Lost Word colocou em cenas um recurso que mudaria para sempre a história dos efeitos especiais no cinema: o slow motion. Em 1925, o diretor Harry Hoyt desenvolveu a técnica de execução quadro a quadro para dá vida a miniaturas de dinossauros. Até hoje, algumas técnicas funcionam a partir dessa ferramenta.

Croma-key
Com King Kong em 1933, Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack desenvolveram o projeto primitivo do que seria muito utilizado hoje como croma-key, uma filmagem em fundo distinto que permite um horizonte de vários cenários, como também aconteceu em The Wizard of OZ, em 1939.

CGI
No começo da década de 1990, o até então pouco conhecido diretor Steven Spielberg iria despontar em relação à realidade dos efeitos especiais com o lançamento de Jurassic Park. Maquinas e ostensivo uso de CGI (imagens geradas por computação gráfica) transformaram o filme em um super hit.

Motion Capture
Em 2003, Peter Jackson fechava o ciclo de Senhor dos Anéis no cinema e dava um importante passo em direção a efeitos especiais. O diretor resolveu aprimorar o uso de CGI com utensílios reais, aumentando, e muito, a verossimilhança do que o público via. Inclusive, alguns anos depois, Avatar apresentava a evolução deste recurso com um Motion Capture (captura de movimento), que cria uma espécie de “clone invisível” dos atores, e os fazem atuar em outra dimensão. James Cameron, em Avatar, também potencializou os limites do uso do 3D, que através de reproduções de tela em diferentes ângulos – e polarizados pelos óculos – causam a ilusão de saída de tela.

No Brasil
No Brasil, produções com uso de efeitos especiais também fazem parte de grandes sucessos das telonas – e telinhas. Desde as produções de terror, simbolizadas pelo Zé do Caixão, até as apostas de comedias dos trapalhões e, mais recentemente O Auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes, os cineastas nacionais apostam no uso dos efeitos, mesmo que a baixo custo, para aprimorar a narrativa das histórias.
 
* Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira





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